Dois anos sem Manuela Silva: Mulher de fé

| 7 Out 2021

 

“Manuela Silva era uma mulher de Fé.” Foto: Direitos reservados. 

 

Faz nesta quinta-feira, 7 de outubro de 2021, dois anos que Manuela Silva, humanamente nos deixou, partindo para a Casa do Pai. 

Há um ano escrevi: “Nós cristãos, contrariamente aos ensinamentos de Jesus, teimamos em celebrar nestas datas a partida, a saudade, a ausência, olhando apenas para o vazio deixado, entre nós, pelos que partem. Somos “homens de pouca fé” (Mt, 8, 26) como Jesus no-lo refere diversas vezes no Evangelho. E assim consideramos que a morte física, como a conseguimos percecionar, nos leva os entes queridos, esquecendo as palavras de Jesus.”

Repito esta meia dúzia de linhas, reforçando este pensamento, em memória da Manuela: somos nós, Ela não era, “homens de pouca fé”, como Jesus refere por diversas vezes no Evangelho. A Fé da Manuela era de facto, como todos os seus amigos puderam testemunhar, uma Fé inquebrantável. De Manuela Silva poderia dizer-se: era uma mulher de Fé. 

Ao longo destes dois anos foram múltiplas as vezes nas quais dei comigo a pensar “como faria a Manuela se fosse com ela”. Muitas e muitas vezes senti a falta da sua palavra amiga e sempre oportuna, da sua presença e do seu silêncio, afinal percebendo que a sua Fé nos faz muita falta.

Manuela Silva pertence àquele pequeno grupo de pessoas que por vezes temos o privilégio de se cruzarem na nossa vida e cuja presença nos marcam profundamente em múltiplas facetas. Na Igreja, na profissão, na vida do dia-a-dia, nas pequenas e nas grandes coisas, a Manuela era uma presença constante mesmo quando, fisicamente, ausente.

Aprendi com um texto de frei José Augusto Mourão, o.p. que “ninguém está mais perto de nós que os nossos mortos… Onde moram? Na memória dos vivos, na porta da história. É a sua vida abolida que nos permite existir.” Manuela Silva está, estará sempre na nossa memória, pela ausência da sua presença e pela presença na nossa história.

Permitam-me a ousadia de fazer-me intérprete da Manuela que continua ainda, passados estes dois anos, muito presente no meio de nós. Creio que ela nos diria que é preciso continuar a cuidar desta “casa comum” no caminho do pensamento de Francisco; creio que ela nos diria que é preciso continuar a cultivar e alimentar as amizades que crescem como as plantas e exigem respirar futuro; ela nos diria que a Fé é exigente e inseparável do amor ao outro, do cuidar do irmão e se alimenta da oração. A Manuela dir-nos-ia que é preciso continuar a viver, a correr riscos e a criar, tal como em toda a sua vida ela sempre fez. Ela sabia que acreditar era dar o seu coração, sem reservas nem tibiezas, com a certeza inabalável do amor de Cristo aos irmãos, muito principalmente aos mais pequenos e desprotegidos. 

Deveremos recordar Manuela Silva dizendo: “A morte não é nada. Eu apenas passei para o outro lado. Eu sou eu e tu és tu. O que fomos um para o outro, ainda o somos. Chama-me pelo nome que sempre utilizaste, fala comigo da forma descontraída com que sempre fizeste. Não mudes o teu tom de voz, não uses um tom solene ou triste… Eu estou apenas à tua espera, por um intervalo, algures muito perto, mesmo ao virar da esquina. Pensa em mim, reza por mim. Está tudo bem”, (Henry Scott-Holland, 1910).

Peço mais uma vez emprestada a palavra poética a frei José Augusto, para rezar pela Manuela e com a Manuela:

“Deus, tu conheces o nosso combate obscuro
e escandaloso com a morte:

que o Anjo da tua consolação semeie o Aberto
e a Beleza do teu Nome no rosto da nossa irmã Manuela
que ao nosso olhar deixou de ser visível.

Transforma a sua ausência visível em glória invisível
e nos abra o teu Anjo o reino do Dizível
para lá do que nenhuma palavra diz do amor e da morte
para que te reconheçamos
como o barqueiro que a morte muda e muda a vida.

A nós que fomos mergulhados
no sangue de Cristo
e no fogo do teu Espírito
envia-nos a atear o fogo da misericórdia
e do discernimento
que a descoberta da tristeza e da confusão
nos faça avançar para a claridade do Jardim

que abriu o tempo à presença
real da paz e da justiça
na vida daquela que nos foi irmã
e voz aguda,
neste tempo de momos articulados
nós to pedimos pelo Cristo iluminador
e pelo Espírito que tinge os nossos lábios
do teu Nome e do teu Êxodo.

(“Declinações”, in O Nome e a Forma, Lisboa, 2004)    

 

Fernando Gomes da Silva é engenheiro agrónomo.

 

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