Sem qualquer intuito antológico, o 7MARGENS procurará chamar a atenção, nestes tempos, para músicos e músicas que traduzam a urgência da paz em relação a guerras e conflitos que persistem no mundo. Depois de um primeiro texto sobre a guerra da Ucrânia e um outro sobre o Afeganistão, publicámos também uma música que evoca o apelo de paz feito por muitas mães israelitas e palestinianas e uma recensão de um álbum pela paz no meio da guerra da palestiniana Haya Zaatry, que parecia antever os dias de hoje.
Sem uma garantia absoluta de regularidade*, assinalamos agora o 7 de outubro de 2023, quando ataques do Hamas deixaram mais de mil vítimas e cerca de 250 reféns em Israel, levando a uma ofensiva militar de Telavive que já matou mais de 40 mil pessoas, incluindo muitas crianças, em Gaza.

A capa do disco Passion Sources, coletânea organizada por Peter Gabriel.
Quando Baaba Maal, filho de pescador, cantor e violinista senegalês, nos convoca para a oração, a voz elevada a uma transcendência emocionante, no ecrã sucede-se a representação da Última Ceia, momento fundador do cristianismo. É, só aparentemente, uma provocação: um cantor educado na fé muçulmana ilustra a sonoridade do momento em que Jesus se senta à mesa com os seus discípulos, antes da sua morte.
É esta também a provocação maior dos dois discos que aqui trazemos, que incluem este Call to Prayer, de Baaba Maal: Passion Sources é uma coletânea que reúne cantores e músicos de diferentes regiões de África, Médio Oriente e Ásia, compilada por Peter Gabriel (o autor da icónica canção anti-apartheid Biko) para acompanhar o seu álbum Passion, a música que compôs para o filme de Martin Scorsese A Última Tentação de Cristo – outra provocação, que pouco importa para este (con)texto. Um e outro disco são peças notáveis que confluem, inevitavelmente, numa linguagem comum, apesar da dispersão geográfica, que é a da música.
Estes dois álbuns não nos falam, aparentemente, da importância da paz. Só aparentemente, também. Na sua amálgama de origens, da Etiópia ao Paquistão, de Marrocos ao Egito, da Arménia à Guiné, passando pela Índia, Irão, Senegal e Turquia, e na sua diversidade de sonoridades, entre percussões e guitarras, vozes que parecem falar com Deus, Peter Gabriel situa todas estas afinidades na Terra Santa da época de Jesus, pintando uma mensagem de cooperação e sem barreiras que rompe com as diferenças.
“Scorsese tinha pedido um novo tipo de partitura que não fosse nem antiga nem moderna, que não fosse um pastiche, mas que tivesse referências claras à região, tradições e atmosferas, mas que fosse em si mesma uma coisa viva”, explicou Gabriel sobre o seu trabalho de composição. Esta coisa viva cruza Nusrah Fateh Ali Khan, uma voz qawwali espantosa, das mais respeitadas no mundo islâmico, à exuberância rítmica de kongas e djembês dos guineenses Fatala, e termina com uma Song Of Complaint, um tema de origem arménia, que é a adaptação instrumental de The Song Of The Emigrant. Como descreveu Peter Gabriel, “a música é tocada num instrumento de palheta dupla chamado doudouk. Esta é uma versão instrumental de uma canção de dor que descreve a emigração forçada de uma pessoa devido à sua pobreza”.

Capa do disco de Peter Gabriel, Passion (Music for The Last Temptation of Christ),
É impossível não ver nesta música uma banda sonora também para o que se passa no Médio Oriente, de Israel ao Território Palestiniano Ocupado, passando pelo Líbano e Irão, canções de dor que pedem a cada nota por uma emergência de paz.
Peter Gabriel, Passion (Music for The Last Temptation of Christ), ed. Real World Records
Vários, Passion Sources, ed. Real World Records
(disponíveis no Spotify e outras plataformas digitais)
* — Esta rubrica é publicada pelo menos no dia 15 de cada mês. Os nossos leitores podem também sugerir músicas ou partes de obras musicais que possam traduzir a importância da paz, nomeadamente em regiões em conflito, podendo fazer acompanhar a sugestão de algum pequeno texto.










