At no period in history has cleverness been so highly valued or, in certain directions,
so widely and efficiently trained as at the present time.
And at no time have intellectual vision and spirituality been less esteemed,
or the End to which they are proximate means less widely and less earnestly sought for;
(…) and because cleverness has given us technology and power, we believe,
in spite of all the evidence to the contrary, that we have only to go on being yet cleverer
in a yet more systematic way to achieve social order, international peace and personal happiness.
Aldous Huxley, Perenial Philosophy
Esta citação de Huxley é de 1946. Porém, em certo sentido, parece feita à medida do que hoje se passa nos EUA.
Assistimos, nos últimos tempos, à reeleição de Donald Trump, o epitome de uma certa estupidez latente em todas as sociedades que, de tempos a tempos, vem à superfície. À sua boleia ascendeu a clique dos gigantes tecnológicos, cujo poder e influência globais são inegáveis.
O principal representante destes gigantes é Elon Musk, o qual Trump cedo apelidou de “tipo extremamente esperto”, congratulando-se, ainda antes de ser eleito, por poder contar com tal “esperteza” a seu lado. “Quem não gostaria”, disse ele num comício, “de poder contar com alguém tão esperto?”
Mas que esperteza é esta que Trump tanto valoriza, e que hoje, para ou bem ou para o mal, tem acesso privilegiado aos manípulos do potentado mais poderoso do mundo?
Ora, trata-se, segundo me parece, dessa “esperteza” que, por virtude da sua eficácia instrumental na criação de vanguardas tecnológicas e económicas, reforçada ainda pelo sucesso inaudito na escalada ao Olimpo do poder político global, está, como nunca antes, segura do seu poder e eficácia. Como diz Huxley na epígrafe, “porque a esperteza nos deu a tecnologia e o poder, nós acreditamos, contra todas as evidências, que só nos resta continuar a ser cada vez mais espertos de uma forma cada vez mais sistemática para conquistarmos ordem social, paz internacional e felicidade pessoal.” (tradução minha)
Mas esta esperteza segura da sua eficácia é muito perigosa. É incapaz de compreender o abismo da diferença entre razão instrumental e pensamento. Entre raciocínio lógico/tecnológico e verdadeira e informada ponderação das premissas que lhe estão na base (i.e. dos princípios, valores e fins últimos da ação). O primeiro deu-nos coisas extraordinárias na ciência, na técnica e no pensamento, mas também a guerra, as inúmeras formas de exploração do homem pelo homem, e a eficácia inultrapassável da morte industrial (Auschwitz).

Elon Musk no AI Summit no Bletchley Park (UK, 2023). Foto © Marcel Grabowski / UK Government/ Wikimedia Commons.
Antes de se cair na tentação de louvar apressadamente a “esperteza” e a eficácia, deve perguntar-se porquê e para quê, ou seja, de que pressupostos partem e que fins visam servir. Estes, muito mais do que o mero raciocínio instrumental ou tecnológico, determinam o caráter (anti)ético ou (in)humano de qualquer decisão, especialmente na dimensão política.
Pensar significa cuidar (cogitare) dos princípios e valores que orientam a ação; identificar, reconhecer e atualizar os fins superiores que a devem orientar. Não se reduz à simples esperteza, nem à competência económica, tecnológica, criativa, financeira ou qualquer outra particular, por maior que seja. Que um empresário milionário de sucesso global possa afirmar, com toda a naturalidade, sabendo bem do impacto infeliz das suas palavras, que o partido de extrema-direita alemão seja a escolha mais “sensata” para “salvar a Alemanha” (certamente por uma questão de “eficácia”, falta saber de quê), mostra bem que é preciso muito mais do que saber construir empresas tecnológicas de vanguarda para forjar bom senso político e democrático (ler uns quantos livros de história seria porventura um bom começo…).
A política requer uma visão global do fenómeno humano, e quanto maior o poder, maior a necessidade dessa sageza. É muito improvável que ela possa ser encontrada numa administração na qual campeia a esperteza autopresumida, essencialmente instrumental – financeira, empresarial e tecnológica. Mas veremos.
Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.










