“O valor simbólico da sacristia”

Dois personagens, um espaço, uma exposição

| 2 Dez 2023

Sacristia. Dependência de uma igreja onde são guardadas as alfaias litúrgicas e o sacerdote se paramenta para os ofícios.” [1]

Dom Afonso Castelo Branco, Bispo de Coimbra

Dom Afonso Castelo Branco, bispo de Coimbra, que mandou construir a sacristia seiscentista da Sé Velha.

O Museu Nacional Machado de Castro continua apostado em ancorar algumas das propostas que nos faz «nas “funções fundamentais dos museus” [2], como sejam a preservação do património, a investigação|estudo dos acervos, a comunicação (interpretação e disseminação ativa do conhecimento sobre as coleções) e a educação».

Propõe-nos, desta vez, e até 31 de dezembro, uma revisitação d’O Valor Simbólico da Sacristia, centrando o olhar no conjunto de painéis sobre madeira que Simão Rodrigues executou, nos alvores do século XVII, para a nova sacristia da Sé Velha, mandada construir havia poucos anos por D. Afonso de Castelo Branco, então bispo de Coimbra.

Mas vamos por partes.

Não caberá neste texto a análise dos muitos aspetos de que se revestiu a Contra-Reforma católica, em que o Concílio de Trento teve um papel crucial, ou, até, dos muitos outros que, vindo já de trás ou não sendo resposta às questões levantadas por Lutero e seus seguidores, são hoje identificados pela historiografia como sendo de Reforma católica (bastará recordar, entre vários outros aspetos, os muitos movimentos reformadores que atravessaram a Igreja ao longo do século XV, e de onde por exemplo resultaram muitas das ordens religiosas reformadas, e que o V Concílio de Latrão, 1512-1517, terminou em março deste último ano, o mesmo em que Lutero enviou as suas 95 teses ao Arcebispo de Mainz, em 31 de outubro).

Importa, porém, referir que o Papa Paulo III se empenhou fortemente na preparação do Concílio de Trento (que teve lugar em três períodos distintos: 1545-1549, 1551-1552, e 1562-1563), empenho de que veio a resultar o envolvimento não só de bispos e embaixadores como o de muitos dos elementos do colégio cardinalício [3], condição entendida como necessária para a reforma que se entendia como absolutamente urgente.

Concílio de Trento

Speculum Romanae Magnificentiae – Concílio de Trento. Gravura de Claude Duchet, 1565. Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque. / Wikimedia Commons

 

Os impactos da reunião conciliar na Igreja foram fortíssimos. Saliento dois aspetos que, sendo hoje banais, à época foram revolucionários: a norma passa a ser os bispos residirem nas dioceses que governam; os seminários são criados enquanto escolas de formação do clero. Tomam-se importantes decisões quanto à construção (e dignidade) dos espaços de culto e, no que à representação das imagens sagradas diz respeito, define-se um controlo com “[…] especial acento ideológico e programático que terá largos efeitos até ao século XVIII” [4]: “A Igreja apoderou-se nesse período do comando da arte religiosa, a fim de a expurgar das notas tidas por censuráveis e de promover uma iconografia de combate, de testemunho e de catequese” [5].

É neste quadro geral que se movem os dois personagens que aqui nos interessam: D. Afonso de Castelo Branco e Simão Rodrigues.

Armas de D. Afonso de Castelo Branco, Sacristia da Sé Velha, Coimbra.

 

O primeiro, bispo de Coimbra, é nomeado para a diocese em 25 de agosto de 1585, vindo do Algarve onde, em quatro anos, tinha deixado uma marca indelével, tendo patrocinado, entre outras: a construção do Paço Episcopal e da Misericórdia de Faro (cuja igreja nos apresenta uma incomum e rara planta em cruz grega inscrita num quadrado); importantes intervenções no edifício da Catedral.

Em Coimbra, D. Afonso vai pugnar pela concretização dos princípios tridentinos: logo em 1591 reuniu um sínodo diocesano em que foram aprovadas as Constituições do Bispado, por ele elaboradas, procurando implementar uma pastoral em que regra e disciplina eram centrais. Das obras mais marcantes, salientam-se: a reedificação e ampliação do Paço Episcopal (de que se destaca a loggia atribuída a Filipe Terzi, hoje parte integrante do Museu Nacional Machado de Castro); a fundação e construção do convento de Santa Ana; o lançamento da “primeira pedra para a igreja do Colégio dos Jesuítas em 1598; a fundação do Colégio dos Marianos, em 1606; a bênção da primeira pedra para o Colégio de S. Agostinho, em 1593; a execução de grandes obras no convento de Celas, incluindo o Coro da igreja em 1594-1620” [6]. Na Sé (Velha), destacam-se a ampliação do tabuleiro que unia as portas principal e a Especiosa, a intervenção no coro alto e a construção da nova sacristia [7]: e é precisamente para este novo espaço que Simão Rodrigues executa o conjunto de 10 painéis com o ciclo da vida de Jesus.

Repouso na fuga para o Egipto / Série da Infância de Jesus. Simão Rodrigues (c. 1560 – 1628) 1605(?)-1608.Óleo sobre madeira de carvalho. Prov. Sacristia da Sé Velha, Coimbra. MNMC2582. Foto © João Marujo.

 

Colocados em espelho, estes grandes painéis ilustram dois períodos centrais da vida de Cristo e, por isso, do cristianismo. Na “parede nascente alinhava-se, porventura, o grupo dos cinco painéis alusivos a Infância de Jesus: «Anunciação», «Adoração dos Pastores», «Adoração dos Magos», «Apresentação no Templo» e o «Repouso na fuga para o Egipto». Na parede poente, exacerbando a narrativa, sucediam-se as cenas da Paixão […]: «Cristo no Horto», «Beijo de Judas», «Flagelação», «Coroação de espinhos» e «Cristo a caminho do Calvário».” [8] Continua a autora e diretora do Museu: “Entre a Infância e a Paixão desenrola-se um cenário alimentado pelas arquiteturas monumentais de raiz clássica […], pela autoridade dos volumes corpóreos […], pela dominância das cores […], ou pela supressão do acessório […]. Com o apoio das referências gravadas, é a voz ativa da Reforma Católica que se infiltra no discurso copioso da decoração arquitetónica, […] transformando a atmosfera da sacristia em espaço requintado e coerente de sugestões em equilíbrio sempre dinâmico.” [9]

Beijo de Judas / Série da Paixão Simão Rodrigues (c. 1560 – 1628) 1605(?)-1608 Óleo sobre madeira de carvalho Prov. Sacristia da Sé Velha, Coimbra MNMC2584

 

Associado a Domingos Vieira Serrão, Simão Rodrigues executou em Coimbra alguns grandes retábulos, de que são exemplo o da igreja do Carmo (cerca de 1597) e o da capela da Universidade de Coimbra (1612-13); nas palavras de Vítor Serrão, ele “mostra qualidades apreciáveis de modelação, em escorços de figuras e poses de Virgens populares […], mas a vasta nebulosa de colaboradores enfraquece e irregulariza muitas das suas obras.” [10]

Como já se disse, este ciclo pictórico foi executado por Simão Rodrigues para a nova sacristia que o bispo-conde D. Afonso de Castelo Branco tinha mandado executar na Sé (Velha) de Coimbra [11].

Planta da Sé Velha de Coimbra – adaptação a Igreja da Misericórdia/ Livro de Provisões, Nº III Guilherme Elsden, Guilherme Francisco Elsden | 1772. Prov. Paço Episcopal de Coimbra.MNMC2231 [12]

A avaliar pela planta realizada por Guilherme Elsden, esta nova dependência cumpria algumas das indicações de Carlos Borromeu [13] para este espaço: desde logo, pelo facto de estar ligada ao corpo principal da igreja e permitir, à entrada do presbítero nas celebrações, a realização de uma procissão em direção à capela-mor [14]. Depois porque, pelo que acima já se percebeu, este “espaço requintado e coerente de sugestões em equilíbrio sempre dinâmico”, “voz ativa da Reforma Católica”, funcionaria como catequese, procurando assim responder a outro dos princípios formulados por São Carlos Borromeu: “Queixa se outro sacerdote de que, ao entrar no coro para salmodiar ou ao dispor se para celebrar missa, imediatamente lhe assaltam o espírito mil coisas que o distraem de Deus. Mas, antes de ir para o coro ou para a missa, que fazia ele na sacristia, como se preparou e que meios escolheu e empregou para concentrar a atenção?[15]. Com esse objetivo, defendia-se a existência, na sacristia, de um oratório onde o presbítero se pudesse recolher em meditação e oração, de modo a convenientemente se preparar para a celebração, bem como de um lavabo, para a purificação ritual das mãos, antes e depois de realizada a liturgia [16].

A planta de Elsden permite, também, perceber a “clara referência à figura geométrica do retângulo áureo” que, com os seus cerca de 13m x 8m, estabelece “um espaço amplo, arejado, funcional e fortemente simbólico” [17].

E é este o aspeto que me parece mais frágil na exposição. A escolha do espaço para a sua concretização, defronte da Capela do Tesoureiro e no meio da sala da escultura [sobretudo da primeira metade] do século XVI, dominada pelas obras de João de Ruão, não só me parece infeliz como condicionou outra dimensão: só lá é que o visitante se apercebe que a exposição foi a “dois tempos”. Num primeiro momento, mostraram-se as cinco tábuas do ciclo da Infância de Jesus; agora, e até ao final, mostram-se as restantes cinco, do ciclo da Paixão. Havendo excelentes exemplos de exposições temporárias a “dois tempos” [18], não me parece que a falta de espaço seja um critério para o determinar.

Parece-me, pois, que não é possível ao visitante mergulhar no “valor simbólico da Sacristia” seiscentista da Sé Velha de Coimbra, inundado que está de escultura quinhentista por todo o lado; isto apesar de os textos da folha de sala procurarem traçar um quadro, forçosamente breve, que o transporte para aquele espaço. Provavelmente, esta teria sido uma oportunidade para realizar uma exposição fora das paredes do Museu Nacional Machado de Castro, procurando, cenograficamente, levar o visitante até ao espaço da infelizmente mutilada sacristia.

 

 

Cartaz da exposição

 

Notas

[1] TEIXEIRA, Luís M. – Dicionário Ilustrado de Belas-Artes. Lisboa: Editorial Presença. 1985. p. 204
[2] UNESCO. Recomendação relativa à proteção e promoção dos museus e das coleções, da sua diversidade e do seu papel na sociedade. Paris, 20 de novembro de 2015. (tradução não oficial da Recomendação da UNESCO, realizada pelo Instituto Brasileiro de Museus e revista pelo ICOM Portugal.) consultado em linha a 6 de junho de 2022, em https://icom-portugal.org/multimedia/documentos/UNESCO_PMC.pdf
[3] cf. BARBOSA, David Sampaio Dias – Concílios Ecuménicos (e Portugal). In AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.) – Dicionário de História Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores e Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. 2000. pp. 405-413.
[4] SERRÃO, Vítor – Impactos do Concílio de Trento na arte portuguesa entre o Maneirismo e o Barroco (1563‑1750). In GOUVEIA, António Camões. BARBOSA, David Sampaio. PAIVA, José Pedro (coords.) – O Concílio de Trento em Portugal e nas suas conquistas: olhares novos. Lisboa: Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. 2014. pp. 103-132.
[5] apud. GONÇALVES, Flávio – Breve Ensaio sobre a Iconografia da Pintura Religiosa em Portugal. Belas Artes. Revista e boletim da Academia Nacional de Belas Artes. 27 (1972), p. 45.
[6] https://www.diocesedecoimbra.pt/diocese/historia/bispos/1585-1615-d-afonso-de-castelo-branco:1133, acedido em 23 de novembro de 2023.
[7] Cf. CRAVEIRO, Maria de Lurdes – D. Afonso de Castelo Branco. O valor simbólico da sacristia –folha de sala. Coimbra: Museu Nacional Machado de Castro. 2023.
[8] CRAVEIRO, Maria de Lurdes – O programa pictórico da sacristia. O valor simbólico da sacristia – folha de sala. Coimbra: Museu Nacional Machado de Castro. 2023.
[9] Idem, ibidem.
[10] SERRÃO, Vítor – A pintura maneirista e proto-barroca. Vol. 11 [RODRIGUES, Dalila (coord.) – A arte portuguesa: da pré-história ao século XX]. Vila Nova de Gaia: Fubu Editores. 2009. p. 50.
[11] Ver o importante estudo de BRANCO, Cátia Cristino C. T. M. Sousa – A sacristia e a encomenda episcopal portuguesa no período da reforma católica. O caso da Sé de Coimbra e o patrocínio do bispo D. Afonso de Castelo Branco [Tese de Doutoramento em História de Arte Moderna]. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa. 2014.
[12] Reproduzida a partir de CRAVEIRO, Maria de Lurdes – A Sé Velha de Coimbra. Coimbra: Direção Regional de Cultura do Centro. 2011, p. 53.
[13] Cardeal, bispo de Milão, um dos mais intervenientes padres conciliares, em Trento: visitou várias vezes toda a sua diocese, promoveu diversos sínodos de onde saíram importantes decisões pastorais, apostou na formação do seu clero nos seminários erigidos para esse fim e procurou uma profunda renovação da vida cristã e fez publicar, entre outras, as Instructionum fabricae et supellectilis ecclesiasticae libri II /1577), onde se definem, exaustiva e pormenorizadamente, como devem ser executados os diferentes espaços de uma igreja.
[14] OLIVEIRA, Natália Maria da Conceição – As instruções de São Carlos Borromeu para a construção das igrejas após o Concílio de Trento. In I Simpósio Nacional a Distância de História e Historiografia [em linha] [consultado em 5.11.2023]. Disponível em https://simposioead.blogspot.com/2019/07/as-instrucoes-de-sao-carlos-borromeu_29.html. Ver, também, em BRANCO, Cátia Cristino C. T. M. Sousa, ibidem. p. 101.
[15] Do sermão de São Carlos Borromeu, bispo, no encerramento do último Sínodo de Milão [Acta Ecclesiae Mediolanensis, Milão 1599, 1177-1178], disponível em https://www.liturgia.pt/santos/santo_v.php?cod_santo=188 [consultado em 5.11.2023]
[16] Cf. BRANCO, Cátia Cristino C. T. M. Sousa, ibidem. pp. 103-104.
[17] CRAVEIRO, Maria de Lurdes – A Sacristia. O valor simbólico da sacristia – folha de sala. Coimbra: Museu Nacional Machado de Castro. 2023.
[18] A este propósito, veja-se MONTEIRO, Joana d’Oliva – O ato de expor. Breves considerações a propósito d’«A Perspectiva das Coisas. A Natureza-Morta na Europa. Segunda parte: séculos XIX-XX (1840-1955)», MIDAS [em linha], 1 | 2013 [consultado em 3.08.2023]. Disponível em http://journals.openedition.org/midas/119.

 

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