Dois quadros de Caravaggio

| 18 Abr 21

Caravaggio, A Negação de Pedro,

Caravaggio, A Negação de Pedro, 1610. Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque: “O género humano é complexo e difícil de entender – eis por que razão temos de ter bem presente o exemplo de Pedro.”

 

Há dois episódios que recentemente recordámos na liturgia que continuam a deixar-nos cheios de perplexidade. Falo da tripla negação de Pedro e da incredulidade de Tomé. Afinal, somos nós mesmos que ali estamos representados, por muito que isso nos choque. E o certo é que, para que não haja dúvidas, as palavras que pontuam tais acontecimentos são claríssimas. Pedro recusa terminantemente a tentação, quando Jesus lhe anuncia que ele O vai renegar. E nós sentimo-nos aí retratados. Facilmente temos a tentação de nos considerarmos infalíveis se uma pergunta tão clara nos for posta. A resposta infalível aparece-nos como natural. Esquecemo-nos das circunstâncias desfavoráveis em que podemos ser chamados para dizer como defendemos aquilo em que acreditamos. E, para que não haja dúvidas, sobre a nossa fragilidade e imperfeição, a negação de Pedro é tripla.

Assim se ilustra a noção essencial de que a imperfeição é a regra da sociedade e que o que nos exige é que nos disponhamos a ser amanhã melhores do que hoje. A sociedade perfeita e irrepreensível seria aquela em que o sábado prevaleceria cegamente sobre as pessoas. E sabemos que isso assim não pode ser. Não se trata de cair na tentação relativista, mas sim de dar prevalência ética à atenção e ao cuidado com as pessoas. Ninguém é invulnerável, mas todos somos chamados a aceitar que erramos e ao dever de ser melhores. Pedro chorou lágrimas muito amargas quando entendeu a sua fragilidade – e nós também temos de estar de sobreaviso, pois seremos também surpreendidos quando menos esperarmos.

Leiam-se os romances de Graham Greene, aí encontramos muito claramente a essência destas reflexões, em especial quando lembramos O Poder e a Glória. O género humano é complexo e difícil de entender – eis por que razão temos de ter bem presente o exemplo de Pedro, que está acima de qualquer suspeita. Não está em causa a sua escolha como pedra em que assentará a Igreja, mas sim a demonstração da falibilidade da humanidade. Pedro morrerá, aliás, em Roma, dando o supremo testemunho de mártir da fé. Assim, o episódio relatado pelos quatro Evangelhos canónicos tem uma centralidade evidente, uma vez que se nos dirige especialmente, já que é o primeiro dos apóstolos que exemplifica a nossa própria fragilidade. O quadro de Caravaggio que representa esta circunstância é extraordinariamente expressivo, uma vez que Pedro dissimula claramente a sua pertença ao círculo próximo de Jesus. Ele aparece-nos, procurando apenas sobreviver…

Caravaggio, A Dúvida de Tomé, 1599

Caravaggio, A Dúvida de Tomé, 1599 (óleo sobre tela, 107 x 146 cm); Stiftung Schlösser und Gärten Postdam-Sanssouci, Postdam (Alemanha): “Nós duvidámos e temos necessidade de que a prova seja dada.”

 

O segundo episódio, também está representado pelo pintor Caravaggio numa das suas indiscutíveis obras-primas. Tomé não está com os discípulos quando Jesus os visita inesperadamente para demonstrar a Ressurreição. Quando lhe contam o sucedido, ele não acredita, e diz que precisa de ver para crer.

O relato é-nos feito por João. Uma semana depois, Cristo regressa e Tomé já está. Lembremo-nos da imagem dada pelo genial pintor na referida pintura. Tomé, o pescador, olha fixamente para o lado trespassado pela lança do soldado quando Cristo estava na cruz. É impressionante o realismo com que a mão e o dedo se aproximam da abertura exposta. Percebemos não ser necessário o contacto, basta o pedido. “Meu Senhor e meu Deus!”. De novo, como no caso de Pedro, somos nós que ali estamos representados. Nós duvidámos e temos necessidade de que a prova seja dada. E o quadro é um autêntico espelho de quem verdadeiramente somos. E do que se trata, de facto, é de reconhecermos que sendo naturalmente imperfeitos, somos pessoas de pouca fé…

E se falo de Tomé, não resisto a citar um texto de 1973 do padre Alberto Neto, meu saudoso professor: “Eu sempre gostei da figura de S. Tomé. Homem realista e existencial que exige o ver para crer. Não que nele se haja extinguido a capacidade de abarcar o mistério profundo das coisas. Não! Apenas aquele modo muito leal que exige o sinal, o sacramento, que alicerce a sua fé. De tal forma isto é assim, que, quando Cristo o convida: ‘Tomé, mete aqui a tua mão’, toda a sua capacidade de aderir ao mistério de Jesus de Nazaré ressuscitado se manifesta numa afirmação inequívoca: ‘Meu Senhor e meu Deus.’ E isto, antes mesmo de chegar a meter a mão. Como compreendo bem este homem, exigindo o sinal visível da sua adesão! Como ele nos deve falar hoje e agora! Sinal de tantos milhares de homens que têm sede do Deus vivo, do Deus da libertação do homem e do povo, e são iludidos na sua expectativa e reta intenção.”

E nesta invocação, sentimos tudo. Pedro e Tomé são representação nossa, mas a quanta distância, na nossa infinita imperfeição… O Espírito do Pentecostes revela-o com nitidez…

 

Guilherme d’Oliveira Martins é Administrador Executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Crónica

O Mercado e o Templo (15): Quando o conhecimento era um bem comum e gratuito

O Mercado e o Templo (15): Quando o conhecimento era um bem comum e gratuito novidade

As proibições teológicas souberam gerar meios de liberdade para mercadores e intelectuais, como seguros e universidades. A antiga cultura sabia que bem precioso, mesmo divino, era o conhecimento e protegia-o do lucro. Agora, na lógica do capitalismo, vêem-se apenas custos e benefícios. Este é o décimo quinto dos textos da série de crónicas que o 7MARGENS publica todas as quartas-feiras e sábados, da autoria de Luigino Bruni.

Breves

“Tragédia brasileira: risco para a casa comum?”

  Entre os dias 4 e 6 de Maio (terça a quinta-feira), um seminário internacional que se realiza em formato digital irá debater se a tragédia brasileira é um risco para a casa comum, numa iniciativa de várias organizações religiosas, de defesa dos direitos humanos...

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

APAV lança vídeo sobre violência sexual contra crianças

A APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima acaba de lançar o primeiro de um conjunto de vídeos que visam a prevenção da violência sexual contra crianças e jovens, procurando capacitar as pessoas sobre estes crimes e a informá-las sobre como pedir ajuda.

Xexão (um poema e uma evocação em Lisboa)

No 30º dia após o falecimento de Maria da Conceição Moita, a comunidade da Capela do Rato, em Lisboa, vai celebrar, a 30 de Abril, às 19h, eucaristia evocando a sua vida. Tendo em conta as regras de segurança em vigor, e o número restrito de lugares na capela, é necessária uma inscrição prévia, que deve ser feita na página digital da Capela do Rato.

Quebra de receitas da principal Igreja financiadora do Vaticano

A Igreja Católica alemã, que é líder no contributo que dá habitualmente para as despesas da Santa Sé (juntamente com a dos EUA), teve “um verdadeiro colapso” nas receitas, em 2020, segundo dados divulgados pelo jornal Rheinische Post, citados por Il Messaggero.

Entre margens

O desaparecimento dos gigantes da fé novidade

De vez em quando temos a sensação de que se está a passar na porta giratória para um mundo diferente. Em especial quando se toma consciência de que alguns dos maiores gigantes do mundo cristão nos deixaram. O mais recente foi o grande teólogo e pensador protestante latino-americano René Padilla (1932-2021), o “pai” do conceito de “missão integral” que revolucionou as teologias do continente, em particular a missiologia.

Alma mutilada

Samuel caminhava dançante num jogo de toca e foge com a suave rebentação da extensa e espelhada beira-mar de Keri Beach. Entusiasmado com a chegada à nova cidade, discursava e gesticulava comparações entre as imensas praias por onde passara. O fiel Odara escutava-o ao longe, absorto no encantamento da devoradora paisagem. Caminhava a passos curtos e lentos, sentindo atentamente a incomum textura da areia que se lhe entranhava nos dedos dos pés a cada novo pisar

José Augusto Mourão… o frade, poeta e professor

Fazemos memória, nesta quarta-feira, 5 de maio, do décimo aniversário da partida para o Senhor de frei José Augusto Mourão op. Nascido em Lordelo, Vila Real, em 12 de junho de 1947, deixou-nos aos 64 anos. Conheci Frei Mourão quando, há já muitos anos, comecei a participar nas eucaristias do Convento de S. Domingos de Lisboa, levado pelo meu amigo Luís de França, também ele frade dominicano, entretanto já desaparecido do meio de nós

Cultura e artes

Alusões a um corpo ausente

Cada pessoa que fizer uma evocação de José Augusto Mourão fá-lo-á de um modo diferente. O percurso biográfico de Mourão presta-se a essa pluralidade quase heterodoxa, diferente das narrativas oficiais com as quais se canoniza uma vida e uma determinada biografia da mesma.

Flannery O’Connor e “Um Diário de Preces”

Flannery O’Connor foi uma escritora norte-americana (1925-1964), falecida aos 31 anos de lúpus, doença degenerativa precocemente diagnosticada (aos 12 anos) e que, depois de lhe terem sido dados cinco anos de vida, Flannery conseguiu, com uma vontade indomável, prolongar por mais 10 anos. Católica convicta, viveu em Savannah, na Geórgia, no sul protestante e conservador. Escreveu sobretudo sobre a decadência do sul da América. Fez uma licenciatura em Inglês e Sociologia e uma pós-graduação através de um writer’s workshop (oficina de escrita) na Universidade de Iowa. Escreveu 32 contos e dois romances.

O teatro da vida na leitura cristã de Luís Miguel Cintra

A revista E, do Expresso, deste fim-de-semana traz em várias páginas a súmula de mais de duas horas de conversa de Luís Miguel Cintra com a jornalista Luciana Leiderfarb, com as imagens da objetiva do repórter António Pedro Ferreira. Destaca-se dela não só uma grande personalidade do teatro, mas também uma pessoa de enorme sensibilidade e riqueza humanas.

Verbalizar o desejo

Em Rezar de Olhos Abertos, José Tolentino Mendonça assume a missão de guiar o crente e a comunidade (alguns textos surgem nesse contexto) na verbalização orante, inserindo-se assim numa tradição espiritual que conhece nos Salmos a sua expressão talvez mais plena e fecunda.

Sete Partidas

O regresso à escola má

Custa-me imenso falar de educação. A sério. Dói-me. Magoa fundo. O mal que temos tratado a educação escolar nas últimas décadas. Colectivamente. Geração após geração. Incomoda-me a forma como é delegada para planos secundários perante a suposta urgência de temas tão mais mediáticos e populares. Quando nada me parece mais urgente.

Aquele que habita os céus sorri

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This