[Segunda Leitura]

… E de novo tostões e milhões!

| 21 Mai 2022

União Europeia. Banco Central Europeu. Frankfurt

Banco Central Europeu, em Frankfurt. Foto © António Marujo.

 

Nestas últimas semanas, vai por aí uma conversa de milhões e milhões e milhões que até me deixa a cabeça à roda. Confesso a minha dificuldade em ter uma noção mais ou menos prática do que significam quantias dessas. Falar de um milhão de euros é, por exemplo, isto: se eu ganhar 3.000 euros por mês, preciso de trabalhar durante 25 anos para chegar a tanto. Vinte e cinco anos! E se só ganhar 2.000 euros, levo quase a vida toda para somar o tal milhão. E então se só ganhar 1000 euros… bem… é fazer as contas… Um milhão de euros é mesmo muito dinheiro. Sobretudo para pessoas simples, comuns, normais, gente como nós.

Mas para o sr. Berardo, pelos vistos, um milhão de euros deve ser uma ninharia. Porque ele deve cerca de 900 milhões. Ou seja: gente como nós precisava de viver novecentas vidas para acumular esse montão de notas. E como é que alguém, no espaço de meia dúzia de anos, consegue ficar a dever 900 milhões de euros?… Como?…

Só que a história não acaba aqui. O sr. Berardo diz que não deve os tais 900 milhões, porque quem lhos emprestou (um par de bancos) não lhe disse que aquilo ia desvalorizar tudo. Portanto, ele não só acha que não deve, como entende que merece ser indemnizado pelos ditos bancos, que o levaram ao engano. E pede-lhes uma indemnização. De quanto? Adivinharam: de precisamente 900 milhões de euros. (E só 100 milhões são a título de compensação por “danos morais”!) Deve ser para ficar tudo em casa: recebe aqui, paga acolá, faz acerto de contas, o dinheiro nem sequer mexe e acabam-se os processos, tudo bem, vamos à vida como se nada se tivesse passado.

Ando eu com esta enormidade de 900 milhões de euros na cabeça e pumba!, outro título de jornal:  os seis maiores bancos portugueses registaram, apenas no primeiro semestre de 2022, lucros de 617,4 milhões de euros, “mais do que duplicando os resultados quando comparados com os 303,7 milhões atingidos entre janeiro e março de 2021.” Lucros de 617 milhões de euros. Em apenas três meses de atividade. O dobro do lucro dos primeiros três meses de 2021. Tudo isto, recorde-se para quem possa estar esquecido, em tempos de alguma crise económica, de pandemia, de dificuldades várias, do nosso dinheiro a faltar no bolso, de guerra aqui à porta, etc…

Já o ano de 2021 não tinha sido nada mau para os bancos (aqueles que, quando dão prejuízo, recorrem ao erário público para não irem à falência e não fazerem colapsar o sistema financeiro, não é?…). Vamos a mais milhões: no ano passado, os cinco maiores bancos portugueses tiveram lucros de 1,5 mil milhões de euros, “um valor muito acima do ano anterior, marcado pelo arranque da pandemia em Portugal. Mil e quinhentos milhões de euros. Quase duas vezes a dívida, perdão!, a indemnização relativa ao sr. Berardo. É muito milhão mesmo. De lucro. De ganho.

Pois, mas são os bancos, já se sabe… Serão? Não, não são só os bancos. “Lucros da Galp disparam 496% no primeiro trimestre, para 155 milhões”, diz o Público. Cento e cinquenta e cinco milhões de euros de lucro só nos primeiros três meses deste ano. Mais quase 500 por cento do que tinha lucrado no primeiro trimestre do ano passado. Bom negócio também, este dos combustíveis…

E andando eu com a cabeça à roda ao ouvir falar de tantos milhões que alguns ganham, salta-me aos olhos outra conta que até dói. É assim: a Segurança Social do nosso país tem 13,3 mil milhões de euros por cobrar. Dívidas. Dinheiro que devia ter sido entregue à Segurança Social mas não foi. E em muitos casos, sabemos nós, as empresas até cobraram esse dinheiro aos trabalhadores, só que ficaram com ele. Sim, ficaram com ele. Este montante em dívida, diz o Expresso, daria para pagar um ano de pensões de velhice”. Um ano inteiro.

Mas não é só a Segurança Social que se pode queixar de dívidas. A Autoridade Tributária também. De acordo com as notícias mais recentes, no final de 2021 os portugueses (pessoas singulares e coletivas) deviam, em impostos atrasados, nada menos do que 23,3 mil milhões de euros. Vinte e três mil milhões de euros. E muito deste dinheiro se calhar nunca será recuperado: no ano que passou, os serviços fiscais apenas conseguiram ir buscar 800 milhões de euros dos montantes em dívida. Muito pouco para o tanto que tanta gente deve. E, mais uma vez, algum desse dinheiro saiu certamente dos bolsos das pessoas (retido na fonte pelos empregadores) mas ficou pelo caminho e não chegou ao destino. Foi pago (por nós) mas não recebido (pelo Estado).

Estes milhões todos dão-me volta à cabeça, como disse. Mas também a fazem doer.

Pronto, aqui fica o desabafo.

 

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