Encontro no Vaticano

“É fácil” António Costa converter-se à palavra do Papa sobre paz, migrações, clima e desigualdades

| 28 Set 2023

António Costa, Papa Francisco

O primeiro-ministro português, António Costa, mostra um álbum com duas fotos emblemáticas da JMJ, que ofereceu ao Papa Francisco. Foto © Vatican Media

 

O primeiro-ministro, António Costa, afirmou que “é fácil” converter-se “à palavra do Papa” Francisco, no que diz respeito a temas como as migrações, as alterações climáticas ou a necessidade de se encontrar a paz e combater as desigualdades.

Costa falava aos jornalistas ao início da tarde desta quinta-feira, na embaixada de Portugal junto da Santa Sé, em Roma, depois da audiência que teve no Palácio Apostólico do Vaticano, onde foi agradecer a realização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Portugal.

“O Papa Francisco – creio que não direi nenhuma especial novidade – é uma pessoa particularmente cativante, particularmente empática, que tem uma mensagem particularmente clara”, disse António Costa. “Pelo menos para mim, é bastante fácil encontrar-me com a sua palavra, com a sua mensagem. Portanto, é sempre uma conversa muito enriquecedora”, afirmou, admitindo ter saído da audiência “mais rico espiritualmente”.

A conversa a sós, prevista para cerca de 20-30 minutos, acabou por durar 45, e centrou-se naqueles quatro temas. Costa começou, entretanto, por agradecer ao Papa o facto de a JMJ se ter realizado em Portugal, entre 1 e 6 de Agosto, com a participação de mais de um milhão de jovens. “Foi um trabalho extraordinário que, ao longo destes cinco anos, fomos desenvolvendo, porque aquela semana requereu muito trabalho e foi um trabalho muito intenso entre o Governo e a Santa Sé, com a Igreja Portuguesa e com todas as instituições, com as autarquias que trabalharam muito para que fosse possível esta Jornada.”

O primeiro-ministro sublinhou também que uma das chaves do sucesso de Francisco tem sido a de “procurar fazer a pedagogia dos valores, mais do que o proselitismo da religião”. Com isso, o Papa “tem atingido mais pessoas, tem mobilizado mais pessoas e, quando se dirige a todos, tem, aliás, insistido que todos implica também aqueles que não são crentes”. E acrescentou que tem sentido “uma vontade grande do Papa Francisco de aprofundar a reflexão sobre aquilo que a Igreja tem de fazer para continuar cada vez mais conectada com as pessoas”.

Costa confidenciou ter dito ao Papa que, não sendo crente, “há uma coisa sobre a qual” não tem dúvidas: “O que diferencia uma sociedade (…) é a capacidade de partilhar valores e esses valores são os mais diversos. Nas nossas sociedades, os valores do cristianismo são hoje comuns e não [são] só valores dos crentes”.

Temas como os que os dois líderes conversaram são “centrais” na vida das sociedades e é muito importante serem vistos “com grande sentido de humanidade”, de modo a não deixar “ninguém para trás”, acrescentou, referindo-se ao novo documento do Papa sobre as alterações climáticas que será publicado na próxima semana e às afirmações “muito importantes sobre migrações na deslocação” de Francisco a Marselha, no último fim-de-semana.

Por tudo isso também é “muito importante que instituições como a Igreja tenham força, tenham vitalidade, tenham energia para que esses valores se frutifiquem e ajudem a fortalecer o sentido de comunidade”, acrescentou o primeiro-ministro.

 

Migrantes são necessários à Europa

António Costa, Vaticano

O primeiro-ministro, António Costa, na Embaixada de Portugal junto da Santa Sé, a falar aos jornalistas: as migrações são uma “realidade positiva”. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Um dos temas sobre os quais António Costa considera que deve haver mais acção comum, e acerca do qual também falou com o Papa, é o das migrações. Neste âmbito, o chefe do Governo destaca a “política estável” que existe em Portugal há muitos anos, “que assenta no facto de as migrações serem um fenómeno natural da vida humana, de que todos são produtos de migração e que esta vai continuar”.

Acerca do papel da União Europeia e da protecção da sua fronteira comum, acrescentou que ela tem o dever “de acolher aqueles que buscam na Europa asilo, segurança para as suas vidas, e também fazer uma gestão responsável, ordenada, positiva, daquilo que são os fluxos migratórios, aliás, para satisfazer muitas das necessidades das sociedades europeias”.

Por isso, é necessário olhar para as migrações “não como uma realidade nefasta”, mas aproveitando-a “de forma positiva”. O que significa desde logo criar “condições para que nos países de origem exista paz, respeito pelos direitos humanos e condições para o desenvolvimento”.

Ao mesmo tempo, o líder do Governo português considera fundamental “existirem canais legais de migração, porque é a forma mais eficaz de combater aquilo que é intolerável, que é o tráfico de seres humanos”, garantindo que as pessoas emigrem “em segurança”.

Por causa das alterações climáticas será “cada vez mais difícil em muitas regiões do mundo a vida humana existir”. Por isso o primeiro-ministro considera que essa será uma razão para “cada vez mais gente” emigrar. Apesar de muitas pessoas dizerem que não querem “mais migrantes”, essas são as mesmas “que depois, diariamente, recorrem aos migrantes para satisfazer necessidades básicas da sua vida”, criticou Costa, acrescentando não conhecer “uma única sociedade europeia onde a vida pudesse decorrer com normalidade” sem o trabalho dos imigrantes, qualificados ou não qualificados.

 

“Convergência total” na vontade de paz

António Costa, Papa Francisco

O primeiro-ministro português, António Costa, saudando o Papa Francisco, no Vaticano: “convergência” sobre a Ucrânia, mesmo se por caminhos diferentes. Foto © Vatican Media

 

Sobre a guerra provocada pela invasão russa da Ucrânia, o primeiro-ministro considerou que “todos convergimos” na necessidade de haver paz, mas cada país ou instituição procura esse objectivo “através dos seus próprios caminhos”. Neste capítulo, a mensagem do Papa e da Santa Sé é “muito importante”, incluindo com “a mediação que tem desenvolvido, agora para a entrega das crianças ucranianas que estavam retidas na Rússia”, e no “papel importante que teve no acordo de exportação de cereais”.

“Quanto àquilo que é essencial, que é a vontade de rapidamente chegarmos à paz e a uma paz que seja justa e duradoura, que preserve e defenda o Direito Internacional, essa é uma convergência total que eu sinto que existe entre a Santa Sé e a posição da União Europeia”, acrescentou, distinguindo os diferentes papéis que os Estados e a Santa Sé podem desempenhar.

Acerca dos novos cardeais, entre os quais se inclui o português Américo Aguiar (o segundo mais jovem do Colégio Cardinalício) e que serão formalmente nomeados no próximo sábado, António Costa afirmou que o gesto é um “sinal importante” que o Papa dá no sentido da “renovação e rejuvenescimento” da Igreja. Ao mesmo, acrescentou que o facto de Portugal passar a ter seis cardeais (quatro dos quais eleitores num eventual conclave) é “um motivo de grande orgulho”.

Os quatro cardeais com capacidade de eleger um Papa são o patriarca emérito de Lisboa, Manuel Clemente (75 anos), o bispo emérito de Leiria-Fátima, António Marto (76), o prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, Tolentino Mendonça (57) e, agora, o designado bispo de Setúbal, Américo Aguiar (49). José Saraiva Martins e Manuel Monteiro de Castro também integram o Colégio Cardinalício, mas, por terem mais de 80 anos, já não podem votar num futuro conclave.

No Vaticano, António Costa teve também uma audiência com o secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, na qual esteve acompanhado dos restantes membros da delegação portuguesa: o ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, a ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes (que teve a tutela da organização da JMJ), o embaixador de Portugal junto da Santa Sé, Domingos Fezas Vital, o assessor diplomático do primeiro-ministro, Fernando Morgado, e a ministra conselheira junto desta embaixada, Lúcia Portugal Núncio.

 

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