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A paisagem a caminho da aldeia de Ferradosa. Foto © Hermano Filipe

Caravana de Esperança: Semana 2

É preciso sentar demoradamente para escutar a terra e as gentes

| 22/09/2025

Até dia 4 de outubro, três franciscanos capuchinhos estão a percorrer todas as paróquias da Diocese de Bragança-Miranda, numa caravana de esperança que pretende celebrar o Tempo da Criação, a propósito dos 800 anos do Cântico das Criaturas, de São Francisco de Assis, e os 10 anos da carta encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco. [ver 7MARGENS] Este é o diário de viagem, publicado em simultâneo no 7MARGENS e na página digital dos Capuchinhos.

 

À medida que nos afastamos do Planalto Mirandês, fomos encontrando muitas igrejas fechadas. Numa dessas paróquias, uma senhora desabafava que raramente têm missa e é o programa “Bom Dia Tio João”, da Rádio Brigantia, que lhe faz companhia nas orações da manhã. Bendito Tio João!

 

16 de setembro, terça-feira

O sexto dia, de manhã, foi dedicado à Unidade Pastoral Santíssima Trindade, que inclui as paróquias de Palaçoulo (São Miguel), Duas Igrejas (Nossa Senhora do Monte), Vila Chã da Braciosa (São Cristóvão), Picote (São João Baptista), Sendim (São Pedro) e Atenor (Nossa Senhora da Purificação).

À saída de Argozelo, pelas 06h30, os nossos olhos já estavam postos no Mosteiro Trapista Santa Maria Mãe da Igreja, onde íamos celebrar eucaristia às 08h00. Ali, o cuidado posto na sagrada liturgia, a beleza do canto, a serenidade dos gestos, a luz, o silêncio e a solidão, tudo convida ao louvor de Deus.

Já na sede da paróquia, agradecemos a disponibilidade das pessoas em deslocar-se à igreja para rezarmos juntos, mas uma senhora disse o que a minha avó – e suponho que todas as nossas avós – dizia às filhas: “Tempo dado a Deus nunca é perdido”. Quanta sabedoria a destas mulheres…

Duas Igrejas já nos é, de algum modo, familiar. Nos últimos dois anos, o padre António Augusto Ferreira Pires convidou-nos diversas vezes para pregar na festa de Nossa Senhora do Monte e de Nosso Senhor dos Passos. E, se o sermão não é acompanhado de olhares que se cruzam e criam memórias, onde a palavra se entrelaça com os braços de carne e osso habituados ao trabalho duro da terra, o sermão terá sido mais proveitoso à vaidade do pregador do que à alma do santo povo de Deus. A missão, ou é feita “olhos nos olhos, coração a coração”, como lembravam os nossos bispos há uns anos, ou não é missão.

No final da oração, uma senhora, ainda a fazer o luto da mãe e de uma tia que falecerem no início do ano, veio pedir que nos alegrássemos com ela porque lhe nasceu a primeira bisneta.

A caminho de Picote, ao descer a colina, a paisagem dá-nos a conhecer as origens do olhar meigo e contemplativo de monsenhor Adelino Fernando Paes, vigário-geral da diocese. Mesmo junto à igreja, um pequenino lago, num pequenino jardim com algumas pequenas roseiras e uma pequena oliveira, tudo pequeno para grandes almas de Deus, pensei eu; a água cai pausadamente, quase gota a gota, como que nos dizendo que para saborear aquela terra e as suas gentes é preciso sentar demoradamente e escutar. Por isso, sentei-me num comprido banco de pedra ali próximo.

Surpresa feliz! Monsenhor Adelino estava na igreja paroquial à nossa espera. No final, antes de nos dar a benção, disse aos seus conterrâneos que, “800 anos depois, São Francisco de Assis passou por Picote”. Tivemos de conter as lágrimas, por sabermos que isso está longe de ser verdade, mas felizes por termos a oportunidade de o tentar, ao menos vivendo na itinerância desejada por Francisco para os seus frades, junto de um povo que mal conhece os Capuchinhos, ao contrário de outras comunidades onde estamos presentes há muitas décadas. Ao entrar na caravana, cantamos:

Hoje São Francisco podes ser tu
posso ser eu também.
Hoje Deus precisa da nossa voz
para anunciar a Paz e o Bem!

A igreja de Atenor é pequenina mas muito bonita. As pessoas contaram-nos que os voluntários da “Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino” (AEPGA) e os visitantes, muitos estrangeiros, que querem ver a raça autóctone dos Burros de Miranda, são os únicos que trazem movimento à aldeia.

Em seguida, paramos numas bombas de combustível para cozinhar e descansar um pouco. Está um dia quente. Antes de continuarmos viagem, a dona das bombas ofereceu-nos um café cheio de simpatia.

De tarde, percorremos algumas paróquias da Unidade Pastoral Senhora do Caminho: Urrós (Santa Maria Madalena), Brunhosinho (Nossa Senhora da Assunção), Travanca (Nossa Senhora da Assunção), Sanhoane (São João Baptista), Tó (Santa Maria Madalena), Ventozelo (Nossa Senhora da Assunção), Peredo de Bemposta (São João Baptista) e Bemposta (São Pedro).

Em Urrós, terra onde já fizemos um curso bíblico, encontramos poucas pessoas porque a maioria foi para as vindimas. Aqui e sobretudo um pouco mais a sul, quem manda nos dias e nas horas desta gente é a Sogrape que, ainda por cima, faz o preço que quer. É a lei da oferta e da procura, diz-se. A Primeira Carta do apóstolo São Paulo a Timóteo (Cf. 1 Tm 3,1-13), escutada neste dia, lembra a “quem aspira a um cargo de governo na Igreja”, que “não deve ser dado ao vinho”, mas creio que aqui ninguém aspira a esses cargos, apenas ao “pão nosso de cada dia” e à visita mais frequente dos netos.

Em Peredo de Bemposta, estava o cónego Dino dos Santos Parra, e um bom número de fiéis, à nossa espera. Ele trabalhou grande parte da sua vida em Macau, onde conheceu muitos sacerdotes timorenses, também nossos conhecidos. Está prometido um café mais demorado noutra ocasião.

Em Bemposta, estacionamos a autocaravana abaixo da casa paroquial e jantamos no Centro Social Paroquial com o padre Pedro Samões e a Dra. Sofia, já os idosos estavam a descansar, exceto dois que assistiam a um jogo de futebol na televisão e de vez em quando se manifestavam marcando golos com as bengalas.

20250916_Vila Chã Foto Hermenegildo Sarmento

Um registo de Vila Chã. Foto © Hermenegildo Sarmento

17 de setembro, quarta-feira

No sétimo dia, terminamos as paróquias da Unidade Pastoral Senhora do Caminho: São Martinho do Peso (São Martinho), Macedo do Peso (São Bartolomeu), Penas Róias (São João Baptista), Azinhoso (Nossa Senhora da Natividade), Soutelo (Santa Engrácia), Vale da Madre (São Brás), Remondes (Santa Catarina), Brunhoso (São Lourenço) e Paradela (São Pedro), confiadas ao Pe. Duarte Gonçalves. Mogadouro (São Mamede), Variz (Santo Antão), Castanheira (Santo André), Saldanha (São Nicolau), Vila de Ala (Nossa Senhora da Assunção) e Vila dos Sinos (Nossa Senhora da Assunção), confiadas ao Pe. Nelson Pinto. Bruçó (Nossa Senhora da Assunção), Vilar do Rei (São Pedro), Vale de Porco (São Brás), Figueira (São Miguel), Estevais (São João Baptista), Meirinhos (São Bento), Valverde (São Sebastião) e Castelo Branco (Nossa Senhora da Assunção), confiadas ao padre Paulo Jorge.

Em São Martinho do Peso, um senhor quis ensinar-nos uma cantiga que aprendeu com um amigo:

Ó milagroso São Martinho
que governais tanta gente
fazei-me das pedras vinho
e dos calhaus aguardente.

Como ainda era cedo para a aguardente, seguimos para Macedo do Mato, para uma igreja dedicada a S. Bartolomeu. À saída, uma senhora chorava porque sentia que a sua aldeia já não era cristã, que as pessoas viviam como se Deus não existisse. Em certo sentido, Nietzsche tinha razão ao dizer que “Deus está morto… nós o matámos!”

Em Remondes, encontramos um grupo muito grande e animado de fiéis. Em Brunhoso, os fiéis ficaram em casa, talvez pelo calor que se fazia sentir. Num tanque de água, próximo da igreja, um cachorro fazia-nos inveja. Já na igreja de Paradela, estava um pequenino grupo de pessoas, animadas pelo presidente da Junta de Freguesia, que, noutros tempos, foi seminarista da Ordem Hospitaleira de São João de Deus. Em Variz, só apareceu o sacristão, para dizer que toda a gente estava nas vindimas. Não o querendo desenganar, não lhe dissemos que acabáramos de passar pelo café que tinha a esplanada cheia de gente.

Entre Castanheira e Saldanha, os campos de aveia e feno oferecem-nos horizontes largos, mas que se parecem estreitar demograficamente cada vez mais.

Em Vila de Sinos, o portão da igreja estava fechado a cadeado, mas os sinos não tardaram a fazer-se ouvir com o balançar dos corpos das vacas trazidas ao tanque por uma velhinha e o filho a quem obedeciam:

é praali upa upa
é praali upa

Antes de chegarmos a Estevais, o negro de que se veste a floresta fazia-nos tentar imaginar o terror que aquela gente viveu em meados de agosto. O senhor Jorge garantiu-nos que, em apenas sete minutos, várias projeções fizeram tudo pegar fogo à volta da aldeia: floresta, árvores de fruto, hortas, animais, três casas de segunda habitação, um reboque e uma carrinha. Números que seguem para as seguradoras e para os meios de comunicação social. Fica a solidão, agora ainda maior. A dona Josefina, que perdeu o marido há um ano, abraçou-nos a chorar, como se o hábito franciscano-capuchinho pudesse ser porto de abrigo neste mar de cinzas. Oferecemos-lhe um terço missionário. Ofereceu-nos uma lição de esperança.

 

18 de setembro, quinta-feira

O oitavo dia foi dedicado à Unidade Pastoral Senhora dos Montes Ermos, que inclui as paróquias de Lagoaça (Santo Antão), Fornos (Santa Eulália), Mazouco (Santo Isidoro de Sevilha), Freixo de Espada à Cinta (São Miguel), Poiares (São Pedro), Ligares (São João Baptista), Urros (São Bartolomeu) e Peredo dos Castelhanos (São Julião).

Também neste dia, a paróquia a que dedicámos mais atenção foi a de Mazouco, onde deflagrou um incêndio no passado dia 29 de agosto. Próximo da aldeia, fica o Miradouro do Colado, com um baloiço instagramável. Parámos para chorar com as pessoas; recusámo-nos a fazer fotos. Não dá para imaginar o sofrimento de quem terá de começar do zero. Uma e outra vez. Nem dá para imaginar a quantidade de animais selvagens que terão morrido e os ninhos que se desfizeram em pó. Ver na televisão a floresta a arder é difícil; mas, para esta gente, perder a floresta é como perder um dos seus. Agora precisam de fazer o luto.

Na paróquia de Ligares, encontrámos um grupo de timorenses que aqui trabalham na agricultura e parecem muito bem integrados na comunidade.

Passámos a noite no parque para autocaravanas de Torre de Moncorvo. Foi difícil suportar o calor que se fez sentir, a fazer lembrar, quase chegados ao outono, as noites mais quentes do verão.

 

19 de setembro, sexta-feira

O nono dia foi dedicado à Unidade Pastoral São José, que inclui as paróquias de Mós (Nossa Senhora da Incarnação), Carviçais (Nossa Senhora da Assunção), Souto da Velha (Santo Ildefonso), Felgar (São Miguel), Torre de Moncorvo (Nossa Senhora da Assunção), Açoreira (São João Evangelista), Cabeça Boa (São Brás), Cabeça de Mouro (Nossa Senhora das Neves), Lousa (São Lourenço), Castedo (São Miguel), Vide (São Lourenço), Horta da Vilariça (São Sebastião) e Junqueira (São Filipe).

Ao longo do dia, a única igreja que encontrámos aberta foi mesmo a de Torre de Moncorvo, talvez por ser Monumento Nacional.

Na Praça Francisco Meireles, sentámo-nos na esplanada de um café com um grupo de timorenses com quem nos cruzámos por acaso. Ficámos impressionados com a quantidade de pessoas que por ali andavam, a fazer lembrar o movimento de cidades bem maiores. Também as Testemunhas de Jeová faziam o seu trabalho.

 

20 de setembro, sábado

O décimo dia foi dedicado às paróquias da Unidade Pastoral Bartolomeu dos Mártires confiadas ao padre Ivo Gilberto Ferreira Fernandes: Vales (Santa Cruz), Soeima (São Pelágio), Gebelim (São Martinho), Agrobom (São Miguel), Valpereiro (Santo Apolinário), Vilarchão (Nossa Senhora da Assunção), Parada (São Tiago), Sendim da Ribeira (Espírito Santo), Santa Justa (Santa Justa), Vilarelhos (São Tomé), Pombal (Santa Marinha), Vilares da Vilariça (Santa Catarina) e Sambade (Nossa Senhora da Assunção).

O pároco acompanhou-nos do início ao fim. Por onde passámos, via-se que as pessoas estavam avisadas e preparadas. Sabiam que era uma passagem muito breve mas cheia de significado e não queriam ficar alheios a este sinal de comunhão.

Em Vilar Chão, almoçámos juntos na autocaravana, e, depois, fomos à garagem de uma casa ali ao lado provar a aguardente, que faz parte da cultura desta gente.

Depois de um dia muito longo e intenso, celebrámos juntos a Santa Missa na igreja paroquial de Sambade.

 

21 de setembro, domingo

20250921_igreja_valverde_alfandega Foto Hermenegildo Sarmento

Na Igreja de Valverde. Foto ©  Hermenegildo Sarmento

O décimo primeiro dia foi dedicado às restantes paróquias da Unidade Pastoral Bartolomeu dos Mártires: Cerejais (São Paulo), Sendim da Serra (São Lourenço), Alfândega da Fé (São Pedro), Valverde (Nossa Senhora da Encarnação), Eucísia (São Paio), Gouveia (São Bartolomeu), Picões (Nossa Senhora de Fátima) e Ferradosa (Santo Amaro).

Já há muito que sabíamos que o padre Manuel Ribeiro não poderia estar connosco, pois tinha algo agendado há muitos meses, mas foi impecável na preparação da nossa visita às suas paróquias e pediu-nos que celebrássemos a eucaristia em Cerejais, às 09h00, em Sendim da Serra, às 10h00, e em Alfândega da Fé.

De tarde, visitámos as comunidades restantes, sempre na companhia das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, que colaboram com a Fundação Cónego Manuel Joaquim Ochôa, no Santuário do Imaculado Coração de Maria, em Cerejais.

A viagem, entre aldeias, esgotou o nosso portfólio de músicas franciscanas e, ao passarmos por um pastor com o seu rebanho, parámos para louvar o Senhor!

Louvado sejas, ó meu Senhor! (4x)
Pelos campos, os vales e os montes,
percorridos por formosas ovelhas,
que nos dão o leite, o queijo e a lã,
tudo é bio e é tão bom!

 

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