
“O 25 de Abril é, neste seu cinquentenário, o palco perfeito para a luta da memória que dele queremos que fique para sempre impressa.” Foto © Madeleine Steinbach
O 25 de Abril anda escondido por detrás dos balanços que dele fazemos. Daquilo que depois dele conseguimos concretizar e do que não fomos capazes de realizar. Incluindo o que ainda hoje continua por resolver na nossa sociedade ou nela emerge para nossa desgraça.
Os balanços que ouvimos, lemos e fazemos lançam quase sempre uma subtil cortina sobre as nossas incapacidades coletivas e atribuem ao 25 de Abril tudo quanto delas, afinal, decorre. Não fomos nós que não soubemos desenvolver este país depois de 1974, foi o 25 de Abril que não cumpriu o terceiro “D”. As dificuldades da descolonização também não radicam na guerra que durante 13 longos anos deixámos correr, mas no modo como o 25 de Abril enunciou o fim do conflito. E assim por diante…
O 25 de Abril é, neste seu cinquentenário, o palco perfeito para a luta da memória que dele queremos que fique para sempre impressa, de modo a limitar o que podemos coletivamente pensar sobre o presente e demarcar com rigor os futuros possíveis. E nessa luta pela memória sabemos que maior peso têm os vencedores de hoje, mesmo que tenham sido os vencidos de 1974.
A História nunca é feita pelos seus protagonistas, nem pela memória que eles retêm dos factos de que foram os atores principais. O tempo encarrega-se de rapidamente transformar os protagonistas em meros contadores de histórias. A História, essa, é escrita por mãos de um tempo distanciado dos factos – “o recuo necessário” – e inevitavelmente, queira-se, ou não, disso se tenha maior, ou menor, consciência, sempre entrelaçada com os problemas e questões de hoje. Sempre tão debruçada sobre o passado quanto sobre o tema que vigorosamente rejeita ser o seu: o futuro.
Uma chaimite, Salgueiro Maia sozinho entre carros de combate, o anónimo soldado em cima de um transporte militar de pernas e braços abertos com a G3 erguida por cima da cabeça, as espingardas de cravos floridas e outros símbolos da revolução (alguns vivos e exigindo presença sempre que se fala de Abril) tornam-se ícones que tanto recordam o dia libertador como se autonomizam dele, tornando-se potenciais obstáculos para dele nos aproximarmos. Sem essa linguagem visual quase não conseguiríamos narrar as horas decisivas. Mas, tal como o tonto que se fixa na ponta do dedo do sábio que lhe aponta a lua, também os sentimentos que desperta em nós essa iconografia nos podem distrair do objeto que pretendem prefigurar.
Balanços, memória, ícones e muito mais que sempre teremos de fazer, refazer e trabalhar quanto ao significado do 25 de Abril geram um movimento contraditório de aproximação e afastamento do sentido primeiro e último dessa madrugada generosa, límpida e simples que nos devolveu a liberdade e a cada um de nós entregou uma folha de papel em branco e um lápis para nele escrevermos o futuro que então éramos capazes de desejar e dizer.
Hoje, neste dia 50 anos passados sobre o primeiro, as palavras devem ser escassas para dar lugar à festa. Para enchermos as ruas com a alegria desse sonho de libertação, concretizado como jamais alguém o poderia ter sonhado. Hoje é o dia do fim de todos os medos, o dia do júbilo em que todas as promessas se abrem para nós, o dia inesperado em que sem prévia convocatória nos unimos e nos espantámos com a revelação do mesmo olhar sobre o futuro.
É o 25 de Abril e isso nos basta!










