Maria Manuela Carvalho (1937-2022)

Do Vietname a Barrancos, a primeira mulher a ensinar teologia em Portugal

| 24 Jan 2022

Maria Manuela de Carvalho: a sua vida dividia-se entre “antes e depois do Vietname”. Foto © António Pedro Ferreira, cedida pelo autor.

 

A primeira mulher doutorada em Teologia a leccionar na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (FT/UCP), Maria Manuela de Carvalho, morreu neste domingo, 23 de Janeiro, no hospital de Beja.

O teólogo suíço Hans Urs von Balthasar, sobre quem fez a tese, dizia que “Deus é o céu e nós somos o céu, o amor purificador de Deus é o que chamamos purgatório e a perda de Deus é o que chamamos inferno”, recordava a professora amiúde, comentando: “A teologia não é só um saber, é um desejo profundo de conhecer Deus e o seu mistério, colocando-o ao serviço de outras pessoas.”

Não era de cor que a discípula de Balthasar, que fazia uma “Teologia de muita ternura”, fala da dimensão do serviço: tendo frequentado o primeiro ano do curso de serviço social do Instituto de Cultura Superior Católica, Manuela de Carvalho trabalharia depois nos bairros sociais da Musgueira e Padre Cruz, ambos em Lisboa. “Os bairros eram um dormitório, ao fim da tarde é que começava a haver pessoas para atender.”

Para trás ficara a vontade do pai de que Manuela fosse para Direito. “Eu não gostava, imaginava-me em tribunal a mentir e a ouvir mentiras. Eu ainda atirava com alguma coisa e acabava a ser acusada…”, ria. Recordava que a par da tradição familiar de fazer de Nossa Senhora a madrinha das crianças, o pai tinha sido quem melhor lhe falara de Deus: “Ele não era propriamente um praticante, mas ninguém nunca me falou de Deus como o meu pai – não me admira eu querer estudar Teologia, está nos genes.”

Depois, viera a hipótese de frequentar Letras, mas havia um tio médico que decretava: “Letras são tretas”. Ganhou o serviço social. Mas, fazendo parte das Auxiliares de Apostolado – instituto de mulheres celibatárias, que se disponibiliza para o apostolado católico – surgiu uma hipótese: ir para o Vietname, para ajudar a detectar mulheres que pudessem integrar também aquele instituto católico, já na perspectiva da unificação do país após a guerra civil que o partira em Norte e Sul, e do receio dos bispos de que houvesse perseguição religiosa, como acabaria por acontecer.

 

No Vietname, vestindo-se “à maneira deles”

Guerra do Vietname. Foto © Bettmann/CORBIS

 

Entre Junho de 1966 e Abril de 1967, Manuela encontrou o país aisático no auge da guerra. O povo era “muito interessante e acolhedor”. No início, a portuguesa era a “menina americana” e atiravam-lhe pedras. “Comecei a vestir-me à maneira deles e isso mudou.” Apesar da guerra, sentiu-se bem no país que tinha também nomes portugueses na sua primeira evangelização, no século XVIII, entre os quais o jesuíta Diogo de Carvalho. Teve de regressar a Portugal mais cedo do que pensava por ter contraído amebíase, uma doença tropical grave que provoca hemorragias internas.

Encontrou, também, uma experiência de “caridade impressionante” da parte dos cristãos: quem tem arroz, alimento com a mesma carga simbólica que o pão tem em outras culturas, guarda diariamente um punhado e no fim da semana distribui por quem precisa.

Esses dez meses intensos são, aliás, o marco que separa as duas etapas da sua vida: antes e depois do Vietname. “O país marcou-me muito: é uma cultura parecida com a chinesa, marcada pelo confucionismo, mas a grande religião é o culto dos antepassados.”

Outro aspecto: “Os vietnamitas têm o sentido da harmonia e toda a vida é feita para não quebrar a harmonia. Exemplo disso é que não se pode dizer não, nem sim; diz-se ‘em princípio estou de acordo, mas tudo depende do céu’. O céu tem um sentido divino, do qual depende toda a vida. E não se fazem filas, está sempre tudo ao monte, mas ninguém se zanga – isso é que seria quebrar a harmonia…”

Quando regressou, e depois de um período para recuperar, quis inscrever-se no curso da Católica. “Eu queria mesmo saber Teologia, queria saber tudo, precisava de tudo”, diz. “A Teologia é aprender sobretudo o mistério da cruz, que é amar com os outros. Por isso, toda a minha Teologia anda à volta do mistério pascal, porque tudo partiu da entrega de Cristo” à humanidade. “Quando falo do mistério de Deus, não é um domínio cognitivo, é uma questão prática, centrada na ‘gramática da plenitude’”, diz.

A ideia de Balthasar já citada serve para completar a reflexão: “O que é o céu? É Deus. O que é a purificação? É Deus, para quem por ele se deixa purificar. E o julgamento? É Deus, para quem por ele se deixa julgar. Não me perguntem se há labaredas ou fogo no inferno. O inferno é Deus para quem o nega, porque a pessoa não foi feita para estar só, mas para a comunhão.” A sua tese, aliás, defendida em 1978, foi sobre o Purgatório.

O título do trabalho académico era A Centralidade Cristológica do “Eschaton” nos escritos de Hans Urs von Balthasar (ed. UCP/Fundação Engº António de Almeida, 1993). Nascida em 1937, Manuela de Carvalho passaria, depois da defesa da tese, a ser professora da mesma faculdade, tendo publicado ainda vários outros livros.

 

O drama em falta e a infinita liberdade

Hans Urs von Balthasar continua a ser pertinente para o século XXI, dizia Manuela de Carvalho. Foto @ Direitos Reservados

 

Balthasar, dizia Manuela de Carvalho, continua a ser pertinente para o século XXI: “Ele baseia a sua Teologia num Deus que começa por manifestar-se através da beleza – essa é a primeira forma de Deus nos atrair.” E compara com o bom teatro, para dizer que faltou “drama a toda a Filosofia anterior ao século XX, limitando-se a coisas meramente especulativas”. Para o cristão, no entanto, o importante é “entrar na acção de Deus em Jesus Cristo – isso é a santidade, que se deve viver na relação entre a infinita liberdade de Deus e a liberdade finita da pessoa: ser santo é ser livre, mesmo se dizemos que o santo está preso à verdade e a Deus”.

Acerca da sua condição de primeira mulher a ensinar Teologia em Portugal, Manuela de Carvalho contava vários detalhes: “O facto de ter sido a primeira mulher a ser doutorada em Teologia pela UCP não foi perturbador. Pelo menos, nada senti.” Mas demorou: “Levei anos a fazer a tese, sempre a ensinar e sem anos sabáticos.”

Mais tarde, Manuela de Carvalho soube que um assistente da FT a acusara de “dominar a faculdade”. Explica: “Terá sido por causa da distribuição de matérias e por eu ter ficado com uma cadeira de Eclesiologia, onde ensinava futuros padres e futuros bispos…” O episódio não passou disso mesmo…

Uma mulher a ensinar teologia pode ser “útil”, porque se “poupa” no número de padres dedicados à tarefa, já que a sua “missão não é exercida por mulheres”, afirmava. Com “duas condições necessárias: que sejam mulheres de fé e que a transmitam aos alunos e colegas; e que se dediquem à investigação e a uma comunicação verdadeiramente teológica, isto é, bem fundamentada e transmitida em atitude de serviço.”

Uma mulher a fazer teologia é um “complemento à presença masculina”, dizia ainda a primeira professora doutorada da FT. “Há uma dimensão que a mulher pode dar à teologia: a de sublinhar o aspecto mais feminino da ternura e da amizade com os alunos.” No seu percurso, Manuela de Carvalho afirmava ter feito “verdadeiros amigos”, que davam um grande “testemunho de fé, fundamental para quem ensina teologia e para não se ficar apenas pela especulação abstracta”.

Cinco décadas depois do Vietname, depois do tempo dedicado ao ensino, Manuela de Carvalho refugiou-se em Barrancos, onde tinha raízes familiares: antepassados remotos terão sido senhores da terra, até ao seu tetravô, único que ficou quando os liberais entraram na terra e “queimaram arquivos e aniquilaram muita coisa”, forçando o resto da família a ir para Espanha. O trisavô, que tinha o vício do jogo, perdeu a maior parte da fortuna. “Foi um alívio.”

O apelo soou a partir da capital. “Estando em Lisboa, não tinha nada com que me ocupar. Pensei em vários sítios para onde pudesse ir, mas também gostava de fazer alguma coisa por dioceses onde ainda pudesse trabalhar e ser útil.”

Deu-se o caso de ter ido a Noudar passar uns dias. Logo depois, encontrou-se em Fátima com o actual bispo de Beja, D. João Marcos, que tinha sido seu aluno na faculdade, com quem teve uma primeira conversa. Perguntou ao pároco de Barrancos se saberia de uma casa pequena para arrendar ou comprar. Foi ver algumas e arrendou, por três meses, uma “casinha de bonecas”. Acabou por ficar e sentir-se, no processo de decisão, “conduzida pelo espírito de Deus.”

No Baixo Alentejo, a professora da FT foi-se dedicando à formação e pregação. “Pertenço à diocese de Beja, o bispo tem pedido várias coisas e a Lisboa só vou no dia da Universidade. Não estamos cá para mandar, mas para servir”, diz, a resumir esta fase. Apesar do papel que tem e de achar que a FT “pode perfeitamente ser dirigida por mulheres”, Manuela de Carvalho recusa liminarmente a ideia de que o ministério ordenado possa ser estendido às mulheres.

As exéquias de Maria Manuela de Carvalho serão celebradas nesta terça-feira: às 15h haverá missa no largo do cemitério de Barrancos, seguindo-se o funeral.

 

(Texto elaborado a partir da adaptação de excertos do livro Teologia Como Resistência, ed. UCEditora, texto de António Marujo e fotografias de António Pedro Ferreira. Sobre Manuela de Carvalho pode ler-se ainda o testemunho do franciscano fr. Isidro Lamelas.)

 

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