Estudo internacional apresentado no Vaticano

Dois terços das mulheres católicas querem “mudanças radicais” na Igreja

e | 8 Mar 2023

Manifestação da associação Revolta das Mulheres na Igreja, em Madrid, 1 de março de 2020: os resultados do inquérito dizem que as mulheres católicas querem mais voz no interior da Igreja. Foto reproduzida a partir do perfil da associação no Twitter.

 

O Papa Francisco tem sido impulsionador de várias mudanças na Igreja Católica no sentido de aumentar a presença e relevância das mulheres, em particular na Cúria Romana. Mas muito há ainda por fazer, diz a esmagadora maioria das mulheres católicas. De acordo com um estudo internacional apresentado na Santa Sé esta quarta-feira, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, oito em cada dez consideram que deveriam ser incluídas em todos os níveis de liderança e dois terços gostariam de ver acontecer outras “mudanças radicais”. Mais ainda são as que entendem que o poder clerical está a causar danos à Igreja Católica.

O estudo, que se baseou em entrevistas a 17.200 mulheres católicas de 104 países diferentes, foi levado a cabo por uma equipa de investigadores australianos, coordenada pela teóloga e socióloga da religião Tracy McEwan, da Universidade de Newcastle, Kathleen McPhillips (socióloga da religião, género e saúde mental) e a socióloga da religião Miriam Pepper. Há “uma preocupação significativa com os abusos de poder cometidos por clérigos do sexo masculino e com os danos espirituais daí resultantes”, conclui também o estudo.

O relatório final, intitulado International Survey of Catholic Women: Analysis and Report of Findings [Inquérito Internacional sobre as Mulheres Católicas: Análise e Relatório das Conclusões] tem cerca de 90 páginas e inclui um sumário, dados mais relevantes e recomendações. Nesta que foi a maior pesquisa alguma vez feita junto de mulheres católicas, mais de três quartos das entrevistadas responderam que as mulheres também devem poder fazer a homilia durante a missa e apontam também um forte apoio à “plena inclusão das mulheres na liderança da atividade pastoral, litúrgica e de governação, bem como em funções [que envolvem] tomada de decisões”, o que inclui serem admitidas em situação de igualdade aos ministérios ordenados. Entre as suas preocupações, estão ainda a “promoção de agendas políticas” por parte dos padres e a “falta de transparência no governo da Igreja”.

Os resultados apurados indicam que a esmagadora maioria das respondentes (88 por cento) afirmam com vigor a importância que para elas tem a sua identidade católica, traduzida na “importância que dão à sua fé”, na “centralidade da Eucaristia para as suas vidas, e a sua participação ativa nas paróquias e comunidades eclesiais”. Ao mesmo tempo, expressam “elevados níveis de frustração ou insatisfação” relacionados com as suas experiências, associados, em particular, aos abusos sexuais, espirituais e físicos em contextos eclesiais e entendidos como uso indevido ou mesmo abuso de poder e expressão do clericalismo.

 

Barreiras à participação vs. prioridades

 

Muitas das respondentes chamaram a atenção para uma falta de responsabilização e transparência na liderança e governação da igreja, particularmente na gestão da hierarquia de alegações de abuso sexual. Este aspeto foi considerado “uma barreira à participação na vida da Igreja”.

Relativamente ao que importa fazer e ao que é prioritário, mais de quatro em cada cinco participantes no estudo (84 por cento) defenderam a necessidade de reformas na Igreja, tendo-se registado também um grupo bastante mais reduzido a temer que as mudanças possam redundar num “compromisso com as tendências seculares” (subentenda-se: a-católicas ou mesmo anticatólicas).

As respondentes apoiaram fortemente o cuidado com uma linguagem inclusiva quanto ao género, nas práticas litúrgicas e nos documentos da Igreja, bem como a promoção da “inclusividade” como “dimensão central de uma ética cristã”. Nesta linha manifestaram preocupação por aqueles que são marginalizados pelos católicos, pela teologia, doutrina e prática litúrgica, incluindo os católicos LGBTIQ+, divorciados, católicos monoparentais, ainda que tenham manifestado divergências quanto ao que significa ou implica esse acolhimento.

“Um maior respeito pela liberdade de consciência na tomada de decisões” no foro sexual e reprodutivo; “uma maior ação e empenho por parte da liderança da Igreja” relativamente à doutrina social católica, particularmente no que diz respeito a questões relacionadas com o a mudança climática, a justiça económica, e pobreza”; e o problema da “justiça económica nos assuntos da Igreja, incluindo má gestão financeira, corrupção, exploração e falta de remuneração adequada para as pessoas que trabalham para a Igreja, tanto leigas como religiosas” foram outros aspetos sobre os quais as participantes manifestaram preocupação.

O inquérito aponta, finalmente, para a “urgente necessidade” de um modelo de Igreja “menos hierárquico e autoritário”, com maior colaboração, diálogo, e responsabilidade partilhada entre clero e laicado.

 

“Respostas duras”, mesmo de mulheres mais velhas

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Quase 90% das respostas dizem que a sua identidade católica é importante e muitas continuam a praticar a sua fé, apesar da preocupação, frustração e insatisfação com a instituição.

 

Compreendendo dados quantitativos e qualitativos, a pesquisa incluiu perguntas abertas, que resultaram em contributos significativos.

“Descobrimos que mesmo quando as mulheres têm lutas consideráveis com as instituições católicas, quase 90% disseram que a sua identidade católica é importante para elas. Muitas continuam a praticar a sua fé, apesar da significativa preocupação, frustração e insatisfação com a igreja institucional”, sublinha Tracy McEwan.

“Eu agarro-me à Igreja com unhas e dentes, por causa da eucaristia e apesar de muitos dos seus clérigos”, pode ler-se na resposta de uma entrevistada do Reino Unido. “Ser mulher na Igreja é difícil – caminhamos na linha de ser membros valiosos da sociedade, mas sem voz em muitos elementos da Igreja. Estou a tentar encontrar o caminho para ser uma mulher moderna e alguém que se encaixe dentro do papel disponível”, afirmou uma participante australiana.

McEwan salienta ainda que, ao contrário do que poderia esperar-se, há “respostas duras” não apenas entre as entrevistadas mais jovens, mas também da parte de muitas mulheres mais velhas. “Por exemplo, descobrimos que muitas pessoas com mais de 70 anos apoiam fortemente o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a pregação da homilia por mulheres, enquanto o número de apoiantes é muito menor na faixa etária entre os 18 e os 40 anos”, destacou.

Os resultados apresentam algumas variações de país para país. Enquanto a Austrália aparece como mais conservadora do que a média global em vários indicadores (74% dizem que querem reformas, comparativamente à média global de 84%), a Irlanda e a Espanha surgem como os Estados onde o desejo de mudança é mais forte.

Com base nos resultados da pesquisa, a equipa responsável pelo estudo fez uma série de recomendações, nomeadamente: maior acesso das mulheres à liderança pastoral e organizacional significativa, incluindo a ordenação de mulheres; promulgação de diretrizes para eliminar a violência sexual, espiritual e física; novos requisitos relativos à denúncia dos perpetradores às autoridades; e a implementação de medidas transparentes e responsáveis quanto às práticas de gestão.

 

17.200 mulheres de 104 países

Mulheres católicas no Paquistão rezam durante a missa: a amostra resultou de redes que, em países e culturas diferentes, divulgaram o questionário. Foto © Magdalena Wolnik

 

A metodologia baseou-se num inquérito online em oito idiomas (inglês, espanhol, alemão, italiano, francês, polaco, mandarim e português), aberto entre 8 de Março e 26 de Abril de 2022, tendo sido respondido por 17.200 mulheres de 104 países. A amostra é, pois, não-aleatória, resultando de uma rede de coletivos (dioceses, paróquias, e redes e organizações de mulheres) que, em países e culturas diferentes, divulgaram o questionário e apelaram ao seu preenchimento.

Foi a organização internacional Catholic Women Speak que decidiu avançar com este inquérito, em resposta ao convite do Papa Francisco para contributos para o Sínodo dos Bispos 2021-2024. A preocupação de dar a conhecer a toda a Igreja o sentir e pensar das mulheres católicas relativamente à instituição de que fazem parte levou aquela organização a convidar a equipa de investigação da Universidade de Newcastle, juntamente com a professora emérita Tina Beattie, da Roehampton University UK, para elaborar e executar o estudo e apresentar o respetivo relatório ao Vaticano.

O essencial dos resultados foi debatido, ainda em versão preliminar, em encontros da CWS, no final do último verão, andes de serem enviados diretamente para o secretariado-geral do Sínodo, em Roma. “A resposta esmagadora que tivemos é um indicador claro de como as mulheres católicas silenciadas se sentiram”, disse a coordenadora do estudo, Tracy McEwan.

No comunicado divulgado pela Universidade de Newcastle, a coordenadora da pesquisa, Tracy McEwan, avança que o trabalho já provocou impacto global, tendo chamado a atenção de altos funcionários do Vaticano envolvidos no Sínodo, que convidaram a equipa a apresentar as conclusões pessoalmente.

 

Mudanças com Francisco, mas ainda “um caminho longo a percorrer”

mulheres vaticano francesca di giovanni, Foto Vatican News

O Papa Francisco com a advogada italiana Francesca Di Giovanni, por ele nomeada como subsecretária para as Relações com os Estados, na Secretaria de Estado do Vaticano. Foto © Vatican Media.

 

Algumas mudanças têm vindo já a verificar-se nos últimos anos, particularmente durante o pontificado de Francisco. Em 2022, as mulheres representavam 23,4% da população ativa no Vaticano, contra apenas 19,2% em 2013.

O aumento de colaboradores do sexo feminino é ainda mais pronunciado se olharmos exclusivamente para a Cúria romana. Aqui, a proporção de mulheres aumentou de 19,3 para 26,1% nos últimos dez anos. Isto significa que mais de um em cada quatro funcionários da Santa Sé agora é uma mulher: em números absolutos, 812 de 3.114.

Este crescimento da presença de mulheres tem sido elogiado, mas uma dezena de funcionárias entrevistadas pela AFP lamentam – sob condição de anonimato – as atitudes condescendentes e adversas que enfrentam, principalmente entre os clérigos. “Ainda há um longo caminho a percorrer”, sublinha uma delas, que trabalha há dez anos na Santa Sé.

Outra entrevistada denuncia um “teto de vidro e uma atitude globalmente paternalista nos corredores”, com uma visão antiga da “mulher sensível, doce, que encontramos refletida nos discursos do papa”. “Às vezes temos a sensação de sermos consideradas estagiárias. São pequenos gestos, uma mão no ombro, uma falta de consideração, comentários quase diários sobre o físico ou a roupa”, acrescenta.

Outras mulheres ainda, algumas delas mães, lamentam ter sido relegadas para papéis secundários.

Nesta quarta-feira, em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, Francisco fez questão de destacar, durante a audiência geral semanal, o importante contributo feminino para uma “sociedade mais humana”.

“Penso em todas as mulheres: agradeço pelo seu empenho na construção de uma sociedade mais humana, através da sua capacidade de apreender a realidade com um olhar criativo e um coração terno. Este é um privilégio das mulheres”, disse, despertando os aplausos das milhares de pessoas presentes no Vaticano.

Francisco aceitou também escrever o prefácio do livro “More Women’s Leadership for a Better World” (Mais lideranças femininas para um mundo melhor), que será lançado esta sexta-feira. No seu texto, denuncia que “a violência contra a mulher é uma ferida aberta, resultante de uma cultura patriarcal e machista de opressão”, e conclui: “devemos encontrar o tratamento para curar esta praga e não deixar as mulheres sozinhas”.

A obra, que resulta de uma investigação multidisciplinar sobre o papel das mulheres para um novo modelo de desenvolvimento cultural e social, inclui um texto de Isabel Capeloa Gil, reitora da Universidade Católica Portuguesa, sobre a liderança das mulheres nestas instituições académicas.

 

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