
A representação da Última Ceia, na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos, que incluiu drag queens. Imagem capturada da transmissão televisiva.
A diretora de comunicação dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2024 pediu desculpas aos escandalizados com a suposta representação da Última Ceia. O diretor artístico da cerimónia de abertura identificou o diálogo que estabeleceu com uma pintura que não a de Da Vinci. Para lá das obrigações de cortesia institucional, faz sentido um pedido de desculpas ou a identificação de um referente da pintura clássica aparentemente mais neutro nos dias de hoje? Há como ser neutro? Creio que não. São muitíssimas as paródias à Última Ceia. Esta obra de Da Vinci é um clássico e, por isso, todos sabemos que existe, já vimos, pelo menos, alguma reprodução que conforma a sua escala àquilo que cabe no nosso olhar.
Não imaginamos a partir do nada. Sempre estabelecemos diálogos com aquilo de que somos herdeiros. Por isso a cultura é tão importante: é feita de memória das comunidades humanas, comporta infindáveis possibilidades de imaginar o futuro. Neste jogo vamos contruindo o nosso presente. E sempre sabemos que a imaginação é vital para nos relacionarmos com o que nos transcende, com aquilo que excede a nossa capacidade de compreender.
Vem-me à memória um muito estimulante livro publicado em Portugal em 2016, numa coleção dirigida por José Tolentino Mendonça, que prefaciou a obra: O Batismo da Imaginação. Quem diria que passado uns anos, trabalhariam juntos, Tolentino e António Spadaro, o autor a que me refiro… Nem a nossa imaginação se atrevia a supô-lo. Recordo, do prefácio: “Os que se colocam do lado da imaginação descrevem-na assim: a imaginação é uma atividade percetiva que parte sobretudo do sensorial e do simbólico; […] é um campo de forças psíquicas e espirituais, conscientes e inconscientes, que se expressa de forma inusitada, mas também orgânica e vital; é uma pulsão criativa que nos faz olhar o real de um modo não formatado; é matéria-prima da criação e da arte; é a poética interna do sujeito; é um sopro da liberdade de Deus.” (p.5).
Aquilo que mais nos importa reside nos perigos da ausência de liberdade para a imaginação, na ausência de liberdade para assumir o espanto, a alegria e a esperança que o Espírito Santo nos recorda a cada dia da nossa vida. Encontro expressão disto mesmo nas palavras de Tolentino que revisito: “A própria teologia tem prevalentemente adotado, nas várias arquiteturas que ensaia, o esquema do racionalismo, fugindo demasiado ao encontro com a imaginação, como se esta pudesse ser omitida da gramática integral do humano.” (p. 6).
Maria do Sameiro Pedro é colaboradora do 7MARGENS










