Uma Via Sacra com idosos. Maria José Bijóias Mendonça, catequista na paróquia de Pêro Moniz (Cadaval), no Patriarcado de Lisboa propõe uma meditação a partir da condição dos mais velhos. Não sendo propriamente o tipo de texto para o qual mais estamos vocacionados, o 7MARGENS publica esta proposta por considerar que é uma forma de chamar a atenção para a situação dos idosos e na consideração de que esta sugestão pode abrir outros horizontes e servir de inspiração a iniciativas semelhantes.

Presbítero: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Todos: Ámen.
Presbítero: O Amor e a Graça de Jesus Cristo, que fortalece o nosso coração para a Vida Eterna, estejam convosco.
Todos: Bendito seja Deus, que nos reuniu no amor de Cristo.
Presbítero: Caríssimos irmãos, reunidos como povo de Deus, a caminho da Pátria Celeste, tomamos sobre nós a cruz de Jesus. Este é um caminho de esperança. Animam-nos a convicção e a alegria de que a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus não foram em vão. Se com Ele caminharmos, com Ele sairemos vencedores. É nisto que esperamos!
Cristo sabe bem o que está dentro de cada um de nós…
Todos: Eis-nos, Senhor, reunidos nesta manhã, para percorrer e rezar o nosso caminho redentor. Concedei-nos o favor da consolação para não cairmos na tentação do desencanto e do desespero. Que o vosso Espírito nos fortaleça!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«Pilatos lavou as mãos na presença da multidão, dizendo: “Sou inocente do sangue deste Justo: isso é lá convosco…” Quanto a Jesus, depois de O mandar açoitar, entregou-O para ser crucificado.» (Mt 27, 24-26)
Pilatos assinou a sentença: Jesus devia morrer, embora não tivesse achado n’Ele culpa alguma. Quantas vezes, Senhor, os mais velhos sentem que a sociedade e os seus próprios familiares os condenam a uma morte que ainda não chegou, a um banimento das suas vidas, quando, afinal, continuam a ter tanto para dar e ensinar. É como pegar fogo a bibliotecas de conhecimento e experiência. E isso dói, dói muito. Como doeu a Jesus a condenação injusta. Mas Ele não Se deixou ir abaixo.
Presbítero: Senhor, ajudai os nossos irmãos mais velhos a não desmoralizar quando o mundo parece esquecê-los e querer anulá-los.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«Depois de O terem escarnecido, tiraram-Lhe o manto, vestiram-Lhe as suas vestes e levaram-No para ser crucificado.» (Mt 27, 31)
Após torturarem Jesus, puseram-Lhe aos ombros a pesada cruz de madeira em que havia de ser crucificado. Que maldade refinada e sem limites! E sem qualquer razão que justificasse tamanha violência.
Quantos irmãos mais velhos, Senhor, sofrem hoje violências diversas, até no seio da família ou dos espaços onde vivem. Alguns, são vítimas de violência psicológica, verbal, outros, de violência física, moral, financeira, ou qualquer outra forma de desrespeito ou ataque à sua dignidade.
Presbítero: Senhor, dai forças aos nossos irmãos mais velhos para que não desistam de amar e de apontar o amor como resposta para todas as violências.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«Ele suportou as nossas enfermidades e tomou sobre Si as nossas dores. Mas nós víamos n’Ele um homem castigado, ferido por Deus e humilhado. Ele foi trespassado pelas nossas culpas e esmagado por causa das nossas iniquidades. Pelas suas chagas fomos curados.» (Is 53, 4-5)
É muito doloroso para os mais velhos aceitar que vão perdendo algumas forças e capacidades da juventude. Muito frequentemente, dizem: «No meu tempo, fazia isto, fazia aquilo, mas já não sou capaz…», ou: «Quando era jovem, não tinha medo de me meter a fazer qualquer coisa, agora…». Porém, ao cair, Jesus assumiu todas as nossas quedas, tomou sobre Si as nossas doenças e fragilidades, carregou todos os nossos sofrimentos.
Presbítero: Senhor, fazei os nossos irmãos mais velhos sentirem-se sempre acolhidos e amparados.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: “Este Menino está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição; uma espada trespassará a tua alma…”» (Lc 2, 34-35)
Mesmo no meio de uma multidão, qualquer mãe ouve e reconhece a voz de um filho. Quantas mães e pais mais velhos, que fizeram tudo pelos filhos, hoje não sentem ouvida a sua voz; pelo contrário, são abandonados em hospitais, lares, casas sem condições… Contudo, Maria, a Mãe de Jesus e nossa Mãe, continua a ir ao encontro dos seus filhos, com especial afecto pelos que carregam pesadas cruzes.
Presbítero: Senhor, segredai a estas mães e a estes pais mais velhos que o amor puro nunca é perdido e que o compromisso com o Bem é o remédio santo que prescreveis.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«Passava por ali um homem chamado Simão, de Cirene. Voltava do campo. Então, os soldados obrigaram-no a levar a cruz de Jesus.» (Mt 27, 22)
Até Jesus precisou da ajuda do Cireneu!… Todos temos a nossa cruz e precisamos de auxílio. É muito reconfortante sentir que alguém se aproxima para nos ajudar a levá-la. Qualquer pessoa, dentro da condição em que se encontre, é, em parte, aquele Jesus que necessita de ajuda, e, noutra parte, o Cireneu que dá esse apoio, por mais singelo que seja.
Presbítero: Senhor, enviai aos nossos irmãos mais velhos muitos “cireneus”, que os ajudem, animem e valorizem como eles merecem.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«O meu servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz numa terra árida, sem distinção nem beleza para atrair o nosso olhar, nem aspecto agradável que possa cativar-nos.» (Is 53, 2-3)
Às vezes, a idade envergonha-nos. As rugas, as manchas e a flacidez da pele desfiguram-nos a cara. Marcas de toda uma vida de trabalho, preocupações e padecimentos vários tornam o nosso rosto quase irreconhecível. E faltam-nos “Verónicas” corajosas e com amor bastante para se deixarem atrair e mover por ele.
Presbítero: Senhor, que os nossos irmãos mais velhos encontrem sempre quem se deixe envolver pelos seus rostos marcados e pelas histórias que eles contam.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«Não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro, e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. O Senhor torna firmes os passos do homem e aprova os seus caminhos. Ainda que caia, não ficará prostrado, porque o Senhor o sustenta pela mão.» (Sl 36, 23 24)
Muitos idosos vivem sozinhos. Por isso, quando dão quedas, não têm ninguém que os ajude a reerguer, e permanecem no chão, suportando dores no corpo e na alma. Todavia, o facto de eles não serem capazes de se levantar é uma debilidade maior para os que não estão presentes para os ajudar a içar do que para eles próprios!
Presbítero: Senhor, concedei aos nossos irmãos mais velhos a graça de “tropeçar” na generosidade de quem pode evitar que continuem no chão da mais atroz solidão.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«Seguiam Jesus uma grande multidão de povo e umas mulheres que batiam no peito e se lamentavam por Ele. Jesus voltou-Se e disse-lhes: “Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos.”» (Lc 23, 27-28)
Os mais velhos, ainda que possam não conseguir ajudar da mesma maneira que o Cireneu, podem sempre oferecer a sua solidariedade, nem que seja com lágrimas de compaixão, como as mulheres de Jerusalém. Com estas lágrimas, ensinam a todos que a vida dos outros faz parte da nossa vida e que, portanto, todos somos responsáveis por todos.
Presbítero: Senhor, abençoai os nossos irmãos mais velhos com a aproximação de quem lhes transmita alívio.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.» (Mt 11, 28-29)
Muitas pessoas com mais idade sofrem de depressão, sentindo-se verdadeiramente em baixo, caídas. Além disto, têm de lidar com a indiferença de quem as rodeia, o que piora a situação. A indiferença é uma assassina discreta, contudo, impiedosa. E, como instrui o Papa Francisco, «não amar é o primeiro passo para matar; e não matar é o primeiro passo para amar.»
Presbítero: Senhor, sussurrai a cada um dos nossos irmãos mais velhos: «Caio contigo para que te levantes coMigo. Ânimo, não desistas!»
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«E levaram Jesus ao lugar do Gólgota, que quer dizer “lugar do Crânio”. Depois, crucificaram-No e repartiram entre si as suas vestes, tirando-as à sorte, para ver o que cabia a cada um.» (Mc 15, 22.24)
Há muitos idosos, por esse mundo fora, despojados de tudo: casa, roupa, alimento, família, amor. No entanto, ninguém lhes pode tirar o essencial, ou seja, a dignidade e a sabedoria que adquiriram ao longo da sua vida. Deste modo, vivem, não para comunicar uma determinada imagem de si mesmos, mas procurando ser fiéis à sua consciência.
Presbítero: Senhor, inspirai os governantes, os cidadãos e os próprios cristãos a dignificar e a respeitar os nossos irmãos mais velhos.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-No a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem.”» (Lc 23, 33-34)
A cruz simboliza sacrifício. Por quantos sacrifícios não passaram já as pessoas mais velhas, tendo, em acréscimo, vivido em tempos bastante complicados, a diversos níveis. Contudo, o exemplo de Cristo sofredor testemunha a transformação dessas imolações em benefícios de salvação.
Presbítero: Senhor, ajudai os nossos irmãos mais velhos a usar a sua cruz de cada dia para aprenderem mais profundamente o Evangelho e ansiarem a promessa da recompensa nele contida.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«O Sol tinha-se eclipsado e o véu do templo rasgou-se ao meio. Dando um forte grito, Jesus exclamou: “Pai, nas tuas mãos, entrego o meu espírito.” Dito isto, expirou.» (Lc 23, 45-47)
Ao morrer na cruz, Jesus matou a morte.
Muitos idosos têm medo de morrer. É verdade que nenhum de nós sabe quando chegará a sua hora, porém, é natural que o avançar da idade achegue a noção de que «não ficamos cá para semente». E esta certeza pode ser inquietante, angustiante. No entanto, Jesus entregou-Se e morreu para que ninguém morra definitivamente.
Presbítero: Senhor, aplacai os medos dos nossos irmãos mais velhos relativamente à morte do corpo, incutindo neles a esperança de conVosco entrarem na Vida Eterna.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«José de Arimateia, que era discípulo de Jesus, pediu a Pilatos que o deixasse levar o corpo de Jesus. Veio, pois, e retirou o corpo.» (Jo 19, 38)
Jesus no colo de sua Mãe é o retrato da versão mais pura do amor desinteressado. Maria é a “revolucionária” da ternura. Ela tanto acolhe lágrimas como sonhos. E traz continuamente o Céu à Terra, sob qualquer manifestação de doçura. Quanta gente recorre todos os dias ao seu colo e nele deposita os seus motivos de aflição e também a gratidão por tantas bênçãos recebidas!
Presbítero: Senhor, recordai aos nossos irmãos mais velhos que, se os seus braços já não tiverem vigor para pegar ao colo, eles podem sempre abraçar e perdoar, tal como os olhos.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!

Presbítero: Nós Vos adoramos e bendizemos, ó Jesus.
Todos: Que pela vossa santa Cruz remistes o mundo.
«José comprou um lençol, desceu o Corpo de Jesus e envolveu-O no lençol; depois, depositou-O num sepulcro escavado na rocha e rolou uma pedra para a entrada do sepulcro.» (Mc 15, 46-47)
Nos cemitérios, sobretudo em funerais, costuma ouvir-se sempre alguém dizer: «Aqui acaba tudo.» E quem o diz considera-se cristão… Ora, Cristo não ficou preso na sepultura. Ao fim de três dias, saiu vitorioso, e o sepulcro tornou-se fonte de vida e de luz!
Presbítero: Senhor, incute nos nossos irmãos mais velhos a confiança plena de que os túmulos são apenas portas para a Ressurreição.
Todos: Jesus, recebei a minha vida!
Presbítero: Irmãos, só em Cristo morto e ressuscitado encontramos a Salvação. Com Ele, o mal, o sofrimento e a morte não têm a última palavra, porque Ele nos dá a esperança e a vida. Precisamos de interpretar a cruz com a força da Fé e descobrir nela a Luz acesa no nosso Baptismo e agora reacendida pela graça infinita de acreditar na glória triunfante da Ressurreição, pela redenção no Sangue de Cristo.
Bênção final:
Presbítero: O Senhor esteja convosco.
Todos: Ele está no meio de nós!
Presbítero: Abençoe-vos Deus Todo-poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo.
Todos: Ámen!
Maria José Bijóias Mendonça é catequista na paróquia de Pêro Moniz (Cadaval). As imagens dos títulos são reproduzidas de uma Via Sacra publicada pela Ajuda à Igreja que Sofre.









