“E juntou-se aos seus antepassados…”

| 6 Nov 21

Enfermo. Moribundo. Morte

“Ser próximo de quem se vai despedindo traduz-se num estímulo para continuar com mais ardor a verdadeira missão no mundo de quem nos passa o testemunho, por mais jovem ou desprotegido que seja.” Foto: Vitral da Igreja Alemã (Santa Gertrudes), Estocolmo, Suécia. © José Centeio

 

Assim termina a história de Abraão no Livro do Génesis, quando ficou “repleto de dias”. E como ele, muitos mais caminharam serenamente para se juntarem aos antepassados, rodeados de carinho.

Esta expressão tão doce e familiar suaviza a morte como separação e fortalece a fé na reunião. É um momento ou um processo em que sobressai o valor fundamental da união. E não apenas com as pessoas que acompanham esse custoso momento ou com as mais familiares do passado. Faz-nos cair na conta de que cada um de nós é um elo imprescindível da infindável corrente que forma a Humanidade. Sentimo-nos ligados a toda a gente do passado, do presente e do futuro – todos reflectem as nossas alegrias e angústias, o bem e o mal de que somos capazes. Todos formamos uma comunhão de profundos sentimentos, de ideais, sucessos e insucessos.

E lança-nos um aviso: somos responsáveis por desenvolver os dons e facilidades que possuímos, para bem de toda a Humanidade. Certos de que nenhum elo da Humanidade é inútil: com todos aprendemos e todos nos despertam contra a tentação da imobilidade ou indiferença. Com um carinho especial por quem dá o primeiro choro e o primeiro sorriso no nosso mundo e por quem dele se vai despedindo.

Ser próximo de quem se vai despedindo traduz-se num estímulo para continuar com mais ardor a verdadeira missão no mundo de quem nos passa o testemunho, por mais jovem ou desprotegido que seja. As nossas festas e diversões, estudo ou trabalho duro, manifestações de amizade e amor… tudo pode ser feito de maneira a tornar melhor o mundo que nos foi entregue. E deixando boas dicas para quem nos sucederá.

Na verdade, cada um de nós é fruto de um passado e do momento que passa; mas é também a semente para frutos cada vez melhores.

Se não alimentamos o prazer de boas sementeiras no futuro, não conseguimos enfrentar e dar sentido ao sofrimento e às catástrofes que nos afligem. Abandonando os outros, ficamos sozinhos e indefesos perante a morte. Ser um elo da Humanidade é fortalecer para sempre a grande corrente de vida que forma a aventura humana. O orgulho de ser humano traduz-se no “humanismo”, mais notável quando nos unimos em tempos de calamidade, mas que tem de estar sempre presente na “política” de todos os dias, pois todos somos responsáveis por garantir a melhor forma de viver.

A sociedade humana baseia-se na comunicação. Que seja sincera e verdadeira. Que procure compreender os problemas dos outros, com respeito e cuidado e sem preconceitos contra a ternura. Como se os problemas fossem nossos (e também são). É isto a compaixão. É isto a comunhão, conceito afim a comunicação. É isto a proximidade. Conceitos a que o Papa Francisco tem dado importância especial, na “largada” de todos os que se unem para nova e exigente caminhada.

Se a técnica promove a comunicação, não pode ser para nos destruirmos uns aos outros mas para aumentar o conhecimento, saborear mais a beleza da caminhada e sentir a frescura da força que nos move. E darmos conta da dignidade extrema da Humanidade que, ao longo do tempo e do espaço, penetra cada vez mais profundamente no mistério da vida e no mistério de Alguém que chamamos Deus, que é o mais perfeito Pai e Mãe tanto na mais escura noite como no mais brilhante dia. E que nos prepara a festa da Paz e Alegria em que todos nos juntaremos na Casa Comum da Humanidade como única Família.

 

Manuel Alte da Veiga é professor aposentado do ensino universitário.

 

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