Também (digo também porque muitos já o fizeram) me apeteceu escrever sobre António Lobo Antunes, mas achei que quase tudo o que é importante já foi dito. Entrevistas replicadas, notas biográficas bem feitas… Resolvi fazer de outra maneira para não perder a oportunidade de falar de alguém que fazia da escrita as “telas onde se pintam” os sentimentos, as emoções, os factos e as interpretações deles, as dores, as humilhações, os desastres, as lógicas e as ilógicas, as injustiças, as assimetrias sociais… Realmente este ENORME ESCRITOR “pintou” tudo quanto se pode pintar deste mundo – a raiva, o amor, a saudade, a paz, a guerra, o destino, a natureza, a autenticidade, a loucura… Poderia fazer este artigo só a dizer palavras que traduzem a minha maneira de ler o que nos deixou.
Por se tratar de alguém diferente (não sei dizer melhor) decidi fazer também algo que ninguém fez, pelo menos que eu tenha visto – agarrei nos doze livros que tenho em casa e que li, de sua autoria, abri “ao calhas” e transcrevi o pedaço onde “tropecei”. É isto que deixo como singela homenagem.[1]
Este ser, na condição humana, partiu, mas a presença permanecerá na nossa memória, na memória de todos, como alguém que arrisca dizer o que pensa, ainda que, quem sabe, com medo de ser rejeitado, mas com coragem de se sujeitar a isso.
Aqui vão os retalhos “ao calhas”:
“Eu estava de passagem na sede do batalhão, a caminho de Luanda e das férias de Lisboa, estendido na cama na sesta do almoço, a sentir como um feto o peso do esparguete na barriga.
– Uma doença, Dr. – insistiu o tenente –, anemia, leucemia, reumatismo, cancro, bócio, Uma doençazeca, uma doença de merda que me passe à reserva: o que fazemos nós aqui? Você já se perguntou o que fazemos aqui? Pensa que alguém nos agradece, não, porra, escute lá, pensa que alguém nos agradece? Ainda por cima, imagine o meu azar, recebi ontem carta da minha mulher a participar-me que a criada se despediu, foi-se embora, pirou-se; não estava lá o rapaz para pôr o selo na pequena e o resultado viu-se.”
[in os cus de judas, página 78 da minha edição (1979)].[2]
“– Não quero ser boi, não quero ser legume, não quero deitar-me lá fora ao sol como os cadáveres dos desastres alinhados nos carris. Não quero as visitas aos domingos, os passeios ao Jardim Zoológico, o programa de Natal na televisão. Não quero jogar às damas, como os defuntos.
– Esquizofrenia? – inquiriu o cachimbo ao assistente, erguendo uma sobrancelha sábia. Durante o curso estudara com certeza os apontamentos todos, decorara dezenas e dezenas de sintomas, e esforçava-se agora por os articular, sem sucesso, num mosaico coerente.”
[In Conhecimento do Inferno, página 118 da minha edição (1979)].

Foto: Página Facebook António Lobo Antunes (Grupo)
“E falou do imenso amor que unira durante quase 50 anos o avô e a avó paternos e no modo como os filhos e os netos mais velhos tinham de bater com os pés no chão para avisarem da sua entrada em quarto em que eles estivessem sozinhos. Reviu-os de mão dada à mesa da sala de jantar no decurso de jantares de família, e na forma como o avô afagava a mulher e lhe chamava minha Velha, e punha nesse chamamento uma funda e quente e indestrutível ternura.”
[in Memória de Elefante, página 142 da minha edição (1984)].
“Acordou muito cedo porque dormiu na cama do lado da janela, de que se esquecera de baixar o estore e correr as cortinas, com a sensação de os lençóis navegarem na bruma da Ria, de nuvens baixas e grossas nascidas da espessura turva da água.”
[in Explicação dos Pássaros. Pág. 75 da minha edição. (1985).]
“Tu, ao menos, nunca me perguntas se lavo as orelhas, se lavo os dentes, se lavo o cabelo, se corto as unhas, se me porto bem: partilhamos um firme horror comum pela água, em virtude do qual a banheira foi transformada em arrecadação onde se acumula toda a casta de lixo, bonecos sem préstimo, álbuns de recortes, pincéis, roupas, tachos, cartas, o par de botas da tropa do amante anterior, fotógrafo numa revista desportiva que levantava halteres no Ateneu.”
[In Auto dos Danados, página 135 da minha edição (1986)].
“– Passa-me uma pedra qualquer, pronto, que se lixe, antes que o da pêra a meta em casa e nos estrague a festa, pediu o Homem, de cócoras no muro, chamando o Meritíssimo com a mão. Uma pedra, um cisco de tijolo, um bocado de ferro, uma coisa que aleije, a cabra há-de pagá-las, pá.”
[in Tratado das Paixões da Alma, pág. 286 da minha edição (1990)].
“– Um comprimido para dormir dona Paula?
O Romeu, desalinhado da pressa, com a aspirina e o troco, a insistir com a Filomena que verificasse o dinheiro nunca se sabe nunca se sabe, a encher um copo de água na torneira do quarto de banho, a transportar o copo sobre o pires que tremia em passinhos cautelosos, o soalho reduzido a um fio de arame cinco metros acima do chão, um silêncio no escritório igual ao silêncio dos circos, a orquestra calada, os espectadores tensos, eu de coração num pingo.” [In O Manual dos Inquisidores, página 253 da minha edição (1996)].
“o meu padrinho e o veterinário a regressarem ao jipe com uma coroa de pirilampos e besoiros em torno, o pai do chefe de posto disparava contra a vivenda
– Cobarde
disparava o carregador inteiro na fachada, entrava na furgoneta, contornava a praça abrandando junto ao cipaio a dirigir-se-lhe como se falasse ao filho
– Seu cobarde de merda seu palhaço
roçando as cercas de arame e aterrorizando os chibos, o meu padrinho”
[in O Esplendor de Portugal, página 291 da minha edição (1997)].
“Canalha
é engraçado não haver diferença entre os olhos vivos e os olhos defuntos conforme é engraçado as ondas serem a mesma onda que se retrai e avança, quer dizer os olhos não olham, são olhados por si mesmos, em pequena acordava mais cedo, erguia as pálpebras da Ana e uma idêntica desatenção vazia antes das queixas, dos protestos”
[in não entres tão depressa nessa noite escura, pág. 55 da minha edição (2000)].
“E aqui está o meu sogro penteadinho, grave, todo catita
(percebe-se que fez a barba com mais cuidado, passa as costas da mão na bochecha, a minha sogra com as minúcias habituais que não sei como o pobre aguentava
– Espera
a endireitar-lhe o casaco, a limpar com a ponta do lenço o que não estava sujo na cara, a recuar observando-o só boca franzida, só pálpebras, a inventar um traço que ninguém notou”
[in Eu Hei-de Amar uma Pedra, página 129 da minha edição (2004)].
“Como vai o problema da casa? Espero que a hipótese Arneiros se tenha entretanto concretizado, para a solução das nossas angústias monetárias. Tenho poupado quanto posso, e ganho algum dinheiro ao jogo King, que jogo todas as noites, durante duas horas (não me toma muito tempo e é rendoso) com o M. (sempre inefável), um piloto, e o oficial mecânico-auto a quem toda a gente chama Rodas. Vamos a ver se poderei realmente ir em Setembro como espero, E o mais cedo possível dentro desse mês, mas é melhor não ter grandes esperanças. Por minha vontade, e só para te poder ver, ia já, agora, e a pé.”
[In D’este viver aqui neste papel descrito – Cartas de guerra, pág. 93 da minha edição (2005)].
“a parir no barraco sozinha e a expressão que nunca mais esqueci semelhante à de um cabrito antes de tombar do penhasco quando a primeira pata falhou, a segunda pata falhou e os olhos, amigos, que não se queixavam, não pediam, um adeus apenas, a minha mãe”
[in O Arquipélago da Insónia, pág. 108 da minha edição (2008)].

António Lobo Antunes (1943-2026). Foto: Direitos reservados.
Conheci pessoalmente o Dr. António Lobo Antunes, quando era, creio eu, diretor clínico da Clínica Psiquiátrica de S. José, da Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus, em Telheiras. Moderou uma mesa numas jornadas em que participei. Já não sei quais foram, mas recordo a impaciência do moderador enquanto o coffee break se arrastava e atrasava os trabalhos. E, depois, a gentileza e a subtileza com que se me dirigiu. Não me parece que fizesse concessões, mas, na sua autenticidade, permitia que se interpretasse nele o “mau feitio dos tímidos” e a humanidade dos HOMENS ENORMES.[3]
Creio que a melhor homenagem que lhe pode ser feita é continuarmos a ler a sua obra literária.
[1] A ordem dos excertos dos livros obedece à cronologia da sua escrita.
[2] Propositada e indisciplinadamente não coloquei referências bibliográficas de acordo com qualquer norma.
[3] Que fique bem claro que tudo o que aqui digo é da minha exclusivissima interpretação e responsabilidade. Quando faço uma narrativa indisciplinada ainda sinto necessidade de me justificar. Sobre isto nada aprendi (ainda) com o gigante que agora parte desta etapa da nossa existência chamada vida humana.
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt
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