E agora, União Europeia? Igrejas e instituições de solidariedade pedem responsabilidades e exigem solução imediata para refugiados de Moria

| 12 Set 20

Campo de refugiados de Moria (ilha de Lesbos, Grécia), em Janeiro de 2020: nos incêndios desta semana, ardeu o lixo e arderam as tendas. Foto © Cláudia Valente, cedida pela autora.

 

“A Europa devia ter vergonha”, o incêndio no campo de refugiados de Moria “foi provocado pela nossa inação”. As afirmações são do cardeal Jean-Claude Hollerich, presidente da Comissão dos Episcopados da União Europeia (Comece), mas refletem a opinião de muitos outros líderes religiosos, representantes de instituições de solidariedade e organizações humanitárias. Todos apelam à União Europeia para que assuma as suas responsabilidades e abra as portas aos migrantes, que agora perderam mesmo tudo.

“Eu acho que a Europa devia ter vergonha porque isto é o resultado do desespero no coração das pessoas”, afirmou o cardeal Hollerich, em entrevista ao Vatican News, poucas horas após ter deflagrado o incêndio no campo de Moria, que deixou mais de 12 mil refugiados sem abrigo.

O presidente da Comece, que visitou, em dezembro do ano passado, aquele que era o maior campo de refugiados da Europa, recorda que, ao falar com as pessoas que viviam no campo, percebeu “o desespero profundo nos seus corações”. “A escuridão”, explica, “entrou no coração destas pessoas e eu acho que o incêndio é uma consequência disso. Uma atitude que é provocada pela nossa inação”.

O cardeal Konrad Krajewski, esmoleiro do Papa, que acompanhou Hollerich na visita a Moria, tão-pouco tem dúvidas: “A Europa nega direitos e esperança”, é “a política que mata as pessoas”. Depois dessa visita, Krajewski regressou ao Vaticano com 33 refugiados, 14 deles menores. “Trouxemos aqueles que nos permitiram trazer, umas poucas dezenas de pessoas, mas ficaram lá milhares”, recorda, em declarações ao Corriere della Sera. Agora, exige “aquilo que já devia ter sido feito” há anos: “Esvaziem esse campo de concentração”. O que falta? ” É apenas uma questão de vontade política. E não custaria nada: as famílias que acolhemos em Itália não custam nada ao Estado, bastava uma assinatura”, responde.

Também para o arcebispo de Atenas e toda a Grécia, Ieronymos, “é chegado o momento de a UE assumir as suas responsabilidades”. Numa declaração divulgada esta quinta-feira pelo Orthodox Times, o responsável da Igreja Ortodoxa Grega sublinha que “Cristo foi o primeiro refugiado” e, por isso, a Igreja “estará sempre ao lado de cada ser humano pobre, perseguido, fraco, de cada refugiado, livre de qualquer discriminação. Com ações e não com palavras. Na prática e não na teoria”.

Mas se, por um lado, Ieronymus afirma “deplorar profundamente os acontecimentos em Moria”, por outro assume que a Igreja “está muito preocupada com o que esta trágica situação esconde para a integridade nacional e para uma vida pacífica na nossa pátria”.

Já na perspetiva do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), que reúne cerca de 350 igrejas cristãs, é muito claro que a abordagem atual ao drama de refugiados, com a criação de campos sobrelotados, “só vai criar mais vítimas”. Numa declaração em vídeo, o responsável pela secção de migrantes europeus no CMI, Torsten Moritz, defendeu que “a Europa é um continente forte o suficiente para abrigar, receber e oferecer procedimentos de asilo decentes a todos aqueles que chegam”.

 

É urgente avançar com “realojamento justo e permanente”. Portugal acolhe os primeiros 100 refugiados
refugiados lesbos corredor humanitario roma, Foto Comunidade de Sant'Egidio

Um grupo de dez refugiados afegãos, recebido em Julho, em festa, no refeitório da Comunidade de Sant’Egídio, em Roma. Foto: Comunidade de Sant’Egídio.

 

“A compaixão humana é agora mais vital que nunca. (…) Sem dúvida alguma, urge procurar condições alternativas de acolhimento baseadas na solidariedade e que assegurem a dignidade humana de cada residente nos campos de toda a Europa, tanto agora como no futuro”, afirmou Maria Alverti, diretora da Cáritas Grécia, instituição que esteve nos últimos dois dias em Lesbos a prestar auxílio aos refugiados e a fazer o levantamento das principais necessidades, distribuindo água e sacos cama.

“Enquanto os líderes da UE finalizam o próximo pacto sobre asilo e migração, uma tragédia tão previsível deveria servir-lhes como chamada de atenção e advertência, para que evitem duplicar um modelo que estava condenado ao fracasso desde o início, dadas as condições de sobrelotação”, referiu a secretária-geral da Cáritas Europa, Maria Nyman, citada pelo Religión Digital. “Deve estabelecer-se urgentemente um mecanismo de realojamento justo e permanente que garanta a solidariedade e a partilha de responsabilidades entre entre os Estados membros da EU, baseado nos direitos humanos e a dignidade humana.”

Em Portugal, o Serviço Jesuíta aos Refugiados – Portugal e a Plataforma de Apoio aos Refugiados emitiram um comunicado onde dizem ser “urgente devolver a dignidade retirada às pessoas antes e durante o seu processo migratório e assumir uma posição solidária no seio da União Europeia” e “reativar o programa de recolocação de emergência, redistribuindo equitativamente as pessoas pelos vários estados-membros e a criação de vias legais e seguras”, como o visto humanitário, para “evitar” o recurso a redes de tráfico.

Numa nota enviada ao 7MARGENS esta sexta-feira, 11 de setembro, o Ministério da Administração Interna assegura que o Governo português já transmitiu à Comissão Europeia “a sua disponibilidade para participar no esforço europeu de solidariedade para o acolhimento de pessoas que se encontravam no campo de refugiados de Moria” e destaca que “no âmbito do acordo bilateral já assinado entre Portugal e a Grécia, irá proceder-se à agilização da já prevista transferência das primeiras 100 pessoas”.

Ainda este mês, está prevista a chegada a Portugal de 28 menores não acompanhados provenientes de campos de refugiados na Grécia, depois de o primeiro grupo de 25 crianças e jovens, de um total de 500 que Portugal se mostrou disponível para receber, ter sido acolhido no passado dia 7 de julho.

 

Novo Pacto para as Migrações: Igrejas reconhecem “boas intenções”, mas continuam “muito preocupadas”

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Depois de terem emitido um comunicado em que diziam “esperar melhor da Europa e dos seus líderes” em relação à política de acolhimento de migrantes e refugiados, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a Conferência das Igrejas Europeias (CEC) e a Comissão das Igrejas para os Migrantes na Europa (CCME) fizeram questão de entregar o texto em mãos, na passada sexta-feira, 25 de setembro, na sede da Comissão Europeia, em Bruxelas. Recebidos por Vangelis Demiris, membro do gabinete da vice-presidente da comissão, Margaritis Schinas, os representantes das igrejas cristãs em todo o mundo disseram acreditar que há espaço para melhorias no novo Pacto para as Migrações e Asilo apresentado pela Comissão Eurorpeia a 23 de setembro.

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