Assembleia começa no Vaticano

É possível a sinodalidade quando se perdeu a confiança? E a sinodalidade é um erro?

| 3 Out 2023

A Aula Paulo VI, preparada para receber quase 400 participantes do Sínodo. Foto © Direitos reservados

 

Perante uma centena e meia de outros jovens, Sara Paci, francesa de 20 anos, tem uma pergunta simples: “É possível a sinodalidade quando se perdeu a confiança?” Quatro dias depois, a pouca distância daquele local, outra centena e meia de pessoas, na maioria mais velhas, reúne-se para uma sessão em que o Sínodo que nesta quarta-feira, 4, se inicia em Roma e o Papa Francisco são o alvo das críticas, pelos “erros filosóficos, canónicos e teológicos muito difundidos” que traz em si, na expressão do cardeal Raymond Burke, um dos opositores declarados do Papa.

Entre a pergunta perplexa da jovem francesa – que ficou sem resposta – e as certezas do cardeal Burke, a Igreja Católica começa um sínodo que traz várias novidades: pela primeira vez haverá leigos, incluindo mulheres, e também jovens, a participar e votar; duas mulheres são presidentes delegadas; pela primeira vez, o processo de preparação incluiu não só respostas individuais e de grupos, como também de paróquias, dioceses, países e continentes; pela primeira vez, a assembleia decorre não num anfiteatro, mas no Auditório Paulo VI, esvaziado das filas de cadeiras e com meia centena de mesas redondas que colocam todos os participantes no mesmo plano – o espaço também diz o que se pretende.

O subsecretário do Sínodo, o padre espanhol Luis Marín de San Martín, resumia as mudanças mais importantes: “A primeira novidade é o tema ‘Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão’, a novidade do tema é a sinodalidade na Igreja. Outra foi o processo, que começou em 2021, em que todo o povo de Deus esteve envolvido, em diferentes fases de discernimento, todas elas interligadas. Depois, há a novidade da participação de não-bispos na Assembleia Sinodal.”

O aumento do número de participantes, a mudança de lugar dos trabalhos, o reforço dos grupos linguísticos de debate e o retiro espiritual que deu início informal ao Sínodo, orientado pelo padre dominicano Timothy Radcliffe, foram outras alterações em relação ao modelo em vigor até aqui.

 

Novidades demais

O cardeal Raymond Burke com outros dois intervenientes no debate sobre a “Babel sinodal”, nesta terça-feira, 3, em Roma. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

Novidades demais para os que criticam Francisco e as dinâmicas de debate e mudança por ele lançadas: na tarde desta terça-feira, 3, em Roma, os sectores agrupados à volta dos cardeais Raymond Burke e Robert Sarah, reuniram-se no colóquio “A Babel Sinodal”, convocado pelo jornal digital La Nuova Bussola Quotidiana (NBQ).

O director do jornal, Riccardo Cascioli, explicou o sentido do título escolhido para o colóquio, apontando baterias contra a assembleia que se inicia nesta quarta-feira: “Babel significa confusão, pela grande confusão que está a criar o sínodo, quer pelo conteúdo quer pelo método”; e também é a palavra que simboliza “a vontade do homem em querer chegar ao céu e ter poder”.

Numa curta incursão pela página digital da NBQ, um artigo diz que “os imigrantes não são pobres”, outro recusa a ideia das alterações climáticas, um outro ainda contesta o Nobel para a vacina contra a covid-19. Para estes sectores da Igreja, está em causa a democraticidade em que Francisco vem insistindo – mesmo se as regras de funcionamento democrático já vêm de há muito, em diferentes estruturas da Igreja.

Mas nem só: aos jornalistas que chegavam ao Teatro Ghione, a uns 500 metros da Praça de São Pedro, era oferecido o livro Processo Sinodal – Uma Caixa de Pandora, que contesta, em 100 perguntas e outras tantas respostas, as ideias, processo e objectivos do Sínodo propostos pelo Papa e pelo secretariado geral da estrutura. O livro foi já oferecido e distribuído aos milhares em universidades, paróquias e outras estruturas católicas, foi enviado pelo menos aos bispos dos Estados Unidos, está disponível em oito línguas diferentes e é editado pela associação Tradição, Família, Propriedade.

 

“Não há limites à sinodalidade?…”

A Última Ceia de Jesus celebrada também com mulheres, na visão do polaco Bohdan Piasecki (1998).

A Última Ceia de Jesus celebrada também com mulheres, na visão do polaco Bohdan Piasecki (1998).

 

Se os críticos de Francisco têm certezas absolutas e meios para as divulgar, a jovem Sara Paci tem uma pergunta sem resposta. “Vemos cada vez mais os abusos sexuais cometidos por responsáveis da Igreja. Pergunto-me se não há limites à sinodalidade quando a confiança está quebrada”, explicava ao 7MARGENS, no final do dia de sexta-feira, durante um dos debates de jovens da iniciativa Together – Encontro do Povo de Deus, que reuniu jovens e líderes de duas dezenas de confissões cristãs.

“Não tenho muitos amigos católicos. Eu própria, quando me tornei católica, fui confrontada com a realidade dos abusos. A nossa confiança na Igreja foi atingida”, diz a estudante de Sociologia. Mesmo em França, em que os bispos estabeleceram uma comissão para estudar indemnizações a vítimas de abusos, Sara pensa que a solução é errada: “Não pode ser a Igreja a gerir a solução do problema que ela própria criou”, afirma.

Abusos, participação dos leigos na gestão económica ou nos processos de decisão pastoral, um novo modelo de ministério dos padres, a possibilidade de ordenação de mulheres, uma visão diferente da(s) sexualidade(s) – entre os temas que podem vir a ser debatidos pelos 365 membros do sínodo, estes serão alguns dos que mais conflitos criam. Não por acaso, nas dubia (dúvidas) colocadas ao Papa sobre o que de facto se pretende com o Sínodo, cinco cardeais – incluindo Burke e Sarah – insistiam em perguntas sobre o conceito de sinodalidade, a ordenação de mulheres e a eventual bênção de uniões homossexuais.

O que uns consideram demasiado e uma traição à doutrina “perene” da Igreja, outros encaram como pouco e insuficiente. Onde uns sentem velocidade a mais, outros experimentam uma lentidão exasperante. Na próxima sexta-feira, por exemplo, a Conferência para a Ordenação de Mulheres (WOC, da sigla em inglês) promove uma manifestação a reivindicar precisamente a ordenação como um direito.

 

Notícias do bloqueio

JMJ, Papa Francisco, Scholas Ocurrentes

O Papa Francisco no Scholas Ocurrentes, em Cascais, durante a JMJ: insistência nos consensos. Foto © António Cotrim/Lusa/Pool

 

Esse e outros temas mostram que a Igreja está bloqueada em muitas questões e atravessada das tensões que povoam a sociedade: o Papa Francisco tem insistido na necessidade de procurar consensos e avançar com uma atitude pastoral, que privilegie os valores evangélicos em detrimento das regras e das normas. Mas é isso precisamente o que os sectores imobilistas contestam. E é difícil perceber que espaço para o diálogo pode haver quando um dos lados está convencido da sua verdade. Na intervenção desta tarde, o cardeal Burke afirmava: “O nosso Senhor Jesus Cristo que é só o nosso Salvador não está na raiz e no centro da sinodalidade. É por isso que a natureza divina da Igreja, na sua fundação e na sua vida orgânica e duradoura, é negligenciada e, até, esquecida.”

Para o cardeal americano, conhecido também por usar a capa magna (veste que simboliza o poder do bispo ou cardeal, sem qualquer significado litúrgico), está em causa que se diga que o Sínodo “é uma obra do Espírito Santo”, mas nunca haja “uma palavra sobre a obediência devida às inspirações do Espírito Santo, que são sempre coerentes com a verdade da doutrina perene e a bondade da disciplina perene que Ele inspirou ao longo dos séculos”. Trata-se de fazer avançar “uma agenda mais política e humana que eclesial e divina”. E acrescentava: “A confusão sobre a teologia, sobre a moral e mesmo sobre a filosofia elementar em que vivemos é alimentada por uma grande falta de clareza no vocabulário utilizado, e isto provavelmente é intencional da parte de alguns”.

Um dos sinais do bloqueio em que a Igreja Católica se encontra, directamente relacionado com o sínodo, é a questão de saber precisamente se será pedido aos participantes o respeito pelo segredo pontifício ou não – ou seja, que não podem falar fora da assembleia sobre o que se passa no seu interior. Essa seria a maneira de evitar que chegue à praça pública – distorcida ou não – informação sobre o que está a acontecer na assembleia.

O Papa já manifestou várias vezes – incluindo em anteriores assembleias sinodais – o desejo de que todas as pessoas falem abertamente. E o processo sinodal despertou a participação de milhões de pessoas em todo o mundo. Agora que se atinge uma etapa decisiva, corre-se o risco de a informação não existir – ou existir apenas a de algumas fontes interessadas em passar a mensagem que pretendem.

 

As perguntas

Abusos

Ilustração original de © Catarina Soares Barbosa para o 7Margens

 

O Instrumentum Laboris, documento que servirá de guia aos debates, resume os milhares de contributos chegados de todo o mundo e sucessivamente discutidos em paróquias, grupos, movimentos, dioceses e continentes. O mais importante, como o 7MARGENS registava em Junho, na altura da apresentação do documento, serão as perguntas da parte final do texto, acerca da vida da Igreja e da sua relação com a sociedade.

O texto elege como centro prioritário da acção das comunidades católicas os pobres, os migrantes, os portadores de deficiência, as vítimas de todo o tipo de abusos (morais, sexuais, de poder, económicos…). E pergunta, por exemplo: “Ao longo do caminho sinodal, que esforços foram feitos para dar espaço à voz dos mais pobres e integrar a sua contribuição? Que experiência as nossas Igrejas adquiriram no apoio ao protagonismo dos pobres? O que é que precisamos de fazer para os envolver cada vez mais na nossa caminhada conjunta, deixando que a sua voz questione a nossa maneira de fazer as coisas quando esta não é suficientemente inclusiva?”

No documento, não se esquecem entretanto outros temas difíceis: divorciados e recasados, as pessoas em casamentos polígamos ou as pessoas LGBT; os que se sentem vítimas de formas de discriminação racial, étnica, de classe ou de casta… E ainda o diálogo ecuménico, o papel das mulheres ou “a luta contra todas as formas de discriminação e exclusão de que são vítimas na comunidade eclesial e na sociedade”.

Rita Sousa, escuteira em Rio de Mouro, que participou no fim-de-semana no encontro Together, disse ao 7MARGENS que mantém “grandes expectativas para este sínodo: é como uma manhã solarenga depois de uma noite muito longa”. Esta enfermeira de 30 anos recorda que, depois da síntese nacional, compreendeu que não estava sozinha na sua “visão de uma Igreja mais aberta, mais amorosa, mais socialmente responsável, mais humana”.

No debate de sexta-feira, vários dos jovens participantes falavam do que deveria ser a Igreja: um lugar de aceitação e de perdão, uma comunidade em que as pessoas caminham juntas, com uma grande humanidade.

 

Números

A assembleia do sínodo será composta por um total de 363 membros, com direito a voto, informa o Vaticano. Destes, 85 são mulheres, 54 das quais têm direito de voto e duas delas fazem parte dos presidentes-delegados.

Há 20 representantes das Igrejas Orientais, 43 bispos de África, 47 da América, 25 da Ásia, 48 da Europa, cinco da Oceânia, um sem Conferência Episcopal. Cinco são os presidentes do Encontro Internacional das Conferências Episcopais, mais 20 chefes dos Dicastérios da Cúria Romana, 50 membros de nomeação pontifícia e 16 membros do Conselho Ordinário do Sínodo. Os não bispos são 25%. 

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