Dos imigrantes europeus ao P. Joaquim Alves Correia, uma universidade nos EUA

| 14 Dez 19

Universidade Duquesne, em Pittsburg (EUA). Foto © Tony Neves

 

A história desta Universidade americana faz-nos recuar ao fim do século XIX. Nada melhor que percorrer o seu vastíssimo campus para saber quando tudo começou. Uma enorme placa à entrada da Reitoria explica que foi fundada pelos Missionários do Espírito Santo em 1878, incorporada no Pittsburg Catholic College em 1882 e chamada ‘Duquesne University’ em 1911. A poucos metros, mesmo na entrada da Igreja da Universidade, está a estátua do seu fundador: o padre Joseph Strub, missionário alemão.

Ora, estes encontros com a história precisam de ir mais longe e mais fundo. Contei com alguns dos missionários a viver na residência espiritana da Universidade (Trinity House) e na casa provincial, centro de espiritualidade e casa de repouso, situada nas colinas que circundam a cidade, a uns 40 quilóemetros de Pittsburg. O padre Ray French é um dos vice-reitores da Universidade. Espiritano escocês, está há muitos anos nos EUA e conhece bem a história desta Universidade. Foi ele quem me foi esperar ao aeroporto, com ele participei na missa dominical da Universidade, fez-me visita guiada ao enorme campus universitário e, sobre a fundação desta instituição académica, contou-me: “Foi fundada por um padre alemão como escola para assegurar a educação dos filhos dos muitos imigrantes alemães que trabalhavam em Pittsburg.”

 

Alves Correia, profeta português na Última Ceia

O padre Vincent Stegman, americano de Pittsburgh, conhece a história como ninguém. Falou-me da sua formação, da sua missão na Tanzânia com os massai, convidou-me para um almoço com estudantes e professores onde falou da sua missão entre este povo nómada da Tanzânia e levou-me ao cemitério de St. Mary, situado na sua aldeia natal. Mas voltaremos à importância que atribuo a esta visita. É que, na primeira refeição que tomei na Universidade, dei de caras com uma enorme pintura da Última Ceia em que um dos apóstolos é o padre Joaquim Alves Correia, um espiritano português que morreu no exílio, ali naquela Universidade.

Ora, “quando quiseram pintar a Última Ceia no refeitório, foram à procura de missionários notáveis para figurar como Apóstolos. Então, um dos escolhidos foi o padre Alves Correia” – contou-me o padre Edward Vilkauskas, agora a viver nas colinas da cidade, na comunidade provincial, que tem uma parte adaptada para acolher a acompanhar os confrades dependentes, como é o caso do padre Ed.

O padre Joaquim Alves Correia, forçado ao exílio na comunidade dos Missionários Espiritanos da Universidade Duquesne (Pittsburg, EUA), acabou por ser retratado (à esqª) no refeitório da comunidade, na pintura alusiva à Última Ceia. Foto © Tony Neves

 

Convidaram-me a contar um pouco da história do padre Alves Correia, pois as memórias vão desaparecendo com o tempo, uma vez que este espiritano português morreu já em 1951. Expliquei: nasceu em Aguiar de Sousa, perto do Porto, onde tem uma estátua. Foi missionário na Nigéria, depois em Lisboa. Aqui, como era sensível à pobreza e bom escritor, começou a intervir politicamente. Escreveu várias obras de impacto e acabaria por ser forçado ao exílio, indo para a Universidade de Duquesne onde leccionou Sociologia e deixou uma marca de integridade e humanidade.

Recordei-lhes que foi condecorado em Portugal, a título póstumo. Foi atribuído o seu nome a uma rua de Lisboa. E, mais recentemente, os espiritanos fundaram uma instituição para apoiar imigrantes, tendo-lhe atribuído o nome do missionário: Cepac (Centro Padre Alves Correia). Quem propôs o nome para esta instituição foi o padre Firmino Cachada, hoje a trabalhar na Amazónia. Explicou: “Quando se tornou urgente criar uma IPSS para apoiar imigrantes, logo me veio à cabeça o nome do padre Alves Correia, um amigo dos pobres e um lutador pela justiça social.”

O padre Eugene Uzukwu, um dos espiritanos nigerianos mais idosos, é doutor em Teologia e professor em Duquesne. Ouviu muitas histórias sobre a passagem de Alves Correia pela Nigéria e continua muito interessado em aprofundar as suas obras. Disse-me: “Estudei três artigos interessantes escritos por ele em francês, quando estava na Nigéria. Ele foi um dos combatentes contra a escravatura que ainda existia. Foi corajoso e profeta. Estamos a falar dos anos 30 do outro século!” Sempre alegre, cada encontro que tínhamos, regra geral à mesa, era para falar mais do padre Alves Correia, sempre a olhar para a sua cara estampada na parede da sala de jantar, naquele quadro da Última Ceia.

 

Da escola para imigrantes ao cemitério de St. Mary

Voltemos à visita ao cemitério. O padre Vince conhece de cor a história daquela terra e daquele povo a que pertence. Saímos em hora de ponta e deu para muita conversa. Chamou-me a atenção, logo à saída, uma estrutura enorme. Disse-me: “É a famosa Heinz. Foi aqui que esta empresa foi fundada por alemães e, ainda hoje, é uma marca conhecida de maioneses e produtos alimentares. Deu emprego a milhares de pessoas.”

Cruzei estes dados com uma conversa mantida com o padre Jim Closkey, um dos assessores do reitor, que me recordou a história económica de Pittsburg: “Nas margens do grande rio Ohio, foi importante pela siderurgia. As fábricas tinham milhares de trabalhadores que vinham do mundo inteiro. Era tão poluída que lhe chamavam a cidade esfumada.” E, defendendo a história da Universidade, explicou-me: “Quando os espiritanos alemães aqui chegaram, viram logo que era urgente criar uma escola para os filhos dos alemães e dos outros migrantes que eram excluídos pelos americanos. Esta é a razão de ser da fundação da Universidade.”

Voltando à visita a St. Mary Cemitery, partilho o meu espanto logo que lá cheguei: era uma enorme colina, com altos e baixos, cheia de árvores e relva, povoada de pequenas ou grandes placas espalhadas por um imenso espaço. “São assim os nossos cemitérios” – reagiu o padre Vince, que nasceu numa casa ali mesmo ao lado. E começamos por visitar o espaço onde está sepultado o fundador da Universidade, o padre Strub, com mais uns quantos missionários falecidos no início do séc. XX.

Depois, percorremos mais umas centenas de metros e encontrámos os túmulos de outros missionários: um deles, o do padre Alves Correia, razão porque quis tanto fazer esta visita. Os espiritanos que morreram nos últimos 30 anos já estão noutra parte nova da colina. Joaquim Alves Correia – a quem Mário Soares, Manuel Braga da Cruz, Anselmo Borges ou António Matos Ferreira chamaram um dos pais da democracia portuguesa – jaz ali na terra do seu exílio.

O padre Tony Neves, junto do túmulo do padre Joaquim Alves Correia, no cemitério St Mary, em Pittsburg (EUA). Foto: Direitos reservados.

 

O futuro do planeta e da missão

Regressemos a esta Universidade que tem dez mil alunos. Bill Clearly, missionário espiritano irlandês, trabalhou longos anos na Tanzânia e é o director-adjunto do Centro de Estudos Espiritanos, criado em 2006 para aprofundar a reflexão sobre a missão no mundo de hoje. Reuni com a direcção porque irão publicar as actas das conferências e conclusões do Fórum sobre Diálogo Inter-Religioso realizado em Zanzibar no fim de 2018. Confessava-me: “Este Centro tem a vocação de provocar mais reflexão sobre a missão que se faz e mais divulgação do muito que já reflectimos e fazemos.”

Fui à Universidade de Duquesne para participar nas conferências sobre Integridade da Criação. É uma cátedra que tem cinco anos e nasceu do desafio lançado ao mundo e à Igreja pelo Papa Francisco quando publicou o seu documento sobre ecologia integral, a encíclica Laudato Si’. Todos os anos, a Universidade realiza estas conferências convidando peritos da especialidade, não só norte-americanos, mas também de outros continentes. Por feliz coincidência, estas realizaram-se em simultâneo com a Cimeira do Clima, na ONU, que juntou vários líderes políticos ali ao lado, em Nova Iorque. Foi muita rica a partilha, sempre com um auditório enorme a abarrotar de alunos e professores.

Se a Universidade nasceu para responder a um desafio enorme – a exclusão dos filhos dos imigrantes –, tem agora a missão académica de ajudar o mundo a ser mais humano, mais fraterno e mais ecológico.

Na sessão solene de conclusão, o professor Gerald Magill, responsável pela organização, elogiou a alta qualidade das conferências e a altíssima adesão da comunidade académica. Terminou com estas palavras: “Cá estivemos e, para o ano, cá estaremos para celebrar a missão espiritana no mundo. See you next year.”

E com figuras inspiradoras como a do padre Joaquim Alves Correia a Universidade pode ir mais longe e mais fundo.

 

Tony Neves é padre católico e responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos), de cuja congregação é membro.

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