“E isso serve para quê?” – Humanidades em tempo de pandemia

| 14 Jun 2021

“O estudo do Homem, da sua História, da sua evolução e das suas criações intelectuais e artísticas será sempre importante para compreendermos o nosso lugar no mundo”. Pintura: Discurso de Sócrates (1867), do pintor belga Louis Joseph Lebrun / Wikimedia Commons

 

O título que escolhi para este texto evoca a questão que talvez seja a mais comum aos ouvidos de quem estuda e investiga na área das Humanidades. Numa época pandémica, em que se exige tanto dos profissionais da saúde, da economia, da segurança, da estatística, e de tantos outros, as Humanidades ficaram aparentemente ainda mais em segundo plano, já que, pela essência dos objetos com que lidam, não foram chamadas para a linha da frente do combate anti-covid-19. Eu própria senti isso na minha vida profissional: enquanto fui mantendo a minha atividade letiva e de gestão universitária (é certo que com um enorme esforço de adaptação a novos modelos, rotinas e práticas), via com angústia e gratidão o esforço e o sacrifício de médicos, enfermeiros, cuidadores e todos aqueles que lutavam para garantir o bem maior que temos: a vida.

Cedo me apercebi, porém, que as Humanidades iriam ter também um papel determinante nesta conjuntura, um papel muito mais relevante do que à partida era percetível. É certo que a urgência é muita e há que combater no imediato a ameaça viral que paira sobre o mundo. No entanto, a longo prazo – e agora que já levamos quase um ano e meio desta situação ameaçadora e anómala –, as Humanidades foram lentamente mostrando o quanto podem contribuir para obviar à realidade em que temos vivido.

O estudo do Homem, da sua História, da sua evolução e das suas criações intelectuais e artísticas será sempre importante para compreendermos o nosso lugar no mundo e para termos uma palavra a dizer na construção do nosso futuro. Como afirma Martha Nussbaum em Nor for profit. Why Democracy Needs Humanities, são as Humanidades que criam “cidadãos completos que conseguem pensar por si próprios, criticar a tradição e perceber o significado do sofrimento e das conquistas das outras pessoas” (minha tradução).

São as Humanidades que garantem que não perdemos o lado humano, que continuamos juntos, partilhando os nossos medos, as nossas angústias, e também as nossas alegrias e os nossos sucessos. São elas que nos fazem pensar criticamente sobre o turbilhão de acontecimentos que nos assola diariamente, interpretar as nossas emoções, refletir sobre a nossa identidade, melhorar a comunicação com o outro, dar asas à criatividade e à imaginação, idealizar utopias de um mundo melhor, mais justo, mais inclusivo, mais feliz. Elas trazem-nos, afinal, uma mensagem de esperança que nos ajuda a continuar.

 

Ana Cristina Correia Gil é professora na Universidade dos Açores (CHAM e FCSH); ana.cc.gil@uac.pt

 

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“Seria grande caridade tratar do caso com urgência”

Cartas de Luiza Andaluz em livro

“Seria grande caridade tratar do caso com urgência” novidade

Preocupações com um homem que estava preso, com o funcionamento de uma oficina de costura para raparigas que não tinham trabalho, com a comida para uma casa de meninas órfãs. E também o relato pessoal de como sentiu nascer-lhe a vocação. Em várias cartas, escritas entre 1905 e 1971 e agora publicadas, Luiza Andaluz, fundadora das Servas de Nossa Senhora de Fátima, dá conta das preocupações sociais que a nortearam ao longo do seu trabalho e na definição do carisma da sua congregação.

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