E se confinássemos?

| 17 Jan 21

Santuário de Fátima. 12 de Maio 2020, covid-19

Santuário de Fátima vazio, a 12 de Maio do ano passado: “A suspensão das cerimónias religiosas em regime presencial teria sido um gesto de prudência, alinhado com o que a Igreja fez” entre Março e Maio de 2020.  Foto ©  Joaquim Franco

 

A pergunta, reconheço, é desagradável.

Por um lado, atravessamos um confinamento geral, decretado com pompa e circunstância, discursos inflamados e palavras grandiosas que muito prosaicamente se gastam, à força da repetição. Por outro, a tal desígnio parecem abundar as excepções. É o e-mail que assegura que a sua loja de electrodomésticos se mantém aberta. É o alívio com que as universidades se preparam para manter presenciais as avaliações do semestre. É o regozijo com que os responsáveis das escolas vieram a terreiro louvar um governo que, conforme dizem, nelas confiou. É o consolo, enfim, das missas no horário do costume.

Estou de acordo: a possibilidade de fazer um exame a sério, mandar os miúdos à escola, frequentar os sacramentos, como dantes se dizia, quando poucas coisas outras havia para frequentar, ou até mesmo poder finalmente trocar a máquina de lavar numa grande superfície, agora que o electricista do bairro que costumava dar-lhe um jeito confinou de facto, não são coisa de somenos. Vem-me à memória uma rábula do Ricardo Araújo Pereira ao então omnipresente comentador, e hoje ainda omnipresente Presidente da República: “é proibido, mas pode-se fazer.” Ou, mais rigorosamente, já que nenhuma dessas excepções é proibida agora, “dever, não deve, mas pode-se fazer”.

Inclinado, como é meu hábito, a confiar nas explicações científicas, e até mesmo na humilde incerteza que toda a séria certeza tem, aceito, evidentemente, que estamos a percorrer o caminho mais seguro para limitar a tragédia e assegurar, tanto quanto possível é prever, uma evolução favorável. Igualmente convicto da boa-fé, rectidão de motivos e sentido do serviço público de quem, em tempos tão difíceis, tem conduzido o país, não me resta qualquer paciência para opiniões avulsas ou teorias da conspiração.

Quando, em Março passado, o primeiro confinamento foi decretado, procurei, como toda a gente, adaptar o meu quotidiano e prosseguir as obrigações profissionais com a normalidade possível. Em poucos dias, as aulas mudaram-se para salas virtuais; as conversas com os alunos multiplicaram-se à distância, por vezes noite dentro; as avaliações, na ausência do velho exame, tiveram de se reinventar. Perdeu-se muito? Claro. Não tanto os conteúdos, talvez, mas certamente alguma teatralidade que toda a aula muito pedagogicamente tem. E, sobretudo, as conversas de corredor, a vida do campus, as discussões com os alunos em torno de uma folha de papel para entender um problema ou tornar a prova de um teorema mais bonita (para o leitor de outros domínios, fica o esclarecimento: também em matemática a beleza é o mais certo critério). Sim, perdeu-se muito. E em outras áreas perdeu-se muito mais. Muitíssimo mais.

E, no entanto, havia no ar a convicção de um sacrifício colectivo em nome de um valor maior – a capacidade de o Serviço Nacional de Saúde (SNS) responder eficazmente a uma emergência difícil. E um orgulho até no que em comum conseguíamos fazer.

Mantenho hoje a mesma convicção e o mesmo orgulho. Acresce um respeito ainda maior pelo SNS – é bem verdade, só damos valor ao que colectivamente temos quando a morte ronda. Só então percebemos a vacuidade de certos devaneios neoliberais que insistem em confundir a coisa pública com o quintal, ia a dizer, o hospital, das traseiras.

Não sei se o estado de confinamento pleno de excepções que há poucos dias se iniciou é o mais adequado à situação catastrófica que atravessamos. A opinião no interior da comunidade científica parece não ser unânime, mas esse é um debate em que não sei entrar.

Sei apenas que quanto mais rigorosos, pessoal e colectivamente, formos, mais depressa se poderá ultrapassar este deserto, e com menos custos em vidas e em vida.

Por isso, estranhei que no próprio momento em que o Governo anunciou o novo confinamento, a Igreja que está em Portugal, não tivesse logo, por iniciativa própria, vindo a terreiro, com a convicção que às vezes coloca em debates bem menores, anunciar a suspensão de todas as cerimónias religiosas em regime presencial.

Teria sido um gesto de prudência. Uma real manifestação de preocupação pela saúde e pela vida dos muitos idosos que, permanecendo abertas as igrejas, não deixarão de as frequentar (e depois, muito compreensivelmente, hão-de ficar a conversar com os amigos e voltar acompanhados para casa …).

Teria sido, também, um gesto de solidariedade para com todas as pessoas, serviços, actividades, instituições para quem o confinamento é mesmo a sério. E dói.

Teria sido um gesto alinhado com o que, e muito bem, a Igreja fez em Março. E uma oportunidade para retomar o caminho ensaiado então de recurso, na prática pastoral e celebrativa, a meios de comunicação mediados tecnologicamente. E para multiplicar, com urgência, as celebrações on-line onde nos possamos encontrar. Um longo caminho, de resto, a percorrer.

Teria sido, por fim, um gesto próprio de uma comunidade que não apenas não procura nem aceita situações de deferência ou privilégio, mas não as toma para si mesma quando lhe são permitidas, se aos outros, em torno, são vedadas. E que, por isso mesmo, se faz caminho de qualquer coisa que apenas intuímos, mas por onde passa talvez o santo sopro de Deus.

Desconheço se as comunidades cristãs serão sensíveis a estes argumentos. Em particular, ao último. Quero crer que o sejam. Afinal foi isso que, desde a catequese, nos ensinaram.

Como as comunidades têm nos seus bispos a expressão possível e mais pública do seu ser-em-comum, dirijo-lhes a pergunta: e que tal, senhores bispos, se confinássemos?

 

Luís Soares Barbosa é professor na Universidade do Minho

 

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