Em texto no Osservatore Romano

“É preciso reinventar a liturgia”, defende teóloga italiana

| 22 Ago 2023

A Última Ceia de Jesus celebrada também com mulheres, na visão do polaco Bohdan Piasecki (1998).

 

“É preciso reinventar a liturgia e abrir espaço para uma nova criatividade e subjetividade”, sustenta a teóloga italiana Cettina Militello, em artigo publicado pelo caderno mensal “Donne Chiesa Mondo[Mulheres, Igreja, Mundo], de julho deste ano, um suplemento do Osservatore Romano.

O artigo intitulado algo provocativamente “Que tipo de liturgia – se as mulheres subirem ao altar”, começa por se referir a uma conversa da autora tida com o também teólogo e liturgista italiano, já falecido, Silvano Maggiani, na qual partilhava com ele “o desconforto” de participar na liturgia.

Conta ela: “Eu disse-lhe que, para mim, tudo parecia falso: os gestos, as palavras, as vestimentas… Se olhar em volta – acrescentei – vejo pessoas entediadas, em número cada vez menor e presentes por hábito… Enfim, nada de alegria, nada de comunidade, nada que realmente toca os presentes, inclusive o celebrante, ele também pouco convencido e convincente.”

Ela exprimia estas impressões “com dor”. E o interlocutor respondeu que também ele, que tinha vivido o início da reforma litúrgica do Vaticano II, os anos de experimentação e entusiasmo, partilhava de igual desconforto.

A quase 60 anos da promulgação da Sacrosanctum Conciliuma carta magna da reforma litúrgica e, olhando em volta, “compreende-se, diz a teóloga, que aquela viragem e aquele esforço [de simplificar os ritos e de valorizar a participação do povo de Deus] não foram suficientes, até porque “tudo está em perpétuo movimento e pede constante e flexível adaptação. Sem falar nos nostálgicos do rito antigo”.

E conclui algo que as respostas das recentes consultas no âmbito do Sínodo sobre a Sinodalidade também enfatizaram: “Sim, a celebração litúrgica constitui hoje um problema grande, muito grande”. 

Para Cettina Militello, um dos nós deste problema diz respeito às mulheres, sendo nele evidente “uma distonia de ‘género’”.

“A sua participação nunca foi fácil. Tendo abandonado a ekklesia kat’oikon, a Igreja nas casas, onde elas talvez também tenham presidido à Ceia do Senhor, na maioria das vezes foram relegadas para um limbo de não participação, aliás, como os leigos”, explica a teóloga que faz, de seguida um percurso que vai até finais da Idade Média, com múltiplos sinais de criatividade e inventividade na liturgia, dos quais algumas manifestações chegaram até aos nossos dias.

Nesses movimentos, múltiplas são as provas de protagonismo feminino, incluindo do ponto de vista ministerial.

Mulheres ausentes, linguagens incompreensíveis…

“Nos nossos dias de tudo isso nada resta”, conclui, explicando: “Embora tenha mudado, em muito, a perceção e a condição das mulheres na Igreja, em relação à liturgia elas permanecem à margem. Para a ela presidir, exceto no caso de uma celebração dominical na ausência de presbítero, só há homens. Recentemente, as mulheres foram admitidas nos ministérios do leitorado e acolitado, ou seja, a proclamar as leituras e servir no altar. Funções das quais foram excluídas durante muito tempo por razões de sexo, considerado não idóneo para o ministério litúrgico. Não foi por acaso que nas disposições relativas à música sacra, Pio X, no início do século XX, as proibiu de cantar, considerando justamente [o canto] um ministério”.

A articulista está consciente de que o desconforto que sente relativamente às liturgias não se fica a dever apenas à ausência ministerial das mulheres. O problema afeta-as – mas não só a elas – do ponto de vista da linguagem. De facto, adianta ela, as eucologias, o conjunto das orações, surgem enraizadas num turvo patriarcalismo, reproduz os estereótipos culturais. Ao invocar Deus “pai”, é o pater familias de antiga memória, emulador e substituto do pater deorum, que está a ser invocado. “Muito pouco resta daquele a quem Jesus de Nazaré invocou como abbá, pai, derrubando toda a hierarquia patriarcal”, adianta. 

Em geral, a linguagem das liturgias é no mínimo estranha para a maioria das pessoas, até porque “a rutura dos locais tradicionais de transmissão da fé tornou incompreensíveis antigas e belas metáforas…”. “Seria preciso pelo menos um tradutor!”, graceja. 

Indo além das orações e leituras, ela refere também as homilias, que considera em geral distantes, desligadas da atualidade e nunca dirigidas a oferecer a chave do rito celebrado.

Falta expressar a “corporeidade” da salvação

Não espantará, assim, a descrição que ela faz das celebrações no seu país, mas que serão facilmente reconhecíveis nos restantes países do catolicismo ocidental:

“As nossas igrejas estão a esvaziar-se , as mulheres de meia-idade, os jovens e as jovens já não as frequentam, certamente por aquela rutura que fez com que se perdesse o código de reconhecimento quer da igreja edifício quer da Igreja de pedras vivas que somos nós. De facto, um único termo liga o edifício e o mistério”, escreve Cettina Militello.

“Em suma, somos convidados para um banquete festivo, que requer conhecimento e cuidado mútuos, partilha de alegrias e esperanças. E, como em qualquer festa que se preze, cada um deve trazer o seu dom para o crescimento dos outros. Em vez disso, entrincheiramo-nos atrás de palavras obscuras, vestimos trajes antiquados, ridículos em certos detalhes; em vez de protagonistas somos espectadores, utentes passivos, a quem ainda por cima se oferece o pão seco, porque não só nós não participamos do cálice, mas nem mesmo do pão partido naquela celebração”.

Além da “insatisfação feminina”, que seria apenas “a ponta do iceberg”, a teóloga acrescenta fatores como a rutura que a pandemia representou; a pretensão clerical de celebrar na ausência do povo; “a horrenda exposição mediática de missas insignificantes, descaradamente descuidadas ou teatrais”; sem esquecer que, no fim de contas, nem sequer é necessária a presença física: “pode-se participar da Eucaristia mesmo à distância, talvez recitando a horrível fórmula da comunhão espiritual…”

É tudo isto que se torna, necessário e urgente, para a autora, “reinventar a liturgia e abrir espaço para uma nova criatividade e subjetividade”.  A exemplo de Cristo, na altura da última Ceia, precisamos de perfumes e, portanto, de cheiros, sabores, visão, audição e tato. As nossas liturgias devem voltar a expressar a corporeidade da salvação. Nós somos o corpo de Cristo e não se trata de uma metáfora”.

PS – A autora disponibilizou o texto completo do artigo, em italiano, neste link.

 

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