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A dignidade dos fragilizados (Três histórias – 1)

Duas histórias de um lar

 

A solidão e o esquecimento são das coisas mais devastadoras na terceira idade. Foto © Eberhard-grossgasteiger | Unsplash

 

[São histórias que me emocionaram. Pode ser que volte a contar aqui outras histórias de lares, porque sei muitas. Talvez alegres, porque também há muitas histórias alegres nos lares.]

 

O Sr. Jorge tem graves problemas de disfagia. É alimentado por sonda já há uns meses.

A Sra. Isabel, irmã do Sr. Jorge, vem visitá-lo ao lar onde ele vive.

A enfermeira entra no quarto e cumprimenta-a. Desliga a máquina que acaba de dar ao Sr. Jorge a sua segunda refeição do dia e dá-lhe, também por sonda, mas à mão, os 150 ml de água que se dão sempre antes e depois das refeições.

– Hoje que está aqui a minha irmã, eu não podia comer ao menos um iogurte? – pergunta o Sr. Jorge à enfermeira.

– Sr. Jorge, já falámos disso muito vezes, não falámos? Não lhe posso dar iogurte, não lhe posso dar nada a não ser a alimentação por sonda. É perigoso, sabe bem, e para quê habituar-se a comer outra vez, agora que já se conseguiu desabituar? Depois, amanhã pede-me outro iogurte e depois uma sopa e depois… Não pode ser, Sr. Jorge. Lamento, mas não pode ser.

A Sra. Isabel está visivelmente emocionada. Quando a enfermeira acaba de falar, começa a chorar.

– Mas quando ele vier a casa pelo Natal, tem de comer alguma coisa – diz ela. – A ceia de Natal não pode ser alimentação por sonda…

______________

 

– Não viu o meu marido? – pergunta a D. Lurdes a uma empregada nova do lar. – Estive lá em baixo no jardim, não sei se ele andou à minha procura.

– Não o conheço, minha senhora, sou nova aqui e ainda não tive o prazer de conhecer seu marido. Mas ninguém me perguntou por si.

A enfermeira aparece e aperta com as duas mãos a mão direita da D. Lurdes.

– D. Lurdes, o seu marido faleceu em março.

– Faleceu em março… – repete a D. Lurdes. – Oh, minha menina, e eu a perguntar-lhe por ele, tanto disparate. Peço-lhe muita desculpa! Tanto disparate…

– Não tem nada que pedir desculpa, D. Lurdes. Não sabia que o seu marido tinha falecido. Lamento muito.

– Vou escrever um papel e pôr na parede do quarto, para não me esquecer mais e não voltar a fazer estas figuras – diz a Dona Lurdes.

– Já escreveu um papel a dizer que o Sr. Lionel faleceu, D. Lurdes – diz a enfermeira. – Há pelo menos três meses que o tem pendurado na parede do quarto. Logo à entrada, do lado esquerdo.

 

Texto reproduzido do blogue Travessa do Fala-Só, de Vítor Santos Lindegaard; o 7MARGENS agradece ao autor a cedência para publicação.

 

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