E o Seminário, terá responsabilidade?

| 1 Mar 2024

Grafito nas paredes do Seminário Conciliar de São Pedro e São Paulo, de Braga. Foto Eduardo Jorge Madureira

 

Atravessei a década de 80 entre os muros de seminários. Três, ao todo. Dar-me-á esta circunstância a legitimidade para falar abertamente do meu susto? O meu susto é este: conheço pelo menos dois políticos portugueses (que os leitores facilmente identificarão) formados em seminários, cuja opção política está do lado daqueles que, na História, pensaram o povo como um rebanho de gente acéfala e incapaz, a necessitar de ser comandado por um pastor, não importa com que meios.

Este pragmatismo é crucial para o que aqui me traz, mas não falemos já dele.

Nunca o agir político desses a que me refiro — ainda que invocando, num discurso público, o “Santo Nome de Cristo” —, se mostrou conforme à Boa Notícia daquele que disse que é possível sermos livres e irmãos (irmãos, isto é, iguais; e “todos, todos, todos”, não apenas “patriotas” ou “portugueses de bem”). Esse que, em nome da lei da liberdade de consciência foi condenado pelos poderes religiosos e políticos do seu tempo, confirmou em actos que é possível uma fraternidade que esteja ao serviço da liberdade de todos, em lugar cultivar o “espírito de rebanho” dos seus seguidores e de condenar aqueles que não pertencem a esse rebanho.

Será mera coincidência ter frequentado o seminário, reclamando-se cristão, quem, assim, tão crassamente perverte uma mensagem de igualdade e de liberdade? Não creio. Sobretudo quando nos concentramos nos métodos usados na sua prática política. São esses tão claramente decalcados no pior que a instituição seminário pode dar como apetrecho perverso dos seus formandos para poder ser coincidência. Realço o pode dar para não se incorrer na ilação de que estou a afirmar que necessariamente dá. Não dá sempre, mas potencialmente dá. E não só a futuros políticos, entenda-se…

Nos anos em que frequentei o seminário isto não era ainda muito claro. Mas, assim que saí e visitei algumas vezes ex-colegas nos seus quartos, no Seminário Maior, e os vi a beber demasiado, com a barba grande, desencantados com as absurdas ordens superiores que, no humor amargo deles, faziam recuar a vida entre muros à Contra-Reforma tridentina, comecei a aperceber-me que o seminário pode ser uma excelente escola do cinismo. “O que importa é chegar onde queremos – diziam-me –, ser padres, o resto é para ser atravessado, engolindo mais ou menos sapos…”. Praticamente todos chegaram a padres, praticamente todos o deixaram de ser. E alguns, soube-o de viva-voz, porque não quiseram continuar a pactuar com um cinismo que, afinal, verificavam, não existia apenas entre muros. Refiro-me ao cinismo estrutural de muitos dos que dirigem a Igreja, ao modo como, por exemplo, é tratada a homossexualidade de alguns padres, são relativizados os abusos de menores ou escondidos os casos de padres com filhos.

Tentarei explicar como este cinismo se pode entranhar, de facto, num corpo, e com repercussões graves, sobretudo se esse corpo se torna corpo de poder.

Primeiro, antes de tudo, há a sacralidade do estatuto do futuro padre ou do padre propriamente dito. A sacralidade separa. E também distorce a percepção do mundo de um modo muito especial. Dizia-se, no seminário, “cá dentro” e “lá fora”, como se fossem dois os mundos: o mundo dos escolhidos e o mundo da messe; o mundo dos que guiam e o mundo dos que são guiados; o dos consagrados e o dos leigos. «Saídos para o mundo», aos recém-consagrados parecer-lhes-á natural continuar a pensar assim. Tanto mais que muitos são os leigos que corroboram a narrativa; como se um leigo, no mundo de conhecimento acessível que é o nosso e sem uma iniciação especial, não fosse capaz de analisar, pensar e decidir tão bem ou melhor do que um padre…

Intolerância

Cartoon do ativista, caricaturista e ilustrador brasileiro Carlos Latuff.

Mas além do sentimento de sacralidade, que leva o seminarista a auto-percepcionar-se como um eleito, um próximo de Deus e sobretudo íntimo da Sua Vontade, como nenhum outro, há todo um léxico a suportar esta visão distorcida do mundo e da fraternidade. Um dos conceitos frequentes em retiros e conversas é o de carisma. Carisma é aí tomado como um serviço. Mas o servidor sai da conversa reforçado como o prato mais importante da balança, aquele que eleva (entusiasma) os demais com o seu… carisma. Não por acaso ser carismático é apontado como um dos maiores atributos de ambos os políticos a que me refiro. Claro que o entusiasmo não é, no seu caso, elevar todos «os caídos» a um Deus-Amor, que abraçaria a todos numa comunidade de frágeis. Para o carismático, não se trata, de modo algum, de ligar diferenças na confiança, antes de soldar semelhanças no medo. Colocando abstracções como Pátria e Família acima da noção de humano comum esse, o carismático, adopta uma noção muito particular de humano, na qual uns são incluídos e da qual outros são excluídos. Escudando-se contra as infinitas diferenças de cada pessoa, esquecendo o mistério que é cada uma, esquematiza e reconhece apenas “condutas de bem” e “condutas desviadas”. Traduzindo o português de seminário arcaico para a gíria do político «moderno»: os justos são agora “portugueses de bem”, “trabalhadores honestos” e os pecadores, “vagabundos, gatunos e bandidos”. Poderia aprender com a História, esse que é carismático e “diz as verdades”, ir um bocadinho mais fundo, e dizer: há “raças puras” e “raças impuras”. De resto, o conceito de pureza é o que preside a expressões como “Portugal precisa de uma limpeza”. Limpeza de quê? Da corrupção? Das injustiças? No fim, acaba-se a falar de indesejados, de pessoas que merecem ódio e cruzes vermelhas sobre a efígie. Numa palavra: pessoas que merecem ser eliminadas. Isso é dito expressamente? Não. Mas o princípio da pureza tem inevitavelmente implícito isso mesmo: a eliminação do que é impuro e não faz parte do que somos. Aliás, a Identidade (nacional, religiosa, de “raça” ou outra) é a grande ideia genocida da História. Sempre se eliminou o diferente em nome da identidade…

Há ainda outros conceitos que fazem parte desta constelação e que circulam abundantemente nos seminários: missão, obediência, consciência são alguns deles. Duvidará alguém que aos políticos em causa os une o “espírito de missão”? Pelo menos ao nível do discurso é assim que se apresentam: “tenho uma missão: salvar Portugal”, dizia o antigo; “tenho uma missão: limpar Portugal”, diz o novo. Na verdade, sabem que tal missão é impossível, mas a si mesmos se convencem ou, acreditando no poder da obediência, se entregam a essa ficção. Eles aprenderam bem como é que a obediência funciona. Obediência é uma das grandes virtudes do consagrado… e mais ainda do fiel; e também outra das fontes das grandes violências da História. O que teriam sido Estaline, Mao-Tsé Tung, Pol-Pot, Pinochet, Mussolini ou Hitler, sem quem lhes obedecesse? Ou sem os oportunistas que se colaram à Causa do líder e o apoiaram…

Hora de invocar o pragmatismo deixado para trás, neste texto. O poder que abusa da ignorância e usa a insatisfação social para crescer vive, em grande parte, do oportunismo. Basta ver como, hoje, os militantes de alguns partidos imigram para aquele que está em ascensão. Mas também isso se aprende num seminário. É provável que o próprio líder desse partido seja o Grande Oportunista. Os jogos de poder da matilha, as simpatias e as antipatias e como elas nos podem servir no futuro, o “contar as armas”, tudo isso é sobejamente conhecido e exercitado nas cúrias religiosas. Eles, os políticos de que vos falo, não chegaram lá… mas estiveram no seminário; e é no seminário, no viveiro dos futuros lírios negros, que tudo de estruma. Sempre. Obviamente que não. Mas há, pelo menos, um grande campo aberto para esta possibilidade. E foi isso que estas linhas tentaram demonstrar.

Esqueci-me da consciência… o grande trunfo do ex-seminarista. No fim, não obstante o cinismo praticado durante mais de quarenta anos ou a má-fé descarada com que aturde adversários em debates, ele pode assumir-se pecador entre pecadores. «Sim — diria — até nós, os escolhidos, nós, os que temos uma missão, nos lavamos do pecado diante do confessor. Temos personalidades diferentes? Um apresentava-se com o ar de um austero político, eu, com o ar de um sorridente demagogo? Não vos iludais: ambos sentimos a consciência limpa…»

 

Paulo Pereira de Carvalho é professor de Filosofia no ensino secundário.

 

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