Terminadas as férias na praia do sul dourado, encontro, com surpresa, o Eduardo Lourenço de Montaigne ou a vida escrita (Gradiva, Julho, 2025; 1ª ed. francesa L’Escampette, 2004). Eis um desses textos que se procura e não se encontra, nunca mais, até que, de tanto esquecido, e chegado um póstumo Agosto, aí está.
De Lourenço volto ao sul: o meu, algarvio-em-férias, em esquadria do Marquês; o dele, Nice, Vence, com Matisse em fundo.

Figura 1 – Planta Geral da Villa de Santo Antonio de Arenilha. ca 1774]. – Anotações pelo Marquês de Pombal. Fonte: https://parceriadasconservas.wordpress.com/wp-content/uploads/2015/11/vilarealgravuraplanta.jpg
Se os lugares nos confundem na sua, por vezes esgotante, pregnância material, o que deste meu lugar de empréstimo retenho é uma inscrição na parede escalavrada: «procurar em cada sombra a luz que a desenhou» (palavras do poeta José Carlos Barros, diz-me, sem lhe pedir nada, a intrusiva menina I.A.). O que me tocou foi a consonância daquela imagem nocturna – na outrora Rua do Infante – com a experiência táctil e visual da sombra, não como o oposto mas, precisamente, como complemento necessário da vertiginosa luz do Mediterrâneo-Atlântico em que nos movemos na estação dos figos.

Figura 2 – “Procurar em cada sombra a luz que a desenhou”. Foto © João Santos
Da península para Vence. Lugar ainda inédito no meu exíguo caderno de viagens, mas entrevisto na magnífica Chapelle du Rosaire (1951) concebida por Matisse (1869-1954) para as irmãs dominicanas. Nuno Portas, membro destacado do Movimento de Renovação da Arte Religiosa e co-autor, com Nuno Teotónio Pereira, de um dos mais fascinantes exemplares de arquitectura religiosa moderna em Portugal, fala dela, embora com reserva, mas isso só descubro agora que partiu. Das suas palavras retiro, porém, que, na «capela de Vence […,] Matisse volta a propor um tratamento psicológico-plástico do espaço pela cor»[1]. O que me serve para retornar ao pintor de sombras e venezianas. Experimento olhar para esta tela: Intérieur au violon. A luz reflectida no vidro, as tábuas da veneziana entreaberta sobre a vegetação, e o azul (o mar?). Dirá, a propósito, J.F. Billetier: «um interior mobilado com simplicidade, depois venezianas meio-abertas, depois, além, a luz ofuscante do Mediterrâneo sem a qual, em contrapartida, a sombra não existiria: é uma representação do sujeito»[2].

Figura 3: Henri Matisse , 1917-18, Intérieur au violon, óleo sobre tela 116 x 89 cm, Statens Museum for Kunst, Copenhaga. Foto: https://www.cineclubdecaen.com/peinture/peintres/matisse/interieurauviolon.htm
Representação e/ou invenção do sujeito na escrita: o ensaio. O gascão Montaigne (1533-1592), não desdenhando dizer ‘eu’, reclama por isso mesmo a condição de sujeito que tenta, que experimenta, que, enfim, ‘ensaia’ o exercício da reflexão incarnada, o chiaro-oscuro do pensar (-se). A pergunta «que sais-je?» não faz dele um céptico: na verdade, só aquele que pergunta conhece o mais autêntico caminho para a certeza, diria Descartes. Aqui o sujeito não se descobre nas regiões de sombra. Ou sim, talvez, quando conta a amizade com o autor, precocemente falecido, do Discurso sobre a servidão voluntária – «Se me instam a dizer por que razão o amava, sinto que isso não se pode exprimir a não ser respondendo: “porque era ele, porque era eu.” Há, para além de todo o meu discurso […], não sei que força inexplicável e fatal, medianeira desta união.»[3] – ou quando mostra, como Hume mais tarde, que a unidade do sujeito não reside numa espécie de essência imutável, mas antes, e só, na fidelidade ao compromisso ontem assumido [4].
Voltando ao título, poderíamos dizer também ‘Montaigne ou a vida em trânsito’, como o mostra com o brilho habitual, Eduardo Lourenço. E a sua breve reflexão sobre o tempo, sugere-me um Santo Agostinho (354-430) sob o sol da outra margem do Mediterrâneo, enquanto leio: «O que agora claramente transparece é que nem há tempos futuros nem pretéritos. É impróprio afirmar: os tempos são três: pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das presentes, presente das futuras. Existem, pois, estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras.»[5] É assim também o tempo das férias estivais, uma espécie de dilatação utópica, um imoderado, sonhador, presente. Enquanto espero.
[1] «Arquitectura religiosa moderna em Portugal», Arquitectura, n.º 60, Outubro 1957, pp. 20-34, in João Alves da Cunha (org.), Movimento de Renovação da Arte Religiosa. Textos e Artigos, Brotéria/CNC, 2022, p. 147.
[2] Héraclite, le sujet, éd. Allia, Paris, p. 49
[3] Montaigne, Essais, Livre 1, ch. XXVIII, Garnier-Flammarion, 1969, p. 236.
[4] Cf. André Comte-Sponville, Pequeno tratado das grandes virtudes, II – A fidelidade, p. 29, Presença, 1995.
[5] Santo Agostinho, Confissões, Livro XI, 28, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1981.
João Santos é professor.










