
O vento do meu espírito
soprou sobre a vida
E tudo que era efémero
se desfez.
E ficaste só tu, que és eterno
Cecília Meireles
Assim como temos “santos ao pé da porta” também há lugares perto de nós a que podemos chamar “sagrados”. Sagrados porque inundados de Vida, onde espírito e sentidos estão profundamente unidos.
Encontro um local assim na Duna da Crismina, no Guincho. Sendo um ponto de turismo, para mim é como um “santuário” no sentido em que, saindo da rotina do quotidiano, me faz sentir parte de algo maior e encontrar unidade e paz.
Aberto a todos, de fácil acesso (tenho a sorte de estar à distância de um passe), ao chegar mergulhamos em beleza ficando o tempo como que suspenso.
Vai-se caminhando, cada um a seu ritmo, por passadiços de madeira que protegem aquele sistema ecológico frágil e que requer todo o nosso cuidado.
Ao longo do caminho há painéis que nos dão a conhecer a riqueza das espécies animais e vegetais ali existentes.
O céu, como um manto que tudo cobre, pode variar do azul intenso dos dias claros a um cinzento carregado de chuva ou a cor de laranja e vermelho ao pôr do sol; a areia das dunas faz pensar no deserto; ao fundo temos o mar sempre em movimento e, ao lado, a serra de Sintra como sentinela protetora. Não havendo nevoeiro, o Cabo da Roca, “ponto mais ocidental da Europa”, faz-nos alargar o coração e sentir ligados ao vasto mundo que existe para lá do nosso pequenino lugar.
As dunas nunca são iguais. O vento que ali sopra, por vezes com grande intensidade, vai-as modelando e somos sempre surpreendidos pela diferença dos contornos das suas elevações.
Sente-se uma intensa vida da fauna e flora. Avançamos rodeados por uma vegetação variada, com cores e cheiros que mudam segundo as estações do ano.

Modeladas pelo vento, as dunas nunca são iguais. Foto © Lucy Wainewright
Ouvem-se diferentes sons, zumbidos, movimentos nas areias, cantos de pássaros, e no verão o repetitivo coro das cigarras.
Geralmente há um ambiente de contemplação, quase de respeito, embora não se deixe completamente de ouvir e ver o movimento de carros e por vezes surjam grupos mais barulhentos. Mas tudo ajuda a tomar consciência e a integrar o que nos rodeia, lembrando-nos que somos uma pequeníssima parte de um imenso Universo.
Ao cruzarmos outros caminhantes, muitas vezes há uma breve saudação, um sorriso, ou apenas um acenar de cabeça.
Nunca saberemos o que se passa no interior de cada um, e quem sabe quantos, naquele lugar improvável, poderão ouvir a promessa “Eu te chamarei ao deserto e aí te falarei ao coração”?
Este é um tempo propício a viagens e passeios, tenham eles como destino lugares novos e longínquos ou que fiquem à distância de uma prazerosa caminhada a pé, a partir de casa. Entre esses lugares, há paisagens, edifícios, trilhos, cidades ou aldeias que revigoram e nutrem a vida interior. Na rubrica “Lugares revelados”, o 7MARGENS dá a conhecer alguns desses locais. Os colaboradores e leitores que queiram partilhar um texto (e foto) sobre o seu “lugar revelado”, poderão enviar os materiais para setemargens@setemargens.com.









