Foi por se “sentir chamado” a seguir na esteira do II Concílio do Vaticano e a abordar a questão social que o cardeal Robert Prevost escolheu o nome de Leão para o exercício do seu pontificado. A principal razão para essa opção, disse ele na manhã deste sábado, 10, num encontro com os cardeais, “é porque o Papa Leão XIII, com a histórica encíclica Rerum novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial; e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial”, explicou.
Esta realidade, acrescentou o Papa Leão no seu discurso, traz “novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”. Não será de estranhar, por isso, que a primeira encíclica do novo Papa seja dedicada às questões sociais, a partir destes temas na sua relação com a revolução tecnológica.
Ou seja, na escolha do nome não terá pesado, como muitos analistas tinham sugerido no primeiro momento, a evocação do companheiro mais próximo de Francisco de Assis, frei Leão [ver outro texto no 7MARGENS]. Nem tão pouco o de Leão Magno, Papa entre 440 e 461, que tentou convencer Átila, o Huno, a não invadir a península itálica. Proclamado depois como “doutor da Igreja”, publicou textos fundamentais para resolver querelas no Concílio de Calcedónia, nomeadamente a afirmação de que Cristo é uma pessoa com duas naturezas, divina e humana.
Perante os 133 cardeais eleitores que participaram no conclave e vários outros não-eleitores, Leão XIV fez questão de recordar de novo o legado do seu antecessor: “O Papa Francisco recordou e actualizou magistralmente” os conteúdos do II Concílio Vaticano na exortação apostólica Evangelii gaudium, de 2013, afirmou, sublinhando depois alguns dos seus pontos “fundamentais: o regresso ao primado de Cristo no anúncio (cf. nº. 11); a conversão missionária de toda a comunidade cristã (cf. nº. 9); o crescimento na colegialidade e na sinodalidade (cf. nº. 33); a atenção ao sensus fidei (cf. nn. 119-120), especialmente nas suas formas mais próprias e inclusivas, como a piedade popular (cf. nº. 123); o cuidado amoroso com os marginalizados e os excluídos (cf. nº. 53); o diálogo corajoso e confiante com o mundo contemporâneo nas suas várias componentes e realidades (cf. nº. 84; Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, 1-2).
Estes são “princípios do Evangelho” que sempre inspiraram a Igreja, disse o Papa, “valores através dos quais o rosto misericordioso” de Deus se revelou e continua a revelar-se como “última esperança de quem procura com sinceridade a verdade, a justiça, a paz e a fraternidade”.
Depois do discurso, o novo Papa e os cardeais trocaram impressões sobre “alguns temas e propostas que imergiram nas intervenções” das reuniões preparatórias do conclave, diz o comunicado da Sala de Imprensa. Foi uma forma, disse Leão aos cardeais, de o novo Papa “poder ouvir quais os conselhos, sugestões, propostas, coisas muito concretas, das quais já se falou um pouco nos dias que antecederam o Conclave”.
Não é de somenos esta iniciativa, já que uma das críticas que se fazia ao Papa Francisco era que ele raramente reuniu o colégio de cardeais. O pedido para que eles fossem mais ouvidos pelo bispo de Roma foi tema de intervenções também nas congregações gerais e o agora eleito Papa Leão terá querido começar já a escutar essas opiniões, elogiada que é a sua capacidade de escuta.
À escuta dos cardeais e uma rosa para Francisco

Os cardeais com o novo Papa na Sala do Sínodo: um “grande conforto”. Foto © Vatican Media.
O facto de poder contar com os seus colaboradores mais próximos “é de grande conforto” para o novo Papa, que confessou ter aceitado “um fardo claramente muito superior” às suas forças, “assim como o seria para qualquer outra pessoa”. Aliás, esse foi o pretexto para agradecer ao decano do Colégio Cardinalício, o cardeal italiano Giovanni Battista Re dizendo que ele merecia pelo menos um aplauso por ter assegurado estas duas semanas e meia de transição, presidindo a missa do funeral do Papa Francisco e a do início do conclave; bem como Kevin Farrell, dos Estados Unidos, “pelo precioso e árduo papel que desempenhou durante o tempo da Sede Vacante e da convocação do conclave”.
Leão XIV evocou ainda diversas vezes o seu antecessor, que morreu dia 21 de Abril, de quem destacou o exemplo, “com o seu estilo de total dedicação ao serviço e sobriedade essencial na vida, de abandono em Deus no tempo da missão e de serena confiança no momento da partida para a Casa do Pai”. Estas últimas semanas foram dolorosas “pela perda do Papa Francisco e exigentes pela responsabilidade” conjunta, o que permitiu “ver a beleza e sentir a força desta imensa comunidade [da Igreja], que com tanto carinho e devoção saudou e chorou o seu Pastor, acompanhando-o com a fé e a oração no momento do seu encontro definitivo com o Senhor”.
No final da tarde, o Vaticano divulgou a informação de que o Papa Leão se deslocou em visita privada ao santuário da Mãe do Bom Conselho, em Genazzano, 60 quilómetros a leste de Roma. No santuário, gerido pelos religiosos da Ordem de Santo Agostinho, de onde provém o novo Papa, saudou os religiosos e as restantes pessoas que ali estavam. No regresso ao Vaticano, o novo Papa parou na Basílica de Santa Maria Maior, onde se encontra o túmulo do Papa Francisco, tendo colocado ali uma rosa branca e ajoelhando-se alguns minutos em oração.










