Duas interrogações eclesiológicas

| 26 Mar 19

Aqueles que, em 1975, receberam a exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (O anúncio do Evangelho), do Papa Paulo VI, não deixaram de ler – na referência que o texto fazia às Comunidades Eclesiais de Base (as CEB’s “tornar-se-ão sem tardar anunciadoras do Evangelho”, nº 58) – o reconhecimento por parte da Cúria Romana da necessidade de renovar o modelo organizativo eclesial. Tal facto sinalizava a esperança numa linha da “teologia de comunhão” (Juan Estrada sj). Quase meio século depois, tal não se veio a concretizar, tendo essa profunda desilusão levado à deserção de muitos leigos (in)formados, diante do velho esquema dual: leigos versuspadres, consagrados versusnão consagrados.

Datado dessa época esperançosa ECLESIOGÉNESE. As comunidades eclesiais de base reinventam a Igreja, de Leonardo Boff, ofm, surgia (em 1977) na linha da abertura operada pelo Concílio Vaticano II. Este histórico livrinho, de apenas 113 páginas, ainda é uma excelente porta de entrada (e de saída…) para as múltiplas problemáticas com que os católicos leigos ainda se confrontam hoje em dia, em pleno século XXI. A partir do Concílio Vaticano II, deste livrinho e de outros autores, deixo aqui duas interrogações às quais é urgente responder, caso a Igreja ainda queira ser sinal de esperança para os sem futuro deste mundo.

 

1 – Quis, o Jesus histórico, uma única forma institucional de Igreja? (L. Boff)

“(…) para os evangelistas, há uma ruptura entre Jesus e a Igreja. Entre ambos está o ‘fracasso’ de Jesus crucificado. Está também a infidelidade dos apóstolos e a dissolução da comunidade dos seguidores de Jesus. Só após a ressurreição é que se voltaram a reunir.”

“O modernista Alfred Loisy (1857-1940) situou bem o problema quando, com certo desconcerto, escreveu: “Cristo pregou o Reino de Deus e em seu lugar apareceu a Igreja” (L’Evangile et l’Église, Paris 1902, 111; a edição que possuo é: Alfred Loisy, L’Évangile et l’Église, 1904, p. 226; há uma edição fac simile por Forgotten Books, 2017, ISBN 978-0-243-34600-4. Cito da p. 226: «[…] le regard de Jésus n’embrassant pas directement l’idée d’une religion nouvelle, d’une Église à fonder, mais toujours l’idée du royaume des cieuxà réaliser. Ce fut l’Église qui vint au monde[…]»)

«Se não há identidade perfeita entre Reino de Deus e a Igreja, que relação vigora entre ambos? Como se chegou da pregação de Cristo sobre o Reino à constituição da Igreja? É, ela, uma consequência imediata desta pregação ou constitui um substitutivo precário do Reino de Deus que não veio? A Igreja é fruto deuma“decepção” ou de uma realização?»

 

«O que pregou Jesus: o Reino de Deus ou a Igreja?»

“Sem sacramento da Ordem, a pessoa é sacramentalmente incapaz [de presidir à Eucaristia]. A Igreja entendeu excluir o leigo da presidência eucarística. Ainda recentemente, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, no dia 15 de Fevereiro de 1975, censurou a opinião de Hans Küng nestes termos: ‘Também a opinião já insinuada pelo Prof. Küng no livro Die Kirchee segundo a qual a Eucaristia, pelo menos em caso de necessidade, pode ser consagrada validamente por pessoas baptizadas carentes da ordem sacerdotal, não pode estar de acordo com a doutrina dos Concílios Lateranense IV e Vaticano II’”.

«O povo pergunta: porque é que nós não podemos celebrar a Eucaristia?» (Carlos Mesters,O futuro do nosso passado, em Uma Igreja que nasce do povo – Encontro de Vitória, ed. Vozes, 1975).

“Para alguns analistas da actual crise intraeclesial, uma das questões-chave para a compreender está na reforma litúrgica: ao constituir-se no centro da renovação da Igreja, a reforma litúrgica contribuiu para o crescimento da consciência do ‘ser sujeito’ de todos os baptizados, isto é, contribuiu para uma concepção totalmente transformada da Igreja e da comunidade. E isso mete muito medo aos que detêm o poder espiritual. Perante todas as tentativas de travagem, há que dizer com muita clareza que não se pode falar de projecto de evangelização, nem sequer pretender ter aí algum êxito, enquanto a liturgia renovadanão corresponder a um sujeito eclesial renovado.” (Joaquin Perea, Sigue la contrarreforma (litúrgica)in Clamor contra el Gueto – textos sobre la crisis de la Iglesia,Trotta, 2012, pp. 132-133)

 

2 – Qual é o “lugar teológico” que funciona como opção preferencial da Comunidade local?

Outras interrogações estão relacionadas com a tensão Igreja-mundo, e dizem respeito às opções de fundo que a Comunidade cristã toma ou não toma. A dominância é as paróquias optarem por uma postura teológica de passividade, neutral, consensualmente pluralista, recusando “habitar” o polémico espaço público como seria de esperar em coerência com o Concílio Vaticano II.

«A Igreja deve entender-se e creditar-se como testemunho público e como transmissora de uma perigosa memória libertadora entre os “sistemas” da nossa sociedade emancipadora. Esta tese alicerça-se na memória como forma fundamental de expressão da fé cristã e na importância central e privilegiada da liberdadedentro dessa mesma fé. Na fé, os cristãos realizam a memoria passionis, mortis et resurrectionis Jesu Christi; no acto de acreditar recordam o testemunho do seu amor, em cujo amor se manifestou o reinado de Deus entre os homens pelo próprio facto de o domínio do homem pelo homem começar aí a desmoronar-se; memória de que Jesus se colocou do lado dos insignificantes, do lado dos marginalizados e oprimidos, proclamando assim o advento do reino de Deus como força libertadora de um amor sem reservas. Esta memoria Jesu Christi não é apenas uma recordação que dispense enganadoramente de correr riscos futuros. Não é uma espécie de reverso burguês da esperança. Pelo contrário, implica uma determinada antecipação do futuro, como futuro dos que não têm esperança, dos fracassados e acossados.» (J. B. Metz, La fe, en la historia y la sociedad, Cristiandad, 1979, pp. 101-102)

Sendo assim, importa perguntar: qual é o “lugar teológico” que funciona como opção preferencial da Comunidade local? A resposta a esta pergunta é a garantia da sanidade (ou da doença) mental de uma comunidade local. Quando uma comunidade local não é capaz de responder a esta questão como Jesus respondeu com o estilo da sua vida, então, começam o enquistamento e as tensões.

Como muito bem diz L. Boff, “na hora de escolher uma teoria explicativa da sociedade, entram em jogo uma série de critérios que não procedem exclusivamente da objectividade e da racionalidade, mas da ‘opção de fundo’ e do ‘lugar social’ de quem analisa.” (…) Sendo assim, em termos gerais, “podemos identificar dois tipos de projectos, ou utopias, cada um com o seu tipo de aderente: o projecto das classes dominantes e o projecto das classes dominadas da sociedade. A utopia dos grupos dominantes propugna um progresso linear, sem mudança alguma dos esquemas que estruturam a sociedade; ela manifesta uma fé imensa na ciência e na técnica e pressupõe uma concepção elitista da sociedade, cujos fins e benefícios − acredita − irão progressivamente estender-se às massas. A utopia dos grupos dominados procura uma sociedade utilitária: o fosso entre as elites e as massas constitui o principal obstáculo ao desenvolvimento e, enquanto ele persistir, não haverá verdadeiro progresso e justiça social. Esta última utopia afirma uma fé inquebrantável no potencial transformador dos oprimidos capaz de gerar uma sociedade com o menor número de opressores injustos». (La fe en la periferia del mundo. El caminar de la Iglesia con los oprimidos, Santander, 1981, 26-27 cit. por Julio Lois, Identidad cristiana y compromiso socio-político, Ediciones Hoac, p. 110-111).

Como reconhece a Comunidade Cristã da Serra do Pilar (VN Gaia, 08-04-2018), citando José Antonio Pagola, “a Igreja do futuro não poderá continuar a apoiar-se nos presbíteros”, pois “o maior potencial para a renovação da Igreja está nos crentes leigos e leigas”.

Só os leigos – para lá dos ambíguos “sim, mas” que se encontram em alguns textos do Concílio Vaticano II em matéria de identidade e especificidade laical … – serão capazes de viver sem esquizofrenias o serviço diaconal e ao mesmo tempo o compromisso político público como Jesus de Nazaré nos mandou viver, superando duas dualidades: a dualidade identitária ou funcional e a dualidade de missão, reinventando, talvez assim, a Igreja que Jesus queria.

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