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E depois do Tempo da Criação?…

| 15/10/2022

Michelangelo, A Criação de Adão, uma cena do teto da Capela Sistina (c. 1508–1512), Domínio público, via Wikimedia Commons.

Michelangelo, A Criação de Adão, uma cena do teto da Capela Sistina (c. 1508–1512), Domínio público, via Wikimedia Commons.

 

A cada ano que passa, tornam-se mais prementes os alertas neste mês focado na criação. Infelizmente, é mesmo preciso desinquietar as pessoas: daqui a alguns anos, as crianças de hoje poderão perguntar porque deixámos degradarem-se tanto as condições de vida no planeta. 

São quase cinco semanas, desde o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, a 1 de setembro, até 4 de outubro, festa de S. Francisco de Assis. Este ano, o tema proposto foi “Escuta a voz da criação”, porque não é demais insistir que é urgente ouvir a Terra, que geme e se queixa em tantos fenómenos extremos, e o choro e o desespero de populações que perdem tudo ou deixam de ter condições de sobrevivência porque a sua terra se tornou inóspita. 

Com o Tempo da Criação procura-se manter viva e fecunda a mensagem da encíclica Laudato Si’, uma carta que o Papa Francisco dirigiu a todas as pessoas de boa vontade. Esse texto, publicado em 2015 e tão actual, desenvolve a ideia de uma ecologia integral (LS 137-138). Está tudo interligado (LS 91) e as questões ambientais não podem ser dissociadas das sociais e económicas, nem das espirituais. Francisco propõe-nos a conversão ecológica, que “comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que nos rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus” (LS 217). E aquela, acrescenta, “para criar um dinamismo de mudança duradoura, é também uma conversão comunitária” (LS 219).

Este ano, na mensagem para o dia de oração pela criação, o Papa relembrou a necessidade de uma espiritualidade ecológica (LS 216) que nos leve a uma relação diferente com os outros e com a criação: “Trata-se de “converter” os modelos de consumo e produção, bem como os estilos de vida, numa direcção mais respeitadora da criação e do progresso humano integral de todos os povos presentes e futuros, um progresso fundado na responsabilidade, na prudência/precaução, na solidariedade e atenção aos pobres e às gerações futuras.”

Hoje, de facto, a crise climática, a guerra e a crise económica parecem nuvens negras encasteladas, que desestabilizam o nosso modo de vida, mesmo quando não nos atingem directamente, e nos deixam pelo menos apreensivos. Mas também sacudiu muitas das pessoas que ainda andavam “distraídas”. O sistema terrestre (ver artigo de Francisco Ferreira sobre “A emergência da mudança pela sustentabilidade”) que reúne as condições que possibilitam a nossa existência, ressente-se de múltiplos desequilíbrios que a espécie humana lhe tem causado e a sua sustentabilidade não está garantida. 

Não é possível continuar a proceder como se não houvesse limites para o progresso, nem para os recursos de que se pode dispor. Tal irresponsabilidade está aliada muitas vezes a uma ganância desmedida, com a agravante de que aumentam o fosso das desigualdades, em que uns, poucos, se apoderam dos recursos que fazem falta a populações inteiras para conseguirem aceder a condições de vida condizentes com a dignidade humana (LS, cap. III). 

Muito se tem dito sobre todas estas questões, mas é preciso ser consequente. É mais que tempo de agir. Um dos primeiros passos – aliás, indispensável – é refrear o consumismo que gera tanto desperdício; são antídotos eficazes aprender a saborear a sobriedade, dispensando o supérfluo, e descobrir a alegria de partilhar, mas não só o que não queremos e, sim, aquilo de que o destinatário precisa ou deseja. 

Temos pela frente enormes desafios e a situação é intimidante, mas voltemos à Laudato Si’: “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projecto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum” (LS 13). 

“Cuidar” é tarefa de todos, começando por aprender um outro modo de habitar a Terra e viver a amizade social, na linha da Fratelli Tutti.

Há que aprofundar a teologia da criação e uma espiritualidade ecológica de conversão individual e comunitária. Falta muito para globalizar a solidariedade, para fomentarmos relações de proximidade, alargando os nossos círculos de modo a incluir as margens e as periferias, até que ninguém fique de fora. 

Existem algumas propostas que abrem caminhos para não ficarmos a olhar a vida da varanda, para nos tornarmos protagonistas da mudança, como desafiou o Papa na Jornada Mundial da Juventude de 2013, no Rio de Janeiro:

Deixo ainda uma sugestão: o filme A Carta, um documentário com o Papa Francisco estreado no dia 4 de outubro, a concluir o Tempo da Criação 2022. Dá que pensar. 

Rita Veiga é membro da Comissão de Coordenação da REDE Cuidar da Casa Comum. Contacto: rita.veiga7@gmail.com

 

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