É o vírus, estúpido!

| 30 Mar 21

“Quanto mais o governo espera antes de tomar a decisão de reduzir drasticamente os contactos entre as pessoas, mais o vírus se expande…” Foto © Helena Araújo

 

No princípio da semana (22 março),  Angela Merkel reuniu com os ministros-presidentes dos estados alemães para tomar decisões sobre o que fazer perante o actual descontrolo da situação na Alemanha. As hesitações dos políticos e os truques que alguns responsáveis regionais arranjaram para iludir as regras combinadas por todos foram fatais para a luta contra a mutação inglesa. Esta terceira vaga está a ser ainda mais rápida e avassaladora do que já se temia.

Os governantes decidiram que o lockdown vai continuar pelo menos até meados de abril, e que em alguns casos será até necessário accionar o travão de segurança (ou seja: medidas ainda mais rígidas) se a evolução do número de infecções em alguma região assim o exigir. O que dá quase meio ano em confinamento, a contar desde o verão passado. Começou no dia 2 de novembro com um conjunto de restrições de alcance relativamente limitado: cultura, restaurantes, cafés. Em meados de dezembro deram-se conta de que estávamos a caminhar para um trágico “Natal dos hospitais” e fecharam tudo, ignorando a necessidade existencial dos comerciantes de venderem nessa época para conseguirem sobreviver à crise. Abriram leves excepções para os encontros familiares natalícios e proibiram tudo na passagem de ano. O país continuou em lockdown até à segunda semana de março, quando recomeçaram a facilitar um pouco. Logo a seguir foram obrigados a retroceder. Pela segunda vez consecutiva não poderemos festejar a Páscoa com a alegria e despreocupação de outros anos.

Da parte da Ciência vem a crítica de que tudo isto já devia ter acontecido muito antes, e com mais determinação, quando o número de infectados era muito reduzido e, portanto, mais facilmente controlável. Quanto mais o governo espera antes de tomar a decisão de reduzir drasticamente os contactos entre as pessoas, mais o vírus se expande, obrigando depois a tomar medidas muito mais duras, por muito mais tempo e com custos maiores do que se se tivesse feito um esforço sério de contenção na fase inicial. Elementar, mas muito difícil de pôr em prática, devido ao coro de lamentações, críticas e exigências – “mas as crianças”, “mas a economia”, “mas as pessoas que querem a sua vida”. Um coro especialmente ruidoso e difícil de acalmar quando os números de infectados são muito baixos. A “inteligência do enxame” no seu melhor…

O lockdown alemão continuará, portanto. O período da Páscoa, que já é uma ponte de feriados de Sexta-Feira Santa até segunda-feira, vai ser alargado à quinta-feira.

[Coisas da crise covid: enquanto escrevia o post, esta medida foi cancelada, devido a inúmeras críticas, e Angela Merkel pediu desculpa. Agora há quem grite que ela se deve demitir. Em plena terceira vaga…]

Na Páscoa abre-se uma ligeira excepção: permitem-se encontros de pessoas de duas casas diferentes, até cinco adultos no máximo. Os hotéis, restaurantes e cafés permanecem fechados.

Não ouvi nada sobre o que vai acontecer com o sector da cultura, mas temo que os museus sejam de novo encerrados e não haja espectáculos nos moldes do concerto piloto a que assisti na semana passada, com testes à porta e medidas de segurança muito apertadas.

Concerto Helena Araújo

“Espectáculos nos moldes do concerto piloto a que assisti na semana passada, com testes à porta e medidas de segurança muito apertadas.” Foto © Helena Araújo

 

Uma das propostas do governo é manter abertas apenas as escolas que testarem todos os alunos duas vezes por semana. Os professores estão muito interessados nisso. Mas já há famílias a dizer que não querem que testem os seus filhos, “porque se der positivo, a família toda tem de ficar de quarentena”.

E acontece isto no país que deu ao mundo tantos filósofos e matemáticos…

Fiz com uma amiga uma aposta: até ao dia 22 de agosto estaremos ambas vacinadas. Champanhe e ostras. De cada vez que há notícias sobre mais um atraso no processo de vacinação, ela diz-me que mais vale eu comprar já o champanhe e bebermos para aguentar a frustração. Eu insisto: calma, que a esperança é a última a morrer.

Outra amiga dizia-me que suspeita que isto ainda dure uns cinco anos. Porque nós podemos ter vacinas, mas os países pobres não têm. E enquanto o vírus andar à solta pelo mundo, sabe-se lá que mutações continuará a sofrer, e que novas vacinas será necessário desenvolver. Deste ponto de vista, estamos realmente todos no mesmo barco: enquanto os mais pobres dos países mais longínquos não estiverem seguros, nós – as populações dos países ricos – também não estaremos. Às tantas, e no nosso próprio interesse, já se fazia um programa mundial para garantir vacinas a todos os países?

Nas redes sociais há quem critique imenso Angela Merkel. Uns dizem que exige demasiado e se comporta como ditadora, outros dizem que falhou e está a deixar descarrilar o país por não conseguir impor as medidas necessárias. Também há quem a louve como um dos poucos políticos alemães em que se pode confiar. Um comentário em especial chamou a minha atenção: dado que Merkel se vai retirar da política no fim deste mandato, tem a liberdade de tomar medidas a pensar no bem da população, inteiramente à margem de cálculos eleitorais.

À minha volta – mas a uma distância de segurança – repetem o lamento: “já não aguento mais o lockdown!”

O meu coro continua a ensaiar por zoom e no intervalo conversamos uns com os outros em pequenos grupos. A amiga com quem fiz a aposta sobre as vacinas perguntou aos outros como se sentiam, e todos respondiam o habitual: “vamos andando, estamos relativamente bem”. Ela insistia: “não acredito que vocês estejam bem apesar desta prisão domiciliária em que estamos a viver há um ano! Esta situação é insuportável, e a incompetência dos nossos políticos torna tudo ainda mais frustrante. Só fazem asneiras, não se aguenta! Agora, por exemplo: fecham as lojas na quinta-feira da semana de Páscoa, para ir ainda mais gente encher os supermercados no sábado.” Quando ela insiste assim, as pessoas começam a baixar as guardas e a reconhecer que de facto estão muito cansadas disto tudo. Mas acrescentam logo que conhecem bem a sua posição de relativo privilégio no panorama mundial.

Ontem foi a minha vez de fazer variações desse discurso. Falei de uma família que conheci recentemente – mãe e dois filhos adolescentes – que são cristãos sírios. Fugiram de Damasco para o “Vale dos Cristãos”, e daí para a Alemanha. Não se sentem seguros no seu país. Temem que um dos filhos seja raptado na rua, como tem acontecido tantas vezes. O pai continua na Síria, a trabalhar para garantir o sustento dos três que estão na Alemanha. A mãe tem de aprender alemão, arranjar casa e escola para os filhos, arranjar trabalho. Só então o pai poderá vir. Entre estar na situação desta família, e passar mais cinco anos nestes lockdown que temos tido, nem hesito. E esta família é ela própria muito privilegiada, se comparada com os refugiados que passam anos com a vida e a dignidade suspensa nos milhentos campos dos dois lados da fronteira da Europa.

Ia eu lançada nesta conversa de chover no molhado, quando a minha amiga – que se está a afundar cada vez mais no seu próprio pessimismo – me interrompeu, oferecendo-se para dar aulas gratuitas de alemão à família síria. Por zoom, para já, e presencial quando o tempo melhorar e se puderem encontrar ao ar livre. O que me lembrou imediatamente a canção do Adriano Correia de Oliveira: mas há sempre uma candeia / Dentro da própria desgraça. A minha amiga acendeu uma candeia para a família síria, e com esse gesto generoso e impulsivo vai iluminar também a sua própria escuridão.

Helena Araújo

“Acato as medidas impostas pelo governo com um enorme sentimento de gratidão: a sociedade está a fazer colectivamente todos estes sacrifícios para me proteger, e aos meus.” Foto © Helena Araújo

 

Entretanto, para já, temos mais um mês de lockdown, e depois se verá. Mas não me queixo, porque tenho consciência dos riscos que corremos actualmente. Os maiores de 80 anos já estão praticamente todos vacinados, o que é um alívio. No entanto, devido ao actual aumento exponencial de infectados, dado que a variante britânica é muito mais infecciosa, os hospitais têm cada vez mais doentes de covid das gerações mais novas. Há dias, num noticiário televisivo, informaram que a nova distribuição etária coloca um problema aos hospitais porque (cito) “dito com toda a brutalidade, os doentes mais jovens demoram mais tempo a morrer”. Ou seja: nesta vaga, os doentes de covid em estado grave permanecem mais tempo nos cuidados intensivos. Mesmo que o número absoluto de doentes graves não ultrapasse o das vagas anteriores, os hospitais terão menos capacidade para dar uma oportunidade a todas as pessoas que precisem. Dito de outra forma: a tragédia da triagem poderá voltar a colocar-se.

Também se fala cada vez mais das sequelas de longa duração que o vírus tem deixado em 10% das pessoas que foram infectadas. É assustador o número de pessoas jovens que tiveram covid com sintomas leves e mais tarde desenvolveram sintomas graves que não se sabe se e quando vão desaparecer: dificuldades de concentração, de memória e de raciocínio; dores musculares e de articulações; dores de cabeça; perda parcial de visão, olfacto e paladar; cansaço extremo; problemas de coração, rins, pulmões e intestinos, ansiedade, depressão.

Sabendo isto, acato as medidas impostas pelo governo com um enorme sentimento de gratidão: a sociedade está a fazer colectivamente todos estes sacrifícios para me proteger, e aos meus.

 

Helena Araújo é autora do blogue Dois Dedos de Conversa, de onde este texto é reproduzido.

 

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