
Bucha, 2022. Rostos da guerra: Exposição de fotografias da guerra da Ucrânia 2023. © Houses of the Oireachtas, Irlanda
A guerra na Ucrânia já dura há mais de dois anos e tornou-se um assunto inevitável nas notícias e nas conversas de todos nós. Todos falamos de paz e de guerra. E vivemos apreensivos quanto a um possível alastramento do conflito, pois há mais de duas gerações que não víamos um conflito com estas dimensões na Europa. Nos jornais, TVs e redes sociais percebemos como se alinham os diversos comentadores e analistas: se insistem repetidamente na necessidade “paz”, vemos que pretendem apenas um congelamento do conflito (que inevitavelmente beneficiaria o agressor); se descrevem atrocidades cometidas pelo invasor e falam de novos equipamentos militares que serão entregues à Ucrânia, percebemos que alinham com o país invadido.
A Comunidade Bahá’í não tem uma posição oficial sobre o conflito. Mas eu desejo uma vitória militar da Ucrânia. E sei que muitos Bahá’ís defendem a legitimidade da reacção militar da Ucrânia, e gostariam de ver o fim do regime ditatorial russo. E há ainda outros Bahá’ís que preferem manter um silêncio neutral sobre os conflitos mundiais, insistindo no carácter pacifista dos ensinamentos Bahá’ís.
A minha perspectiva sobre o conflito baseia-se no bom senso e na minha aversão a regimes ditatoriais. Nas próprias Escrituras Bahá’ís podemos encontrar justificações para defender um país que é invadido por outro. E se é verdade que nas Escrituras Bahá’ís existem centenas de referências à paz, também existem muitas mais referências à justiça. E sem justiça, não existe paz. Além disso, nestas mesmas Escrituras podemos encontrar valiosas referências à legítima defesa e à guerra justa.
Numa das suas muitas palestras registadas no livro “Respostas a Algumas Perguntas”, ‘Abdu’l-Bahá afirmou que uma comunidade (ou um país) tem direito e obrigação de se defender quando é atacada:
Em resumo, o bom funcionamento do Estado depende da justiça, e não do perdão. Portanto, o que Cristo quis dizer com perdão e magnanimidade não é que se outra nação vos atacasse, queimando as vossas casas, saqueando os vossos bens, atacando as vossas esposas, filhos e familiares, e violando a vossa honra, vós devêsseis submeter-vos a esse exército tirânico, e permitir que eles pratiquem todo o tipo de iniquidade e opressão. Em vez disso, as palavras de Cristo referem-se a relacionamentos pessoais entre dois indivíduos, afirmando que se uma pessoa agride outra, a parte agredida deve perdoar. Mas o Estado deve salvaguardar os direitos do homem. (Respostas a Algumas Perguntas, 77:10)
A própria forma como as nações devem lidar com uma guerra injusta, bloqueando e isolando o agressor, e esclarecendo os povos sobre a legitimidade de uma reacção militar também são referidas por ‘Abdu’l-Bahá:
Os ideais de paz devem ser nutridos e difundidos entre os habitantes do mundo; devem ser instruídos na escola da paz, para que possam compreender plenamente os benefícios da paz e os males da guerra. Primeiro: os financiadores e banqueiros devem parar de emprestar dinheiro a qualquer governo que considere travar uma guerra injusta contra uma nação inocente. Segundo: os presidentes e gestores das empresas ferroviárias e marítimas devem abster-se de transportar munições de guerra, máquinas e armas infernais, canhões e pólvora de um país para outro. Terceiro: os soldados devem solicitar, através dos seus representantes, aos ministros da guerra, aos políticos, aos congressistas e aos generais, que exponham numa linguagem clara e inteligível as razões e as causas que os levaram à beira de tal calamidade nacional. Os soldados devem exigir isto como uma das suas prerrogativas. Devem dizer: “Demonstrem-nos que esta é uma guerra justa e então entraremos no campo de batalha; caso contrário, não daremos um passo.” (Star of the West, vol. 5, no. 8)
É óbvio que neste conflito há um país agressor e um país agredido; há um país que violou o direito internacional, tentando alterar as fronteiras reconhecidas internacionalmente, e alimentando o desejo de destruir um estado vizinho. É o território ucraniano que tem sido pilhado e destruído pelo invasor russo; são as mulheres ucranianas que são violadas pelos militares russos; são as crianças ucranianas que são raptadas e levadas para a Rússia.
A minha fé e a minha consciência impedem-me de ficar calado perante estes crimes. Se o fizesse, além de estar a pactuar com o agressor, também estaria a reduzir a minha fé a meras utopias abstractas, e a manter-me alheado de um mundo que desejo mais justo, mais equilibrado e mais pacífico. É óbvio que precisamos de paz. Mas defender uma paz que seja uma mera ausência de guerra, é aceitar e pactuar com as enormes injustiças provocadas pelo conflito.
A guerra dura há muito tempo e assumiu uma intensidade que pensávamos não voltaria a ocorrer na Europa. Não sabemos quanto tempo ainda vai durar. Mas percebemos que pode vir a ser um daqueles conflitos capazes de alterar a ordem internacional. Por esse motivo, mais do que seguir e comentar a guerra, devemos começar a pensar no mundo que queremos ter quando a guerra terminar.
Marco Oliveira é membro da Comunidade Bahá’í de Portugal.










