As assembleias ecuménicas e as crises mundiais

Dos despojos da guerra em 1948 ao confronto violento em 2022

| 5 Set 2022

Liturgia de abertura da 1ª Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas, na Nieuwe Kerk, Amesterdão (Países Baixos), 22 de Agosto de 1948. Foto © Arquivo fotográfico do CMI.

Liturgia de abertura da 1ª Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas, na Nieuwe Kerk, Amesterdão (Países Baixos), 22 de Agosto de 1948. Foto © Arquivo fotográfico do CMI.

 

Como restaurar a comunhão entre cidadãos e entre Igrejas cristãs dilaceradas pela guerra? Em 1948, quando se realizou a primeira assembleia do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), como três quartos de século depois, na 11ª assembleia da organização, a realidade com que se confrontam as 352 igrejas protestantes, ortodoxas e anglicanas que constituem o CMI são muito semelhantes.

O ainda secretário-geral em exercício, o padre romeno ortodoxo Ioan Sauca, chamou a atenção para a semelhança dos cenários. Quarta-feira passada, 31 de Agosto, o Presidente alemão, Frank-Walter Steinmeier, foi muito crítico da Igreja Ortodoxa Russa e do seu alinhamento com o regime de Putin, no seu discurso na sessão de abertura da 11ª Assembleia do CMI. Reagindo a esses comentários, o padre Sauca afirmou que esta assembleia, que decorre em Karlsruhe (Oeste da Alemanha, 140 quilómetros a sul de Frankfurt) “é de importância semelhante à primeira”, realizada em 1948, em Amesterdão (Países Baixos). “Nessa altura, o mundo estava a emergir do drama de um conflito total e devastador; hoje estamos a viver uma miríade de conflitos, alguns bem conhecidos, outros esquecidos” (ver 7MARGENS).

Num artigo publicado na página do CMI, Theodore Gill, ministro ordenado da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos, e que foi editor do CMI entre 2002 e 2016, recordava: “Os líderes protestantes reunidos em outubro de 1945 debateram e adotaram a Declaração de Culpa de Estugarda, que confessava que o sofrimento compartilhado entre os povos de uma nação implica que também há culpa compartilhada.”

O contexto histórico da primeira assembleia do Conselho Mundial (ou Ecuménico) era pesado, como lembra Theodore Gill: Alemanha e Áustria estavam ainda divididas em zonas de ocupação dos Aliados; as tensões entre a então União Soviética e os ocupantes ocidentais de Berlim levaram à realização de uma ponte aérea e o termo Guerra Fria era cada vez mais usado; muitas cidades e aldeias alemãs e de vários outros países ressurgiam ainda das cinzas da guerra.

A declaração de Estugarda, assinada por vários ex-activistas da Igreja Confessante, que se tinha oposto a Hitler e ao nazismo, assumia o passado recente de destruição, dizendo a dado passo: “Culpamo-nos por não ter testemunhado com mais coragem, por não ter orado com mais fidelidade, por não ter acreditado com mais alegria e por não ter amado mais ardentemente.”

O tema da assembleia – “A desordem do homem e o desígnio de Deus” – procurava condensar o contexto e as preocupações que rodeavam o encontro e a nova organização. “O estado caótico das condições do pós-guerra era evidente em todos os lugares, mas que mensagem as igrejas poderiam ter em relação a um propósito e papel divinos na vida quotidiana?”, pergunta o pastor presbiteriano dos EUA, no artigo citado.

Nesta 11ª assembleia (a terceira realizada na Europa, depois de Amesterdão e Uppsala, na Suécia, em 1968), o contexto volta a ser o da guerra. E o tema exprime o que está em causa para o CMI, neste momento: “O amor de Cristo conduz o mundo à reconciliação e à unidade”, diz o tema. E ainda Gill: “Mais uma vez, pessoas e igrejas estão em lados opostos. Como em Amesterdão, os participantes da assembleia perguntam: ‘O que podemos dizer? O que podemos fazer? Podemos esperar uma mudança real? Diante de tal desordem, como vamos anunciar o plano de Deus?’

Ao intervir na sessão plenária da manhã desta segunda-feira, 5, o secretário-geral da Aliança Evangélica Mundial, o bispo anglicano alemão Thomas Schirrmacher, reafirmou a “recusa da violência” e a ideia da “justiça para todos” como fundamentais na acção dos cristãos. No debate que se seguiu, o brasileiro Rudelmar Bueno de Faria, da Igreja Luterana, criticou fortemente os actuais “expansionismos que utilizam a guerra” e acabam a promover “o racismo, o neoliberalismo e os neocolonialismos”.

 

A ruptura com os ortodoxos
Putin e o patriarca Cirilo, no Kremlin, em novembro de 2021. Kremlin.ru, CC BY 4.0 , via Wikimedia Commons.

Putin e o patriarca Cirilo, no Kremlin, em novembro de 2021. A divergência entre a maior parte das igrejas do CMI e a Igreja Russa, pelo seu apoio silencioso a Putin e à invasão da Ucrânia, volta a fraccionar o movimento. Foto: Wikimedia Commons.

 

Em 1948, uma outra fractura mostrava já também a dificuldade do diálogo entre ortodoxos (dominantes no Leste europeu) e protestantes e anglicanos, maioritários no Ocidente e Europa do Norte. Os processos que levaram à implantação do comunismo na China ou na Coreia, diz ainda Theodore Gill, acabaram por afastar as igrejas ortodoxas do movimento ecuménico. Hoje, a divergência profunda entre a maior parte das igrejas do CMI e a Igreja Russa, pelo seu apoio silencioso a Putin e à invasão da Ucrânia volta a fraccionar o movimento.

Só na terceira assembleia (Nova Deli, 1961), as igrejas ortodoxas se juntariam ao CMI. Por isso, na primeira assembleia não havia mais do que 147 igrejas fundadoras, representadas por 351 delegados com direito a voto. A grande maioria delas era ainda da Europa Ocidental e América do Norte. Apenas 30 eram oriundas da África, Ásia e América Latina.

Raras eram também as mulheres. Kathleen Bliss, da Igreja da Inglaterra (Anglicana), uma delas, presidiu ao comité sobre os leigos e foi uma das pessoas que integrou o comité que redigiria a mensagem final, conhecida como Mensagem de Amesterdão. Acabou por ser autora de uma das frases mais conhecidas do movimento ecuménico: “Pretendemos ficar juntos.”

Em 1948, o novo CMI produziu um conjunto de artigos académicos destinados a serem estudados em igrejas e faculdades de teologia. O guião para as celebrações desta 11ª assembleia insiste na ideia do “oásis de paz” e de lutar “pela unidade por um futuro que Deus nos prometeu”, como diz a convicção cristã.

A assembleia de 1948, no entanto, não nasceu apenas das cinzas da guerra, mas de um movimento que, vindo da segunda metade do século XIX, convergiu para vários encontros e iniciativas. Em 1910, a Conferência Missionária de Edimburgo deu um passo decisivo nesse movimento, que culminaria na criação de um conselho de coordenação das missões. A Grande Guerra 1914-18 interrompeu o processo, que seria retomado em 1937-38, já com a ideia de um conselho mundial. Mas o novo conflito mundial obrigou ao seu adiamento até 1948.

Depois da assembleia fundadora, seguiram-se Evanston (Illinois, EUA, 1954), as já referidas Nova Deli e Uppsala (1961 e 1968), Nairobi (Quénia, 1975), Vancouver (Canadá, 1983), Camberra (Austrália, 1991), Harare (Zimbabué, 1998), Porto Alegre (Brasil, 2006) e Busan (Coreia do Sul, 2013).

No  vídeo abaixo, preparado pelo CMI, pode ver-se o caminho e os temas dessas várias assembleias, e entender a crescente importância do Conselho Mundial na cena internacional.

A paz é precisamente um dos focos do CMI e, desde a última assembleia, o Conselho dedicou cada ano a uma região do mundo atormentada por conflitos e tensões. Sucederam-se Israel, Palestina e Médio Oriente (2016), Nigéria e África (2017), Colômbia e América Latina (2018), Tailândia e Ásia (2019), Fidji e Pacífico (2020) e América do Norte (2021). E no roteiro que resume a caminhada de Busan até Karlsruhe, resume o CMI: “Que as igrejas sejam lugares de cura e de compaixão e que seja possível semear as Boas Novas para que a justiça cresça e a paz profunda de Deus reine no mundo.”

No início, como agora, a vontade da paz no meio do caos.

 

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