Do tudo ao nada – o caminho necessário

| 26 Mar 2021

Ao longo da sua itinerância, os crentes podem apresentar-se diante de Deus de duas formas: com as mãos cheias de méritos, esforços e conquistas ou com as mãos simplesmente vazias. Na génese das duas atitudes estão corações ávidos e comprometidos com Deus; o que varia é o modo e o modo pode fazer muita diferença.

Penso que em geral todos começamos com grandes ímpetos de “acumulação”. No princípio da nossa vida de fé há muito a fazer: ganhar virtudes e destruir vícios, desfazer-nos do que nos afasta de Deus, sentir as asas da libertação das antigas escravidões, ganhar hábitos de oração e de vida interior etc., etc. Todo um programa intensivo de renovação que encetamos com enorme afinco, como aquele “primeiro amor” de que nos fala S. João no Apocalipse (Ap 2: 1-17).

Esse ímpeto inicial corresponde às conversões do coração, quando a fé tradicional cai por terra e dá lugar à fé pessoal, em efusões de luz e de graça que nos dão a certeza do Céu. Ou apenas quando não víamos e passámos a ver. Ou ainda quando odiávamos e, por obra da graça, passámos a amar.

“Larguemos todas as seguranças para sermos capazes Dele e, com Ele, de toda a alegria de uma vida sempre nova.” Foto © Andres-Umana \ Unsplash

A conversão do coração gera sempre alegria. Alegria por todo o lado, como se vê em todos os relatos dos convertidos, que dão festas e se sentem ébrios, tal é a ventania que deixa tudo a brilhar, alma e vida. Sabemos absolutamente que nada daquilo é nosso, que é puro dom. E passamos a viver só para Deus.

Nesse viver para Deus, como começámos por dizer, enchemo-nos de brios, cumprimos muitas metas e planos e, às tantas, os ídolos passamos a ser nós. Esforçamo-nos tanto que podemos dizer como o fariseu relatado no Evangelho de Lucas: “Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana, e dou os dízimos de tudo quanto possuo.” (Lucas 18: 11-12)

Nos nossos ímpetos para Deus, é muito fácil apropriarmo-nos dos Seus dons e sucumbirmos à pior das tentações, descrita no primeiro Livro Sagrado: “Sereis como Deuses”! (Génesis 3)

Sermos como deuses, a nós criaturas, faz-nos sempre julgadores, soberbos, intolerantes. Faz-nos também desconfiados, avaros, entrincheirados. E, à semelhança do tentador, mentirosos. Porque, essencialmente, achamos que conquistamos o Céu com os nossos méritos e ficamos cegos para a única evidência: nada temos que não tenhamos recebido.  (1 Coríntios 4).

De repente (ou não tão de repente) o que era puro e belo nesse começo luminoso torna-se baço e soturno, porque a pureza de Deus pede uma alma sempre nova, sempre espantada, tão vazia de si e de todas as seguranças que é capaz de O descobrir em cada ápice da sua simples existência. Por ser totalmente dependente, é totalmente entregue.

Nesse ponto percebemos que a conversão não é coisa de um dia, mas de todos os dias. E que nesse hábito de vida como convertidos devemos dar tudo: apresentar-nos de mãos vazias e um coração totalmente disponível para o que, em cada dia, Deus queira dar e pedir.

Nessa atitude entregue e realmente despojada, volta a alegria, a vida é sempre uma festa, porque nada é nosso e tudo de Deus: tempo, meios, planos, saúde, condição. Uma verdadeira aventura em que nos tornamos protagonistas de qualquer coisa que não sabemos, mas apenas pressentimos. E protagonistas emprestados, inválidos, surdos tantas vezes, mas enfim, loucamente amados.

Dessa primeira conversão, fica sempre a inesquecível luz de um amor incondicional, imerecido e eterno. Devemos tê-la gratamente presente para nos despirmos mais e mais, porque é sempre possível arrancarmos mais de nós para podermos suportar o dom da Sua mão[1].

Neste tempo (que ainda resta) de Quaresma, em que os cristãos são convidados ao despojamento imitando o seu Deus, tentemos a mesma via, larguemos todas as seguranças para sermos capazes Dele e, com Ele, de toda a alegria de uma vida sempre nova.

 

Dina Matos Ferreira é consultora e docente universitária

 

[1] Que poderei de mim mais arrancar, poema de Sophia de Mello Breyner Andresen

 

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