[Santa Maria, Mãe de Deus, Solenidade // Dia Mundial da Paz ― c ― 2025]

[no espelho do rosto / a luz da paz alaga ― / o despojo vincula? © haiku e fotografia: Joaquim Félix]
1. «Que o pulsar do coração entusiasmado
a saudar a vida, a vida, a vida,
na esperança que em nós flui
seja um sinal da agradecida convivência no tempo novo.
Traga este ano nascente sede de paz,
que longas são as esperas do mundo».
Aceitai este brinde, de corações e mentes ao alto,
como ressonância da Palavra de Deus
que estamos a saborear neste silêncio habitado.

[Brinde, de corações e mentes ao alto © fotografia: Joaquim Félix]
2. Tendo em conta os relatórios do ano que terminou,
como o da Fundação Cesvi de Cooperação e Desenvolvimento,
sentimos que, com tantas guerras, devastações e injustiças,
a nossa memória encontra-se ferida com gravidade.
Eis porque é urgente controlar a agressividade, as manias e o ódio.
É urgente estancar a vingança, o preconceito e a inveja
que dilaceram a fraternidade universal.
Enfim, é urgente superar a irracionalidade dos instintos
que tudo cercam com arame farpado e vidros sobre paredes.
Não estaremos nós, humanos, a precisar de cuidar
do mundo com doçuras outras,
para que se concretizem as profecias messiânicas
estendidas até à pacífica convivência cósmica (cf. Is 1,6-9)?

[Dos instintos que tudo cercam com arame farpado © fotografia: Joaquim Félix]
3. Se cairmos nas teias da sofreguidão egocêntrica,
tornar-nos-emos vilões que vilipendiam a humanidade e o universo.
Eis porque é importante reconhecer que tudo nos foi dado.
Sem a gratidão, que é remédio para construir relações sadias,
não trataremos os outros com doçura.
Isso mesmo o ditava Adília Lopes (falecida segunda-feira),
para quem Deus seria a nossa «mulher-a-dias»,
num breve poema que desafia à sabedoria do reconhecimento:
«A ti tudo/ te foi dado/ e não tratas/ os outros/ com doçura//
És um nabado/ e és um nabo/ (quem te dera/ seres um nabo)».
Verdade seja repetida: há urgência em cuidar do mundo
com as artes da sabedoria
e «uma poesia que abomina a crueldade» (Luís Miguel Queirós).
4. Precisamos, porém, de deixar o ano que passou.
E, claro, acolher os reptos incrustados
no poema intitulado «Deixa o dia de ontem», também de Adília.
Nas últimas estrofes deste poema,
no qual nos solicita a viver em paz a espera,
ela acorda a nossa esperança, ditando:
«Um anjo/ está contigo/ quando desanimas//
Um anjo/ está contigo/ quanto te alegras//
Sempre/ um anjo/ está contigo».

[Presépio da Congregação Nª Sª da Caridade, Viana do Castelo (séc. XVIII) © fotografia: Joaquim Félix]
5. Muitos de nós terão construído presépios
ou visitado outros e exposições alusivas à quadra natalícia.
Por amável convite, apreciei a exposição de presépios
que foi instalada no Instituto Católico de Viana do Castelo.
Era possível contemplar presépios de vários continentes.
Surpreenderam-me alguns, criados, em beleza e verdade,
por pessoas dos Centros de Atividades e Capacitação para a Inclusão.
A página do evangelho da infância, hoje escutada (Lc 2, 16-21),
bem como a breve sequência da Carta aos Gálatas (Gal 4,4-7)
encontram-se neles recriadas com plasticidades de causar espanto:
não faltam os apressados e exultantes pastores;
Maria, José e o Menino reclinado na manjedoura,
Menino «nascido de uma mulher e sujeito à Lei» (Gal 4,4).
E, sobre as nuvens, comparecem os anjos a cantar:
«Glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens por Ele amados» (Lc 2,14).
A par destas narrativas do mistério da Incarnação,
é possível ver a atualidade da «nova carne» (cf. EG, 167) do Verbo.
Recorde-se que, este ano, o desafio lançado aos artistas
consistiu no tema do nascimento de Jesus em Gaza.

[Expectação. Pintura por Pinto Meira © fotografia: Joaquim Félix]
6. Porque estamos a celebrar o Dia Mundial da Paz,
na ocorrência da solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus,
façamos a ruminância das palavras do hino que cantámos,
em coro, com os anjos junto dos pastores e sobre a manjedoura.
Por certo não nos equivocaremos
se, quase-afogados num encapelado mar de guerras,
dissermos que é deveras difícil cantar glórias a Deus.
Porque, parafraseando Santo Ireneu,
a glória de Deus é a humanidade em paz sobre a terra (cf. Adv. Haer. IV,20,7).
Aliás, sem paz, como poderemos cantar ainda?
A paz, sim, a paz é a melhor expressão da vida
segundo o amor incarnado de Deus:
isto é, a honra da presença divina na sua criação (cf. Is 6,3).
7. Como havemos então de cantar a paz na terra,
se ela, que por agora está de guerras em todos os continentes,
assiste ingloriosamente à destruição de vidas sem conta?
Que precisamos para cantar a glória da vida?
O céu na terra? Sim! O céu na terra, sublinho.

[De guerras em todos os continentes © fotografia: Joaquim Félix]
8. Permiti que revisitemos um concerto da banda irlandesa U2,
não da passagem de ano, mas de há uns meses atrás.
Nesse concerto, depois de ser necessário calar a multidão,
Bono instou todos os fãs a rezar pela paz na terra.
E cantou esta urgência terrena, com as seguintes palavras:
«Céu na Terra/ Precisamos disso agora//
Estou farto de tudo isso/ Andando por aí//
Doente de tristeza/ Doente da dor/ Doente de ouvir//
De novo e de novo// Que vai haver/ Paz na Terra».
Um pouco mais adiante, Bono dirige-se a Jesus,
e pergunta-lhe: «Jesus, podes reservar um tempo/
Para lançar uma linha a um homem que se está afogando?».
Jesus reserva todo o tempo do mundo,
mas quem O ouvirá, ainda, permanecendo em linha com Ele?
Quem escutará a Mãe de Deus e as muitas mães que choram?
Seja a nossa resposta alinhada pela proposta de Bono:
«Paz na Terra/
Diz àqueles que não ouvem nenhum som/
Cujos filhos estão vivendo no chão//
Paz na Terra/
Não há quem ou porquê/
Ninguém chora como uma mãe chora/
Pela paz na Terra».
Possamos nós corresponder ao seu apelo
para ouvir o Natal até o fim, todo o Natal:
9. Mais, voltemos a escutar repetidas vezes outras músicas,
como as propostas pelo jornalista Manuel Costa Monteiro
para o programa Memória de Elefante,
que alimenta na TSF em coautoria com Mário Fernando,
e que o jornal digital 7 Margens tem divulgado
chamando a atenção ― nestes tempos de guerras desglorificantes ―
para músicos e músicas que traduzem a urgência da paz no mundo.
10. Para continuar a cantar Paz na Terra,
creio que será importante ler e reler, assumindo compromissos,
a Mensagem do Papa Francisco para este dia
e o artigo de Eduardo Jorge Madureira
publicado há dias no jornal Diário do Minho,
intitulado «Contra a indiferença».
Eduardo Madureira refere a canção de Leon Gieco, «Solo le pido a Dios»,
interpretada inclusive na presença do Papa Francisco,
na qual se faz a Deus uma prece radical em várias declinações:
«Só peço a Deus/ Que a dor não me seja indiferente/
Que a ressequida morte não me encontre/ Vazio e só sem ter feito o suficiente//
Só peço a Deus/ Que o injusto não me seja indiferente/
Que não me esbofeteiem a outra face/
Depois de uma garra me arranhar esta fronte//
Só peço a Deus/ Que a guerra não me seja indiferente/
É um monstro grande e pisa forte/ Toda a pobre inocência da gente//
Só peço a Deus/ Que o engano não me seja indiferente/
Se um traidor pode mais do que uns quantos/
Que esses quantos não o esqueçam facilmente//
Só peço a Deus/ Que o futuro não seja indiferente/
Sem esperança está o que tem que andar/ A viver uma cultura diferente».
11. Que mais poderíamos pedir neste dia da paz?
Recordados do poema da Sophia intitulado
«A paz sem vencedor e sem vencidos»,
peçamos a Deus, neste início de 2025:
«Que o tempo que nos deste seja um novo/
Recomeço de esperança e de justiça».
Sim, sem vencedor nem vencidos, até porque,
como dita o poeta Jorge Melícias:
«O despojo não é uma/ caução da dignidade do vencido/
mas do vencedor./ E só a ele vincula.//
Se nada além/ a história ensinou-te esse tanto:/
o triunfo é apenas/ o mais fidedigno/ dos equívocos».
(Húbris, Poesia reunida, p.169).
12. E, inspirados na bênção aarónica (cf. Num 6,22-27) e no salmo 66,
peçamos pela paz na terra, a paz de cada pessoa e dos povos:
Compadecido Senhor, chova de vossos olhos
a paz como um rio;
alagai-nos de luz no espelho do vosso rosto humedecido.
E, assim, com os anjos e as criaturas de companhia,
todos os povos continuarão a cantar, alegres e exultantes:
Glória a Deus nas alturas
e paz na terra aos homens por Ele amados.
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de dia 1 de janeiro, proferida na Igreja de S. Paulo do Seminário Conciliar de Braga.










