Uma leitura do Patriarca no 7M

“Domínio”, de Tom Holland: a recomposição da experiência cristã

| 22 Mai 2022

 

Este livro de Tom Holland, escritor inglês com vária obra histórica publicada, obteve uma apreciação positiva e generalizada, quando saiu em 2019: “Cativante” (The Times), “Arrebatador” (The Economist), “Fascinante” (Library Journal)… Mais assertivo ainda, The Sunday Times: “Se os grandes livros nos encorajam a olhar o mundo de um modo completamente novo, então Domínio é, sem dúvida, um grande livro.”

Não sendo “completamente nova”, a tese de Tom Holland é a seguinte: “Viver num país ocidental é viver numa sociedade completamente impregnada de conceitos e pressupostos cristãos. […] Quer se trate da convicção de que as operações da consciência são a melhor maneira de determinar as boas leis, de que a Igreja e o Estado são entidades distintas ou de que poligamia é inaceitável, os seus vestígios encontram-se por todo o lado no Ocidente” (p. 24 da ed. portuguesa).

É esta a ideia fundamental. Para a ilustrar, o autor vai assinalando como ao longo de dois milénios ela se foi concretizando nos vários campos da sociedade e da cultura “ocidentais”. Contrastando com muito do que era habitual e aceite no mundo em que se foi implantando, o cristianismo apresentou-se como “revolução”, por tocar em pontos axiais da vida individual e coletiva. Também como “reforma”, por pretender retomar ciclicamente o seu modo inicial, visto como conclusivo para o mundo inteiro. Tal aconteceu de modo ortodoxo ou heterodoxo em relação ao que estivesse, podendo mesmo extravasar do âmbito confessional e verificar-se onde menos se esperaria. O próprio autor, ainda que educado no cristianismo anglicano, afirma-se não crente. O estilo do livro é ágil e persuasivo, encadeando as várias etapas com episódios e protagonistas que assinalam cada uma.

É o caso, entre outros, de Gregório VII (papa de 1073 a 1085) e da reforma eclesial do seu tempo, assim mesmo designada como “reforma gregoriana”. À primeira vista um confronto entre o papa e o imperador germânico Henrique IV sobre quem tinha o direito de “investir” em altos cargos eclesiásticos, Holland apresenta o caso como muito mais do que isso, a saber, como a tentativa de refazer a vida em geral a partir dum primado espiritual autónomo, que purificasse a sociedade no seu todo e a “reformasse” de raiz. Assim, conclui, a autonomização do sagrado (religioso) em relação ao profano (secular), motivo maior daquele tempo, ensaiou o que aconteceria depois em todos os momentos “revolucionários”, em busca de uma sociedade ideal e em contraste com a realidade da altura e o respetivo sistema: “Gregório [VII] e os seus apoiantes reformistas não inventaram a distinção entre religio e saeculum, entre o sagrado e o profano, mas fizeram com que se tornasse em algo de fundamental para o futuro do Ocidente […]. Triunfava um modelo de reformatio cujos ecos, ao longo dos séculos, fariam tremer muitas monarquias e inspirariam visionários a sonhar com um renascimento da sociedade. Este terramoto iria longe e teria inúmeras réplicas. Foi, para o Ocidente Latino, a primeira experiência formativa de revolução” (p. 258-259).

Também no respeitante à base canónica e jurídica que se pretendeu depois. Quando, a partir do século XII, Graciano e os seus seguidores tentaram sistematizar as normas canónicas anteriores, conciliando-as entre si em torno de um princípio geral, foi no direito “natural” que o encontraram, em coincidência com a criação comum da humanidade e a obrigação mútua daí decorrente, como o próprio Cristo acentuara: “Por volta de 1200, meio seculo após o Decretum [de Graciano] estar completo, chegara-se finalmente a uma solução – uma solução fértil em implicações para o futuro. Um pedinte esfomeado que roubasse a um homem rico fazia-o, de acordo com um número crescente de juristas [canonistas], iure natural – ‘de acordo com a lei natural’. […] O princípio de que os ricos tinham o dever de dar aos pobres era tão antigo como o próprio Cristianismo. O que antes ninguém tinha pensado em defender, porém, era um princípio correspondente: os pobres tinham direito [de responder] às necessidades da vida. Era – numa fórmula cada vez mais comum entre os canonistas – um ‘direito’ humano. No Ocidente Latino, a lei tornara-se um instrumento essencial da revolução em curso” (p. 267-268).

 

Os saberes e os direitos humanos

 

Bartolomé de las Casas: “Cada mortal – cristão ou não – tinha direitos procedentes de Deus. Derechos humanos foi a expressão usada por Las Casas.” Ilustração

Bartolomé de las Casas: “Cada mortal – cristão ou não – tinha direitos procedentes de Deus. Derechos humanos foi a expressão usada por Las Casas.” Ilustração

 

Por essa época algo de semelhante se passou no largo campo dos saberes em geral. Se os direitos básicos provinham duma criação comum e estrutural, também a natureza se podia estudar racionalmente, naquilo que cada matéria tinha de próprio e garantido pelo mesmo ato criativo que a originara: “O estudo dos animais e plantas, da astronomia, até da matemática: todas estas áreas pertenciam à categoria da filosofia natural. O verdadeiro milagre não era o miraculoso, era o funcionamento ordeiro do céu e da terra” (p. 273).

É na mesma ordem de ideias que Holland situa os “direitos humanos”, como foram afirmados a partir do século XVI e em referência aos povos entretanto encontrados pelos europeus em expansão. A partir duma criação comum, defendeu-se o direito ao autogoverno de cada comunidade, sem supremacia ou elitismo que justificasse a tutela duma por outra: “Em 1550 num debate realizado na cidade espanhola de Valladolid sobre se os Índios tinham ou não o direito de se governarem a si próprios, o já idoso Bartolomé de las Casas defendeu vigorosamente o seu caso. Quem eram os verdadeiros bárbaros, perguntou: os Índios, um povo ‘meigo, paciente e humilde’, ou os conquistadores Espanhóis, cuja ganância por ouro e prata só era superada pela sua crueldade? […] Cada mortal – cristão ou não – tinha direitos procedentes de Deus. Derechos humanos foi a expressão usada por Las Casas” (p. 384).

Entretanto, a pretensão “reformista”, afirmou-se também fora do campo eclesial – dos vários campos, aliás, depois das cisões do século XVI em diante. Holland verifica-a mesmo entre os “filósofos” setecentistas, precursores das revoluções que abriram a idade contemporânea. Assim em França: “Num reino que era há muito considerado a filha mais velha da Igreja, a ambição de inaugurar uma nova ordem mundial purgada da superstição e resgatada à tirania, não podia senão estar imbuída de pressupostos cristãos. Os sonhos dos philosophes eram simultaneamente algo de novo e algo que de novo nada tinham. Antes deles, já muitos se tinham esforçado para fazer a humanidade sair das trevas: Lutero, Gregório VII, Paulo. Desde o princípio de tudo que os Cristãos esperavam por uma grande transformação na ordem mundial. ‘A noite vai adiantada e o dia está próximo’“ (p. 436-437). E algo idêntico encontrará o autor em Karl Marx: “As próprias palavras usadas por Marx para construir o seu modelo de luta de classes – ‘exploração’, ‘escravidão’, ‘avareza’ – tinham menos que ver com as formulações frias dos economistas do que com algo muito mais antigo: as reivindicações dos profetas bíblicos que se diziam inspirados por Deus. Se, como afirmava, o que oferecia aos seus seguidores era a libertação do Cristianismo, era uma libertação estranhamente parecida com uma reformulação desse mesmo Cristianismo” (p. 506).

 

A “Marcha das Mulheres” de 2017
Marcha das Mulheres em 2017: “O corpo humano não era um objeto ou um bem para ser usado pelos ricos e poderosos quando e como quisessem.” Foto © Mark Dixon

Marcha das Mulheres em 2017: “O corpo humano não era um objeto ou um bem para ser usado pelos ricos e poderosos quando e como quisessem.” Foto © Mark Dixon

 

Para respigar só mais um exemplo, dos muitos que o autor vai ilustrando, chegamos ao nosso tempo, com o que Holland crê estar subjacente à libertação feminina de todo o tipo de exploração, designadamente a sexual: “… o manifesto subjacente [à Woman´s March de 2017] era tão baseado em pressupostos teológicos quanto o movimento dos direitos civis [Martin Luter King, 1963]. Implícito no #MeToo estava o mesmo apelo à continência sexual que reverberara ao longo da história da Igreja. […] Apetites que os entusiastas da libertação sexual aplaudiram como dionisíacos eram mais uma vez condenados como predatórios e violentos. O corpo humano não era um objeto ou um bem para ser usado pelos ricos e poderosos quando e como quisessem” (p. 588).

No prefácio Holland escrevera o seguinte (p. 24): “‘Religião’, ‘secular’, ‘ateu’: nenhum destes termos é neutro. Embora tenham as suas origens no passado clássico, chegam até nós carregados do legado da Cristandade. Quem não compreender isto corre o risco de incorrer em anacronismos. Por muito que se esvaziem os bancos das igrejas, o Ocidente continua solidamente ancorado no seu passado cristão.” Podemos ver este trecho também como advertência: as ideias cristãs nasceram na comunidade que Jesus criou com os que o seguiram e nas que dos primeiros séculos chegaram até hoje. Aí se lembram os textos e retomam os gestos iniciais, sendo esta a Igreja em permanente “reforma”. Sem comunidade viva não há “cristandade” influente. O desafio atual está precisamente aqui, no que podemos designar como recomposição comunitária da experiência cristã, num mundo em que estamos muito menos fixos na geografia e na (in)formação.

 

Tom Holland, Domínio – Como o cristianismo transformou o pensamento ocidental

Ed. Vogais, 2022, 668 pgs.

 

Manuel Clemente, patriarca de Lisboa; título e subtítulos da responsabilidade do 7MARGENS

 

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal novidade

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

De 1 a 31 de Julho

Helpo promove oficina de voluntariado internacional

  Encerram nesta sexta-feira, 24 de Junho, as inscrições para a Oficina de Voluntariado Internacional da Helpo, que decorre entre 1 e 3 de Julho. A iniciativa é aberta a quem se pretenda candidatar ao Programa de Voluntariado da Organização Não Governamental para...

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Jesuíta morreu aos 80 anos

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Por onde passou lançava projectos, dinamizava equipas, deixava-as a seguir para partir para outras aventuras, sempre com a mesma atitude. Poucos dias antes de completar 80 anos, no passado dia 2 de Junho, dizia na que seria a última entrevista que, se morresse daí a dias, morreria “de papo cheio”. Assim foi: o padre jesuíta António Vaz Pinto, nascido em 1942 em Arouca, 11º de 12 irmãos, morreu nesta sexta-feira, 1 de Julho, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde o dia 8, na sequência de um tumor pulmonar que foi diagnosticado nessa altura.

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Testemunho de uma mulher vítima

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que decorreu quinta-feira, 30 de junho, em Lisboa, foram lidos três testemunhos de vítimas de abusos, cujo anonimato foi mantido. Num dos casos, uma mulher de 50 anos fala do trauma que os abusos sofridos lhe deixaram e de como decidiu contar a sua história a um bispo, sentindo ainda assim que a sua versão não era plenamente aceite como verdadeira.

Doação de ara romana reforça espólio do Museu D. Diogo de Sousa

Ocaere, divindade autóctone

Doação de ara romana reforça espólio do Museu D. Diogo de Sousa

A doação de uma ara votiva romana guardada ao longo de várias décadas pela família Braga da Cruz, de Braga, enriquece desde esta sexta-feira, dia 1, o espólio do Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa (MADDS), estando já exposta para fruição do público. A peça, que passou a integrar a coleção permanente daquele Museu, foi encontrada num quintal particular no município de Terras de Bouro, pelo Dr. Manuel António Braga da Cruz (1897-1982), que viria, depois, a conseguir que o proprietário lha cedesse.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This