AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Ódio
Imagem do filme La Haine/O Ódio (1995), de Mathieu Kassovitz. Foto: Direitos reservados.

[Dicionário particular II]

‘e’ de expressão – Onde é que está a linha que separa direito à liberdade de expressão e o ódio?

| 24/09/2025

 

A liberdade de expressão é um dos pilares fundamentais de qualquer sociedade democrática. Através dela é garantido o direito de cada cidadão expressar livremente as suas ideias, opiniões, crenças e sentimentos. Mas, este direito não é absoluto, e é na tentativa de traçar limites que surge um dos grandes dilemas da contemporaneidade.

O que significa, hoje, defender a liberdade de expressão? Não através da lei, mas na prática, no que dizemos, no que partilhamos e no que toleramos. Como é que se distingue entre direito a falar e impulso que fere?

Hoje pode dizer-se tudo, o espaço público transformou-se num campo de batalha ideológica: o argumento perdeu para o insulto, o contraditório foi substituído pela trincheira e a liberdade de expressão passou a ser usada como escudo para justificar o inaceitável.

Figuras como Milo Yiannopoulos ou Andrew Tate são hoje celebridades pela controvérsia. Yiannopoulos afirma que a liberdade permite o direito à ofensa — e quem somos nós para contrariar alguém que fez carreira a insultar audiências inteiras? – Tate glorifica comportamentos violentos e misóginos. São casos extremos, sim, mas não são marginais, são sintomas da cultura que confunde liberdade com impunidade.

E se olhamos para os governantes e líderes políticos, o cenário é deveras preocupante. Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, afirmou que os imigrantes “envenenam o sangue do país”, recusou aceitar os resultados das eleições de 2020 e “indiretamente” incentivou a invasão do Capitólio. Mais recentemente, declarou que os EUA estão dispostos a usar o seu poder económico e militar para “proteger a liberdade de expressão no mundo” — uma afirmação feita em resposta ao julgamento de Jair Bolsonaro, no Brasil.

Bolsonaro, por sua vez, foi condenado por tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada e deterioração de património público, tendo sido multado por declarações racistas, como quando comparou o cabelo de uma pessoa negra a um “criatório de baratas”. A justiça brasileira considerou que estas palavras, disfarçadas de brincadeira, atingem a honra e a dignidade das pessoas negras.

 

Mas, quando é que a liberdade se torna censura?

Milo Yiannopoulos

Milo Yiannopoulos “afirma que a liberdade permite o direito à ofensa — e quem somos nós para contrariar alguém que fez carreira a insultar audiências inteiras ?”, conferência em Berlim, maio 2014. Foto ©Thomas Fedra / wikimedia Commons

É aqui que está o paradoxo: em nome da liberdade de expressão, assiste-se hoje à tentativa de silenciar instituições democráticas, desacreditar tribunais e deslegitimar qualquer forma de regulação. A liberdade de expressão, que protege o pluralismo, está a ser instrumentalizada para permitir discursos de ódio, desinformação e ataques à democracia, e quem tentar impor limites razoáveis é imediatamente acusado de censura.

A censura de hoje não se apresenta com carimbos ou cortes editoriais, surge disfarçada de defesa da liberdade, mas, também, como perseguição política – a bem dizer, a liberdade de expressão tornou-se, ironicamente, o argumento preferido de quem quer calar os outros.

 

E nós, traçamos o limite?

Em Portugal, a liberdade de expressão está consagrada na Constituição. Mas não é ilimitada. O Código Penal prevê sanções para quem incite ao ódio, à violência ou à discriminação. Ainda assim, quantas vezes ouvimos discursos que, embora não puníveis, corroem silenciosamente os valores democráticos? E quantas vezes confundimos liberdade com falta de filtro?

O extremar da polarização dificulta o equilíbrio. Quando tudo é interpretado como ataque, o espaço para o diálogo encolhe. E quando figuras públicas usam a sua influência para disseminar ideias que desumanizam o outro, o discurso deixa de ser livre e torna-se tóxico – em nome da liberdade podemos tudo, até sugerir cadeia ou morte, e se for feita referência a uma citação bíblica, então, é mesmo legitimo e está perfeito!

 

Então, e a linha que separa?…

Menos gritaria e mais sentido, menos ruído e mais razão!

É preciso acabar com a tendência miserável do nós contra eles: o direito à palavra implica responsabilidade e o espaço público deve ser lugar de confronto saudável, não de destruição.

É preciso educar, e educarmo-nos, para a liberdade, defendendo os seus valores com firmeza e consciência porque, quando tudo puder ser dito sem consequências, corremos o risco de legitimar o ódio em nome da liberdade.

 

Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber novidade

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This