Ivan Moody (1964-2024)

Dois concertos para um músico fora do tempo e do espaço, próximo de todos

| 1 Jun 2024

Ivan Moody

Ivan Moody: “afável e generoso, tinha sempre boas coisas para dizer a toda a gente”. Foto: Direitos reservados.

Dois concertos para um músico e um homem “fora do tempo e do espaço”, “próximo” de todas as pessoas: Ivan Moody, compositor de origem inglesa e que vivia em Portugal desde 1991, padre ortodoxo, morreu em 18 de Janeiro. Será homenageado já neste domingo, 2 de Junho, e no próximo dia 17, em dois concertos em Lisboa.

No primeiro, o Coro de Câmara Pavoslava e o Coro Académico Romanos Melodos, sob a direcção musical de Svetlana Poliakova, executarão peças monódicas e polifónicas do repertório sacro búlgaro, sérvio, russo, georgiano e grego. O concerto incluirá uma composição de Ivan Moody, o Ofertório de Quinta-feira Santa Vecheri Tvoeia, e decorre a partir das 17h de domingo na Igreja Evangélica Presbiteriana de Lisboa (Rua Tomás da Anunciação, 56-D, em Campo de Ourique).

O segundo concerto será integralmente dedicado ao repertório criado por Ivan Moody, uma “música de uma profundidade inesperada”, como diz ao 7MARGENS o também compositor João Madureira. No concerto de dia 17, o repertório incluirá, entre outras, Quartet of Life, Three Processionals, Eile mich Gott ou Istella. Será na Igreja Anglicana de St George, em Lisboa (Rua de São Jorge, 6, junto ao Jardim da Estrela), a partir das 19h e ambos os concertos são de entrada livre.

Entre esses dois universos cristãos, o anglicanismo e a ortodoxia, viajou Ivan Moody. Mas além da sua dimensão religiosa, que o levou a ser ordenado padre ortodoxo, ele era também compositor, musicólogo e marido e pai de família. E isso reflectiu-se no seu funeral, com tantas pessoas de diferentes origens presentes na cerimónia. “Parecia que tinha tido quatro vidas, reflectindo também todo o bem e o amor que ele vivia”, diz a esposa, Susana Moody, ao 7MARGENS, que destaca o seu carácter de trabalhador compulsivo. Além de pessoa muito “afável e generosa, sempre sorridente, que tinha sempre boas coisas para dizer a toda a gente”. E com um outra pequena paixão, que ganhou em 2017 quando apanhou um borrachinho pequeno que lhe caiu de uma palmeira aos pés. Com uns 10 centímetros, o pombo foi baptizado como Percival e criado por Ivan até 2022, quando morreu. “Mas essa admiração por estas nobres aves foi aumentando sempre”, acrescenta.

 

Ao telefone com a mãe

Um desenho de Ivan Moody nas Histórias do Prums, que ele criou para a mãe, durante a pandemia: o urso Prums era o seu companheiro desde que era pequeno. Direitos reservados. 

Nascido em Londres, em 11 de Junho de 1964, filho de pai electricista e mãe doméstica, Ivan tinha 13 anos quando anunciou em casa que queria ser compositor. “Com essa idade ele soube o que queria ser”, mas a sua mãe riu com uma forte gargalhada quando ouviu a declaração do filho, conta Susana. Ivan não desistiu e anos depois entraria no Royal Holloway College, na capital inglesa, para estudar composição.

Apesar de a relação com a mãe não ter sido fácil, depois da morte do pai, e coincidindo com a pandemia, Ivan aproximou-se dela: desenhava cartoons sobre histórias da família e passava horas ao telefone com ela, descrevendo-lhe os desenhos e ouvindo os seus risos. Acabou por escrever um livro para a mãe durante esse tempo, as Histórias do Prums, o urso que era o seu companheiro desde que era pequeno criança, descreve Susana. A mãe morreu pouco tempo antes do filho.

Educado fora da prática religiosa, apenas com as referências do anglicanismo tradicional na sociedade inglesa, Moody conheceu entretanto Paul Booth, um padre anglicano, uma “pessoa muito boa” como também recorda Susana. Foi “graças a ele” que Ivan decidiu, aos 15 anos, baptizar-se e tornar-se anglicano. Passou a tocar órgão na igreja da comunidade animada pelo reverendo Paul, que viria a estar no casamento de Ivan e Susana, em 1989, em Inglaterra, mas já numa igreja ortodoxa.

Na universidade, Ivan procurava mais do que o ensino lhe dava. Por isso pediu aulas privadas a John Tavener, um dos grandes nomes da música religiosa contemporânea, que se convertera ao cristianismo ortodoxo em 1977, quando a teologia e liturgia ortodoxas passaram a ser influências decisivas: Liturgia de São João Crisóstomo (1977), Akhmatova: Requiem (1979–80), o Grande Cânone de Santo André de Creta (1981) Akathist de Acção de Graças (1986), a Dormição da Virgem (1991) ou Queda e Ressurreição (2000) são algumas das suas obras que traduzem a espiritualidade ortodoxa.

Foi através de Tavener, conta ainda Susana Moody, que Ivan conheceu os ícones, a música e a mundivisão religiosa do cristianismo oriental. Claramente, o primeiro e mais importante impacto foram os ícones, diz Susana: “Aquela imagem tão profunda e tão etérea ao mesmo tempo, o facto de não serem humanizadas nem terem plano de profundidade, são janelas para uma dimensão muito superior à nossa.”

No final de 1987, Ivan decidiu adoptar a fé ortodoxa. Foi recebido na Igreja Russa, em Londres, onde aliás se celebrou a cerimónia do casamento com Susana – que quis um casamento misto, negado por um padre católico de Lisboa. Anos depois, ela decidiria também tornar-se ortodoxa. Profissionalmente, a música também os aproximava, já que Susana é cantora: integrou os La Batalla e o Concerto Atlântico, ambos com Pedro Caldeira Cabral, além do Coro de Câmara de Lisboa, Eborae Musica, Syntagma Musicum e Coro Gulbenkian, entre outros. Hoje integra o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, actuando por vezes também como solista.

Ivan brincava dizendo que 1988 tinha sido um ano muito importante na sua vida: mudou de namorada, de religião e emprego – tinha trabalhado para a Mapa Mundi, editora de música antiga e passou a ser administrador dos Tallis Scholars, grupo inglês de música antiga. O ser padre acabaria por ser, depois, uma espécie de “terceira vida”, além do compositor e do musicólogo, diz a esposa. Para ser ordenado, o que aconteceu em 2007, estudou Teologia Ortodoxa na Universidade de Joensu, na Finlândia.

 

Uma ausência e um testemunho

Capa do disco Akáthistos, a maior obra composta por Moody, na gravação dos Cappella Romana.

Tendo-se dedicado muito à música religiosa, a obra de Moody estende-se também a outros campos. “A música do Ivan inspira uma calma e uma contemplação inauditas. É como que uma ausência depressa marcada por um lado testemunhal, a que sou particularmente sensível”, diz João Madureira. “A isto junta-se um profundo conhecimento do aparelho vocal e instrumental com que lida em cada um dos seus projectos. A parcimónia que é comum a muitas das suas obras reforça toda esta sensação de uma música fora do tempo e do espaço, e no entanto muito próxima de nós.”

Musicólogo muito completo, publicou muitos estudos sobre a música da Europa Oriental e ortodoxa, incluindo a Rússia e os Balcãs. Música antiga e contemporânea, a relação da música com a espiritualidade ou a teologia, e a relação entre a expressão ortodoxa e a mediterrânica eram outros dos temas sobre os quais investigava e publicava. Serão precisamente essas intersecções e interesses que estarão presentes no concerto deste domingo, em Lisboa.

Além da investigação, Moody desenvolveu actividade académica no Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical (CESEM), da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, cuja direcção integrava. Mas colaborou também na construção de uma base de dados para o Centro Português de Música Contemporânea, além de ter dado aulas de Música da Igreja no Departamento de Teologia Ortodoxa da Universidade da Finlândia Oriental, em 2013- 2014. Foi ainda o primeiro presidente da Sociedade Internacional de Música da Igreja Ortodoxa (ISOCM). Em 2014, publicou o livro Modernism and Orthodox Spirituality in Contemporary Music (“Modernismo e Espiritualidade Ortodoxa na Música Contemporânea”).

Foram todas estas características que fizeram de Ivan Moody um nome incontornável para vários agrupamentos de renome internacional com os quais trabalhou ou que dirigiu, como os Hilliard Ensemble, Cappella Romana, Trio Mediaeval, Voces Angelicae, Kastalsky Chamber Choir ou o Coro da Catedral de São Jorge, de Novi Sad (Sérvia), entre outros.

Entre as suas obras mais notáveis estão o Canticum Canticorum I, escrito para os Hilliard Ensemble (1987), que se tornou a peça até hoje mais tocada; a Oração pelas Florestas (1990), que lhe valeu o Prémio do Festival Arts for the Earth; a oratória Paixão e Ressurreição (1992), baseada em textos litúrgicos ortodoxos; ou o hino Akáthistos (1998), a maior obra por ele composta, cantado pela Cappella Romana, dos Estados Unidos.

O Akáthistos, um dos hinos mais importantes da liturgia ortodoxa, significa literalmente “não sentado”, porque a peça é para cantar de pé. Começou por ser cantado provavelmente no início do século VI, no tempo depois do Natal: uma forma de celebrar o “papel cósmico” da Virgem Maria como mãe do Verbo de Deus encarnado, como se lê na apresentação do disco duplo dos Cappella Romana, mas progressivamente passou a sê-lo à volta do dia 25 de Março, festa da Anunciação. Hoje, é cantado por inteiro no quinto domingo de Quaresma e continua a ser inspiração para novas peças – como a de John Tavener. A obra de Moody alia a profundidade da música bizantina à intensidade da expressão do solista e dos coros (masculinos ou femininos) e à linguagem contemporânea dos ornamentos melódicos que enchem a expressão musical.

 

Diálogos musicais em espelho

Silêncio, dos Sete Lágrimas um dos discos portugueses com música de Ivan Moody.

O artigo sobre Ivan Moody na Wikipédia em inglês, genericamente correcto, inclui uma amostra do que foi o seu trabalho na criação musical, com uma lista parcial das peças que compôs e uma selecção de algumas das gravações mais importantes. A sua música foi gravada por algumas das etiquetas mais relevantes nas áreas da música contemporânea e/ou religiosa, como a ECM, Sony, Hyperion ou Cappella Romana.

Em Portugal, também grupos reconhecidos como os Sete Lágrimas, o Grupo de Música Contemporânea, Grupo Musical Olisipo, Ensemble Alpha ou a OrchestrUtopica executaram peças de Ivan Moody.

No caso dos Sete Lágrimas, dois discos incluem peças de Ivan Moody: Kleine Musik coloca a sua música em diálogo com a de Heinrich Schutz, compositor alemão luterano do século XVII. As peças de Schutz são retiradas de dois pequenos concertos espirituais, num tempo que coincide com a Guerra dos Trinta Anos. “Sempre considerei impressiva a música de Heinrich Schutz”, escrevia Moody no texto de apresentação. Impressiva na forma como “o estoicismo aparente esconde tanta riqueza e, não menos importante, uma triunfante proclamação de fé”. O diálogo entre ambos os compositores funciona como um espelho, como o próprio Moody reconhece, e traduz uma proximidade musical que atravessa séculos, num jogo de rara beleza em que ressalta o mistério de Deus.

Silêncio, pelo seu lado, surge do convite dos Sete Lágrimas a três artistas ligados a três diferentes tradições cristãs (Ivan Moody, ortodoxa, Andrew Smith, protestante, e João Madureira, católica) para comporem peças sobre textos bíblicos: o relato da criação do mundo no Génesis, as Lamentações de Jeremias e a Paixão de Jesus. O resultado é um diálogo dos compositores com a Bíblia, do religioso com a arte e dos compositores entre si, num profundo diálogo entre os três compositores tecido pelo fio do texto bíblico. Na sua peça, Moody recria a serenidade do ambiente preambular e a força do acto criador; Smith revela a voz do deserto e do exílio; Madureira dá uma intensidade inusitada à morte de Jesus. Às criações, os compositores acrescentaram uma peça antiga que recriaram, um hino russo, no caso de Moody, além de uma canção inglesa e uma cantiga de Santa Maria, de Afonso X.

 

O Pai Nosso em 11 línguas

A família Moody: Sebastian, Susana (cantora, toca viola da gamba), Ivan, Bárbara (toca trombone) e Sofia (toca tuba). Foto: Direitos reservados.

Na sua ligação à Igreja Ortodoxa, Ivan Moody travou conhecimento, em 1991, com o padre Alexandre Bonito, passando a organizar, com ele, liturgias duas vezes por mês numa capela em Caselas, cedida pelo Patriarcado de Lisboa. Com as vagas de imigrantes do Leste que começaram a vir para Portugal, muitos crentes ortodoxos da Roménia, Moldávia, Ucrânia, Rússia e outros países procuravam cada vez mais lugares para rezar e celebrar a sua fé. Por isso, logo depois da sua ordenação, Ivan Moody pediu autorização à comunidade anglicana do Estoril para celebrar na sua igreja, passando a animar ele próprio uma comunidade ortodoxa.

Ivan Moody foi ordenado, como padre ortodoxo, no âmbito do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla. Há três anos, por causa de questões várias, ligou-se ao Patriarcado da Sérvia. E, nos últimos dois anos, “ficou chocadíssimo” com a atitude do patriarca Cirilo, da Rússia, de apoiar a política de Putin em relação à Ucrânia. A sua igreja no Estoril tornou-se um “santuário de pessoas ucranianas, russas, moldavas…, aberta a toda a gente”, diz Susana Moody. Por vezes, a oração do Pai Nosso, em mais mais um sinal da imensa universalidade de Moody, foi rezada em simultâneo em pelo menos 11 línguas: russo, ucraniano, sérvio, romeno, moldavo, búlgaro, grego, italiano, francês, espanhol e árabe…

Na X Jornada de Teologia Prática, em 8 de Outubro de 2020, em plena pandemia, Ivan Moody afirmava: “Um dos desafios na ortodoxia é a noção da Tradição; isso pode paralisar ou, se é tomada criativamente, pode ser uma coisa viva. E deve ser uma coisa viva, porque a Igreja não pode ser um museu. Uma das soluções é escrever música de inspiração religiosa, espiritual, para a sala de concertos, que eu tenho feito muito. Há um espaço entre a igreja e a sala de concertos em que se inserem estas obras.”

Este foi o espaço, fora do tempo, em que viveu Ivan Moody.

 

(O vídeo com a conversa de Ivan Moody na Jornada de Teologia Prática pode ser visto a seguir)

(Texto corrigido às 11h30 de domingo, dia 2, nos pormenores da relação com os pais e sobre a criação do pombo Percival)

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