Ensaio

É preciso transver o mundo

| 15 Ago 2021

Agora é só puxar o alarme do silêncio
que eu saio por aí a desformar [1]

 

O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.

Cuaresma III © Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza.

 

O poeta brasileiro Manoel de Barros convida-nos a um exercício de imaginação.

O horizonte da nossa visão e da nossa imaginação está intimamente ligado a uma riqueza interior. E é igualmente verdade que o que somos é fruto do amor de muitas pessoas que fazem parte da nossa história. O olhar dos outros amplia o nosso olhar. Permitam-me que hoje evoque a memória de duas mulheres que pertenceram ao Metanoia e que enriqueceram pela sua amizade o meu olhar sobre a vida: Maria Adelaide Pinto Correia e Maria da Conceição Moita. Evocando estas duas mulheres que viveram a urgência de transver o mundo, quero também agradecer a amizade de outros associados do Metanoia, alguns dos quais conheço desde o meu tempo de estudante, quando descobri que existia uma revista chamada Viragem. Este preâmbulo serve para dizer que, de alguma forma, me sinto em casa para viver este dia convosco num exercício partilhado de imaginação.

 

De que trata, afinal, esta intervenção?

Proponho-me repensar convosco o compromisso com o outro e a criatividade a que esse compromisso nos desafia. Como podemos contribuir para a construção de um mundo mais fraterno onde todos efetivamente tenham lugar? O Paulo Melo, membro da equipa de preparação deste ERT, propunha a certa altura a construção de uma espiritualidade de ação. Parece-me uma boa designação para este percurso. O breve vídeo-documentário sobre o poema de Manoel de Barros mostra-nos que a realidade tem inscrita possibilidades que, à primeira vista, não se veem. Estão lá, mas não as vemos. No meu entender, apoiado numa leitura do Evangelho, a experiência da vulnerabilidade amplifica o nosso espaço interior, permitindo-nos começar a ver onde antes não víamos, fundamentalmente porque mais despertos e mais atentos para tudo o que é pobre e vulnerável. O vídeo mostra-nos que há beleza nas ruínas. Creio que transver é descobrir essa beleza.

 

Habitamos um tempo complexo, cheio de contradições, onde coexistem movimentos multidirecionais. Mas não serão assim todos os tempos e todas as vidas? Assistimos ao regresso de intolerâncias e radicalismos, de discursos agressivos no espaço público, onde se apela claramente à exclusão do outro ou pelo menos de alguns, os considerados indesejáveis. Dizer que somos todos irmãos e irmãs e assumir estilos de vida consequentes com esta verdade que nos foi revelada por Jesus assume neste tempo uma especial força profética. Paralelamente, na recente experiência da pandemia, uma vulnerabilidade vivida à escala global, assistimos a uma mobilização comunitária significativa, ainda que se trate de um fenómeno relativamente efémero. Essa força convergente de cuidado pelo outro está presente na vida das pessoas e é suscetível de ser ativada por contágio e de se expressar também no espaço público. Este também é um tempo de muitas solidariedades. Como lemos esta realidade? O que nos leva a excluir e o que nos leva a abraçar?

 

Como já referi, a imaginação que transvê o mundo brota da abundância de vida que habita cada um. Nós vemos sempre a partir do lugar em que nos encontramos, a partir da nossa própria história e experiência. O nosso olhar nunca é completo, é sempre parcial, daí a importância de que este exercício possa ser partilhado e, eventualmente, assumir expressões comunitárias. A força da expressão é preciso transver o mundo pode induzir-nos a uma ação imediata. Porém, permitam-me que vos convide, como ponto de partida, para um olhar contemplativo, demorado, que se disponibiliza para ver mais fundo. Um olhar que começa em nós, na nossa própria história, para nela acolher o outro. O que é novo, o que é profético, só pode nascer dentro de nós, lugar de germinações, terra habitada pelo Espírito. O coração humano é o lugar de todos os nascimentos. Digo coração humano no seu sentido bíblico: sede das forças vitais, interioridade, centro das opções decisivas, morada do Espírito e, portanto, lugar do encontro com Deus.

A experiência da vulnerabilidade é o caminho mais direto para nos conduzir, sedentos, ao coração.

Cuaresma IV © Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza

A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um
formato de pássaro.

Sublinho nestes versos: derrota, alma atormentada e força de um artista. Leio aqui uma relação entre vulnerabilidade e criatividade. Escutemos a filósofa e mística Simone Weil:

Não é apenas o amor a Deus que tem por substância a atenção. O amor ao próximo, que sabemos ser o mesmo amor, é feito da mesma substância. Os infelizes não precisam de outra coisa neste mundo que de homens capazes de lhes prestarem atenção. A capacidade de prestar atenção a um infeliz é coisa muito rara, muito difícil; é quase um milagre; é um milagre. Quase todos os que creem ter esta capacidade não a têm. O calor, o ímpeto do coração, a piedade não são suficientes. (…)

A plenitude do amor ao próximo é simplesmente ser capaz de lhe perguntar: “Qual é o teu tormento?” É saber que o infeliz existe, não como uma unidade numa coleção, não como um exemplar da categoria social etiquetada “infelizes”, mas enquanto homem exatamente semelhante a nós, que foi um dia atingido e marcado com uma marca inimitável pela infelicidade. Para isso é suficiente, mas indispensável, saber pousar sobre ele um certo olhar. Esse olhar é em primeiro lugar um olhar atento, em que a alma se esvazia de todo o conteúdo próprio para receber nela mesma o ser que olha tal como ele é, em toda a sua verdade. Disto só é capaz aquele que é capaz de atenção.[2]

 

O outro é um ser humano exatamente semelhante a nós. Somos capazes de dizer isto de todos os seres humanos? O que nos faz interessar-nos pelo tormento do outro? O que faz com que o samaritano repare no homem maltratado e se aproxime dele com compaixão? Onde está a origem deste movimento, que começa por ser interior e logo se transforma em ação? Para Simone Weil tudo começa num olhar atento, que permite ver o outro tal como é. Como é possível ver o outro como ele é?

 

Intuo que a nossa fé está profundamente ligada a uma pergunta, mais ou menos submersa dentro de cada um de nós: «Qual é o teu tormento?» (medos, angústias, feridas, memórias difíceis, culpa…) O que decorre desta pergunta, quando acolhida, é um segredo entre nós e Jesus, uma história de intimidade, a raiz da nossa esperança, a possibilidade de nos mantermos de pé contra toda a previsibilidade e a insubmissão ante toda a visão derrotista da humanidade. Creio que a experiência do nosso “tormento” está na raiz do nosso encontro com Jesus (ou do aprofundamento da nossa relação com Ele), e que é esta experiência que abre o nosso olhar para o tormento do outro, acolhendo-o e não julgando-o, criando empatia e compreensão.

 

O nosso tormento exposto aos olhos de Jesus deixa de ocupar o nosso coração como um ruído ensurdecedor, libertando-o, criando nele um lugar de hospitalidade para o outro. E mais: o que antes era uma pedra de tropeço é agora sacramento de um encontro amoroso. O melhor lugar que temos para oferecer a outro, sobretudo ao infeliz, é o lugar do encontro do nosso tormento com a graça divina. A pergunta «Qual é o teu tormento?» vai escavando no nosso corpo a morada de Jesus, e n’Ele os nossos olhos vão aprendendo movimentos demorados e profundos, vão aprendendo compaixão, tornando-se capazes de transver o mundo. Haverá maior compaixão do que a atenção, tal como a define Simone Weil: «um olhar atento, em que a alma se esvazia de todo o conteúdo próprio para receber nela mesma o ser que olha tal como ele é, em toda a sua verdade»?

 

Olhar o outro tal como ele é, na diversidade das forças que o habitam, entre sombras e luz, só é possível a partir de um olhar atento sobre nós próprios. Escondidos de nós próprios não podemos sentir-nos próximos de ninguém. Só a partir de baixo, do nosso chão, no reconhecimento da própria indigência, a fraternidade pode ganhar corpo. Eu não me faço irmão do outro, eu descubro-me irmão do outro. Só alguém que se sente profundamente amado na sua nudez pode ter uma visão de esperança sobre a humanidade.

Semana Santa © Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza

 

Não é nada óbvio, embora nos custe muito admiti-lo, que nos sintamos um como todos os outros. Tal só é possível para alguém que atravessou os vales sombrios da vida e tocou o seu nada, para alguém que já tenha feito um percurso de reconciliação com a sua história (processo nunca terminado), de tal modo que todas as misérias que possa identificar nos outros seres humanos não as sente como alheias.

 

Assumir a própria vulnerabilidade é um dos melhores dons que podemos oferecer aos outros. Uma pessoa que se reconhece vulnerável e que tem a experiência de ser amada incondicionalmente transforma-se numa casa aberta para todos os feridos da vida, para todos, mesmo para aqueles que teimamos em deixar de fora: os que corrompem e exploram, os que matam, os que abusam e violam, os que apregoam a intolerância, todos aqueles cujas feridas se transformaram em violência e com quem temos tanta dificuldade em empatizar.

 

O cristianismo não é uma religião, mas a revelação da metamorfose da humanidade, que é gerada de novo pelo Crucificado vivo. A sua compaixão é tão impressionante que subverte toda a categoria da lógica.

Ele está presente no ser humano que é injustamente morto e no ser humano que mata. Porque também o ser humano que mata tem uma fragilidade que talvez nem sequer conheça. Tudo quer salvar. Assim estava dentro da ferida de Saulo, quando torturava os cristãos e os obrigava a blasfemar e os matava. «Saulo, Saulo, porque me persegues?» … e Saulo vê em si mesmo aquele misterioso Cristo, a Saulo aparece o mistério da salvação. Precisamente a ele, o assassino.

(…) Ele está agora, em cada instante do tempo, na cruz onde está o assassino, o ladrão, o condenado por qualquer crime, Ele que «se fez pecado». É precisamente na fragilidade que está a força (S. Paulo: «Basta-te a minha graça, a força manifesta-se plenamente na fraqueza»). Enquanto nós queremos fugir do nosso medo, da nossa angústia, dos nossos terrores, das nossas feridas. Mas precisamente aí, do lugar de onde queremos fugir, oculta-se algo de maravilhoso, uma resposta. A resposta está dentro da fragilidade, não fora.[3]

 

O desejo de aproximar-se do outro, especialmente do mais pobre, cresce, porque, a partir da própria experiência, cresce o amor ao que é pequeno, ao que não conta, ao que habitualmente fica de fora, esquecido ou julgado.

Os discípulos de Jesus testemunham que o seu mestre veio para os doentes e para os pecadores, testemunham que Deus faz chover sobre justos e injustos e que o trigo e o joio devem crescer juntos sem precipitações para fazer justiça. Porém, este testemunho só pode nascer de uma experiência vivida na primeira pessoa. O Evangelho faz-se vida, liberdade, convocação, no nosso próprio corpo. Com esta memória inscrita na carne, a memória da libertação, o tormento do outro é o nosso tormento, e o compromisso com o outro decorre de uma abundância interior. É o Espírito de Jesus que nos faz criativos.

Jueves Santo © Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza

 

Comecei esta reflexão por referir a relação que Manoel de Barros estabelece entre tormento, derrota e a força de um artista. Pensemos a vida de Jesus sob estes aspetos. Não encontramos aqui a experiência pascal? Jesus, na nossa carne, desce até ao profundo do tormento de cada ser humano, vive uma derrota, porém a força do amor que o move é mais forte que a morte e faz-nos subir com ele à vida.

[Dado que o texto foi apresentado por videoconferência, neste momento da exposição projetou-se o vídeo Ascension de Bill Viola]

 

Não use o traço acostumado
Puxar o alarme do silêncio

O que é que o silêncio pode trazer de novo, de modo a não ficarmos reféns do traço acostumado?

A fraternidade é fruto de um trabalho interior. Só dentro de nós podemos descobrir uma casa ampla, aberta, onde há lugar para todos. Não há uma oposição ou divisão entre interioridade e exterioridade, senão uma continuidade. O espaço que descobrimos e habitamos dentro de nós e a forma como o habitamos tem uma relação direta com a forma como habitamos o mundo. A cidadania é um assunto eminentemente espiritual. A vida em comum não é possível sem o aprofundamento da interioridade. A partir de dentro tudo está unido: a minha vida está vinculada aos outros e à Natureza (veja-se a experiência de São Francisco de Assis, para quem todos os seres eram irmãos). Em paz connosco, somos mais sóbrios e mais solidários, respeitamos o espaço do outro e a existência das coisas, e alegramo-nos por viver em relação. A abundância interior traduz-se num estilo de vida sábio.

 

Poucas coisas na vida contribuem para criar mansidão, compreensão e empatia dentro de nós como a solidão. Os místicos, os contemplativos, os poetas, os filósofos e as pessoas com sensibilidade, mostraram-nos isto, dizendo-nos como na experiência dos nossos atribulados corações solitários, podemos chegar à compreensão e à empatia, porque podemos reconhecer aí os fios que podem manter unida a comunidade humana e as forças que podem dividi-la. Entendendo o nosso próprio coração com todas as suas complexidades e ambiguidades, aspirações nobres e capacidades altruístas e com toda a sua malícia e ambição potencial, chegamos a entender-nos mais plenamente e a entender melhor o mundo em que vivemos. Empatia e compreensão nascem do fundo mais profundo e solitário lugar de nós, porque é ali onde o que é mais pessoal é também mais universal. Entendemos os outros quando nos entendemos a nós mesmos.[4]

 

O mais pessoal é também o mais universal: só o que se reconhece pobre pode acolher a pobreza do outro. Há uma relação entre interioridade, vulnerabilidade e compaixão. A compaixão é a linguagem da fraternidade.

 

A compaixão: estar com o outro na sua dor (pathos). A partir da própria experiência, colocar-se no lugar do outro. Não de cima para baixo, senão de igual para igual (fraternidade). A compaixão traduz-se numa presença consoladora e construtiva e renova o sentido de pertença: eu estou indelevelmente unido ao outro (seja quem for) e ao Cosmos.

A compaixão encaminha-me progressivamente para as margens, para o que habitualmente não se vê e não conta.

Sábado Santo © Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza

 

É preciso desformar o mundo:
Tirar da natureza as naturalidades. 

A marginalidade, como lugar social em que se gera uma visão alternativa da vida e da realidade, leva-nos ao mais originário do cristianismo. Jesus foi um judeu marginal. Uma condição que ele aceitava de forma consciente como lugar de criatividade. Para ele, a realidade podia ser vivida de uma outra forma. Jesus viveu no meio das pessoas, mas distanciou-se de muitos dos valores dominantes do seu tempo. Para ele, o que se considerava puro corria sérios riscos de impureza, o mais pequeno era o maior, ricos eram os pobres, os últimos eram os primeiros. Com a sua forma de vida, com o seu agir e a sua mensagem, abriu a perspetiva de um espaço novo, de relações sociais radicalmente alternativas, a que ele chamava Reino de Deus.

 

A experiência cristã teve desde os inícios a sua peculiaridade: ser um encontro com Jesus que, em simultâneo, abre ao mistério de Deus e à concretização do seu Reino na história. É uma experiência de cura e de reconciliação, de gozo e de paz, que se completa na atenção à História e na responsabilidade que nela temos. O cristianismo une mística e compromisso com o outro. Hoje, na grande diversidade da oferta espiritual que está ao dispor de todos, afirmar e viver a inseparabilidade da experiência mística e do compromisso com o outro é um gesto profético.

Não sendo do mundo, Jesus não só não nos retira do mundo como nos quer comprometidos com a vida da polis: Não peço para que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. Eles não são do mundo, tal como eu não sou do mundo. Santifica-os na verdade: a Tua palavra é verdadeira. Tal como me enviaste para o mundo, também eu os enviei para o mundo (João 17,15-17), sem perder de vista a morada interior: Se alguém me tem amor, há-de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amará, e Nós viremos a ele e nele faremos morada (João 14,23).

 

O reino de Deus foi o símbolo que Jesus de Nazaré utilizou para proclamar a presença do que ele qualificava como uma boa notícia da parte de Yahvé. Encontramos as suas origens na tradição profética, embora com Jesus se assista a uma ressignificação. Vejamos algumas práticas e gestos simbólicos, característicos de uma marginalidade assumida, a partir dos quais Jesus fazia uma efetiva proclamação do reino de Deus, que pode entender-se como um lugar para a imaginação de novas práticas e de novas relações e identidades:

– Jesus deixou a sua aldeia e a sua família para formar uma família mais alargada, uma comunidade aberta aos que não eram do mesmo sangue e da mesma linhagem, onde, por exemplo, as mulheres eram admitidas sem as encerrar no papel que lhes era atribuído na sua família de origem, na qual a função procriadora era fundamental. Esta nova comunidade é uma fraternidade, onde as relações são horizontais. A própria família de Jesus não compreende o que está a acontecer, pensam que ele está louco. Eis a tua mãe e os teus irmãos que lá fora te procuram. (…) «Quem é a minha mãe e os meus irmãos?» E, percorrendo com o olhar os que estavam sentados em volta, diz: «Eis a minha mãe e os meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.» (Marcos 3,32-35) Jesus amplifica o sentido de família tornando-a plural e inclusiva, muito para além dos laços de sangue.

– A refeição era um lugar privilegiado para formar o reforçar os sentimentos e pertenças grupais. A promessa de Deus, já nos profetas, apresenta-se sob o símbolo de um grande banquete. No tempo de Jesus a comensalidade regia-se por regras estritas de separação como forma de proteger e reforçar os limites das identidades grupais. No movimento à volta da pessoa de Jesus a comensalidade é aberta e inclusiva, convertendo-se no lugar onde se oferece e se experimenta a salvação gratuita e universal de Deus. Como reação a este tipo de prática subversiva e na tentativa de retirar crédito à pessoa de Jesus, os escribas chamam-lhe comilão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e de pecadores (Mateus 11,19). A prática de Jesus, na perspetiva dos escribas, entrava em conflito com a Torá e com a vontade de Yahvé nela manifestada.

– O domínio e a opressão eram características de quem exercia o poder, não só ao mais alto nível político mas também entre vizinhos e até entre membros do mesmo grupo familiar. Quando a questão aparece numa conversa entre os discípulos, Jesus diz-lhes: Sabeis que os considerados príncipes dos pagãos são prepotentes com eles, e que também os grandes deles abusam do seu poder. Não é assim convosco. Mas quem quiser ser grande entre vós será vosso criado e quem quiser ser o primeiro entre vós será escravo de todos, pois também o Filho da Humanidade não veio para ser servido, mas para servir…» (Marcos 10,42-45). O reino de Deus supõe uma lógica diferente nas relações, e essa conversão do olhar procede do situar-se de Jesus a partir das margens, propondo como valor uma atitude que o centro considerava um anti-valor, conduzindo ao desprezo de quem a punha em prática: o serviço. Esta é a razão pela qual Pedro, no gesto do lava-pés, rejeita Jesus como servidor. O serviço era próprio das mulheres e dos escravos. A própria vida de Jesus, ao identificar-se com os últimos, é uma encarnação deste valor.

– A Lei era uma coluna intocável na estruturação da sociedade judaica. Para Jesus, diante da dor do outro não há lei que se sobreponha à misericórdia. Vemo-lo, por exemplo, nas curas em dia de sábado, porque o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. (Marcos 2,27) «É permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar uma vida ou matá-la?» Eles ficaram calados. Então, olhando-os com cólera e entristecido com a dureza dos seus corações, Jesus diz ao homem: «Estende a mão.» E estendeu a mão e assim ficou curada. (Marcos 3,4-5)

Pascua © Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza

– Em Lucas 12,13, alguém do meio da multidão diz a Jesus: «Mestre, diz ao meu irmão que reparta a herança comigo.» Ele respondeu: «Homem, quem me nomeou juiz ou encarregado das vossas partilhas?» E disse-lhes: «Olhai, guardai-vos de toda a ganância, porque a vida de alguém não consiste nas suas posses.» E o texto continua com a parábola do homem rico cuja terra deu uma grande colheita. Ainda que legalmente a herança de terras pudesse ser repartida, para não dividir as propriedades a tradição promovia a prática de herdar exclusivamente o primogénito. A parábola entende-se no contexto da política de concentração de terras. Jesus chama a atenção para a cobiça e propõe uns valores que não eram nada hegemónicos: partilhar e abrir as fronteiras da solidariedade mais além dos laços familiares. Jesus questiona e põe em crise o sentido da propriedade. Não estar preocupado com o ter ajuda a partilhar e a adquirir uma liberdade criativa, que possibilita que se torne realidade esse lugar imaginado do reino de Deus.

Há uma abundância interior que gera um grande desprendimento na relação com as coisas. Não se desvalorizam, ao contrário: tudo se agradece, mesmo as coisas mais simples, a que frequentemente não se dá importância. O que perde relevo é o sentido da propriedade e da acumulação. A sobriedade aparece como algo natural, como algo que brota do coração e não como uma imposição moral. Interioridade e sobriedade estão intimamente ligadas. Quem descobre a alegria de ser habitado, abre-se ao exterior com renovada capacidade de assombro e de partilha.

A sobriedade expande o horizonte da realização da vida humana, quer individual quer coletivamente. A sobriedade gera um campo aberto, livre, desocupado, que convoca o coração humano e a sua sabedoria. Permite-nos descobrir as fontes mais fecundas do nosso ser, a nossa originalidade e a nossa criatividade. Precisamos de espaços livres para nos encontrarmos connosco e com os outros. Espaços livres que convoquem o que é mais genuíno em nós. A festa verdadeira nasce no coração de cada ser humano e ilumina tudo o que está ao seu redor. Somos habitados por uma vida sábia, que talvez ainda não conheçamos ou que a pressa e o muito ruido interior não nos permitam encontrar. «Vela com todo o cuidado sobre o teu coração, porque dele jorram as fontes da vida» (Provérbios 4,23). Há uma relação entre interioridade, sobriedade e sabedoria.

A vida marginal de Jesus nasce da sua experiência de vida entre os últimos. É a partir do que é mais frágil que ele olha o mundo. Também daí nasce a sua visão sobre um Deus que faz chover sobre justos e injustos e que tem um olhar preferencial para o pobre e o pecador, um Deus que não apaga a torcida que ainda fumega ou que não quebra a cana já fendida. A experiência do que em nós não queremos ver e habitualmente marginalizamos, a experiência da própria vulnerabilidade, quando aceite e amada, expande o nosso coração, alarga o nosso olhar sobre o mundo e a nossa visão sobre Deus, cria em nós uma sensibilidade para tudo o que é vulnerável e que habitualmente não conta, e convoca a nossa imaginação e criatividade. Na origem do convite para uma vida marginal não está uma adesão ideológica, senão uma experiência que liberta a vida.

Pentecostes © Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza

Marginalidade (estilo de vida) ativa a criatividade (é preciso transver o mundo). Eleger as margens como ponto de mira. O que em mim é pobre, quando assumido e amado (e vivido com gratidão), aproxima-me da pobreza do outro. Escutar o outro e acolhê-lo no meu espaço de pobreza. «A opção pelos pobres deve conduzir-nos à amizade com os pobres»[5]. Oferecer ao outro a alegria da pertença, da relação, do encontro. A relação (proximidade, amizade, amor) é a mais potente energia transformadora. O que liberta e expande a nossa criatividade é sermos olhados com amor. E isto é o que precisamente experimentamos na relação com Jesus, nós e tantos outros ao longo da história. Este é o tesouro que a Igreja, através dos seus santos, transporta em vasos de barro: uma história de amor que libertou a vida, que lhe deu asas e que levou esta Boa Notícia a outros. No olhar de Jesus, o mais distante, o mais periférico, o mais perdido, ocupa o centro. Ele é o pastor capaz de um exercício arriscadíssimo: deixar noventa e nove ovelhas para se centrar no cuidado de uma única que está perdida.

Uma Igreja em saída é uma Igreja alicerçada na fé pascal e mobilizada por essa mesma experiência de fé: o Ressuscitado é o Crucificado, em Jesus, na minha história pessoal e na vida de todos os seres humanos. Não conheço expressão maior de criatividade do que a Páscoa de Jesus: onde tantos só viam morte, a vida floresceu, discreta mas luminosa, frágil mas capaz de incendiar o mundo. A força de um artista vem das suas derrotas.

Carlos Maria Antunes é monge cisterciense do Mosteiro do Sobrado, na Galiza; este texto corresponde à intervenção no Encontro de Reflexão Teológica, promovida pelo Metanoia – Movimento Católico de Profissionais, no passado dia 31 de Julho, através de plataforma digital.

 

Notas
[1] O título e subtítulos são versos do poema AS LIÇÕES DE R.Q. de Manoel de Barros, in Poesia Completa, Alfragide, Editorial Caminho, 2011, pp. 357-358.
[2] Simone Weil, Espera de Deus, Assírio & Alvim, Lisboa, 20092, pp. 105-106.
[3] Arnoldo Mosca Mondadori, O eterno olhar de Deus que nunca julga, abraça feridas e abate castelos, trad. Rui Jorge Martins, publicado em 21.07.2021 
[4] Ronald Rolheiser, El factor soledad, Narcea Ediciones, Madrid, 1981, pp. 134-135.
[5] Papa Francisco, Fratelli tutti, 234.

 

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