E se for o Vaticano a mediar o conflito crescente entre EUA e Irão?

| 6 Jan 20 | Destaques, Newsletter, Últimas

O Papa disse o óbvio neste domingo: “A guerra traz apenas morte e destruição.” E se ele se oferecer para quebrar a escalada de tensão entre Estados Unidos e Irão?…

Francisco no “vídeo do Papa” deste mês de Janeiro: nem de propósito, o tema é a paz.

 

E se, depois do que aconteceu nos últimos dias, for o Vaticano e o Papa a mediarem a escalada de tensão provocada pelo assassinato do general iraniano Qasem Soleimani por um drone dos Estados Unidos? A pergunta e sugestão foi deixada por John Allen Jr. no Crux neste domingo, 5 de Janeiro, que aponta uma série de factores que podem fazer da Santa Sé um interlocutor válido para ambas as partes.

De manhã, na alocução depois da oração do Angelus, o Papa fez um apelo sentido ao diálogo pela paz, referindo-se ao “terrível ambiente de tensão”, embora sem aludir directamente ao conflito entre EUA e Irão. “Em tantas partes do mundo sente-se um terrível ambiente de tensão. A guerra traz apenas morte e destruição. Peço que todas as partes mantenham acesa a chama do diálogo e do autocontrolo, esconjurando a sombra da inimizade”, afirmou, citado pela agência Ecclesia.

“Rezemos em silêncio, para que o Senhor nos dê esta graça”, pediu aos peregrinos presentes na praça de São Pedro. “Lembro ainda o compromisso que assumimos no início do ano, Dia Mundial da Paz: ‘A paz como caminho de esperança – diálogo, reconciliação e conversão ecológica’. Com a graça de Deus, poderemos colocá-lo em prática”, acrescentou.

Neste sábado, na sua conta na rede social Twitter, o Papa já escrevera: “Devemos acreditar que o outro tem a nossa mesma necessidade de paz. Não se obtém a paz se não se espera por ela. Peçamos ao Senhor o dom da paz!”

Nem de propósito, o vídeo promovido pela rede mundial de oração do Papa para este mês de Janeiro aponta precisamente a construção da paz como tema: “Num mundo dividido e fragmentado, quero convidar à reconciliação e fraternidade entre todos os crentes e entre todas as pessoas de boa-vontade”, começa por pedir Francisco.

No Iraque, o patriarca católico dos caldeus, Louis Raphael Sako, também avisou para o risco de o país se tornar “um campo de batalha, em vez de ser uma nação soberana capaz de proteger os seus cidadãos e as suas riquezas”.

O general Soleimani era comandante da força de elite Al-Quds e uma das principais figuras do regime iraniano. A sua morte aconteceu depois de o presidente dos EUA ter ordenado o ataque.

 

O Vaticano, melhor posicionado para intermediar

A escalada no conflito, para já, verifica-se apenas no âmbito verbal – o presidente dos EUA já ameaçou mandar destruir meia centena de lugares culturais do Irão. Neste contexto, então, porque poderiam o Papa e o Vaticano assumir o papel de mediadores, como sugere John Allen? O jornalista norte-americano recorda que os EUA e o Irão estão de relações diplomáticas cortadas desde 1980, no âmbito da crise dos reféns da embaixada norte-americana. A partir daí, as comunicações diplomáticas são feitas através da embaixada suíça em Teerão.

Num contexto em que será impossível que ambos os países restabeleçam laços diplomáticos, o editor do Crux sugere que o Vaticano pode ser o actor “melhor posicionado para intermediar uma negociação”, mesmo que isso possa parecer pouco intuitivo. E aponta: o Vaticano tem relações diplomáticas com o Irão desde 1954, 30 anos antes dos EUA; os líderes da revolução islâmica iraniana sempre quiseram ter bons contactos com o Vaticano para não ficarem um Estado-pária, como os EUA desejavam; actualmente o Irão é o segundo país com mais diplomatas credenciados junto do Vaticano; o Irão tem apreciado a orientação da política do Vaticano para a guerra na Síria, que não passa pela exigência de destituição do presidente Bashar al-Assad.

Outro elemento poderia facilitar esta aproximação: em Abril de 2019, o Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral enviou, em nome do Papa, 100 mil euros para ajuda das dezenas de milhares de iranianos atingidos por uma vaga de fortes inundações.

Do lado do Vaticano, aponta ainda John Allen, o Irão é visto como chave para uma solução da guerra síria, que passe também pela protecção da minoria cristã; e os líderes iranianos são tratados com deferência. A Santa Sé também se tem oposto a regimes de sanções económicas (como foi o caso do embargo dos EUA a Cuba ou ao Irão), avisando que as consequências caem sobretudo em cima das populações civis.

Por ironia, Francisco pode ter actualmente mais dificuldade em conseguir o diálogo com o presidente dos EUA, recorda ainda o articulista. Em diversas ocasiões, o Papa manifestou desagrado com várias das decisões políticas da actual administração dos EUA. De qualquer modo, vários líderes católicos têm influência no governo de Donald Trump.

 

Deus, o argumento mais forte

O argumento mais forte pelo qual o Vaticano poderia envolver o Irão resume-se, no entanto, a uma palavra, defende ainda o articulista: Deus.

Sendo uma teocracia, o pensamento das suas lideranças está impregnado de vocabulário religioso. Ao mesmo tempo, dentro do islão, o xiismo, dominante no Irão, tem uma classe clerical, reconhece a escritura do Alcorão e a tradição como fontes válidas, tem uma teologia do sacrifício e da expiação e a religião popular expressa-se em festas, devoções e até no equivalente aos santos – ou seja, está mais próximo do catolicismo nas suas formas de expressão. Já os sunitas seriam, neste âmbito, mais próximos do cristianismo protestante.

Com tais argumentos, John Allen sugere dois caminhos na sua análise: cartas do Papa para Trump e Ali Khamenei, o líder supremo do Irão, semelhantes às que foram enviadas em 2014 para Raul Castro, em Cuba, e Barack Obama, nos EUA, e que levaram ao restabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países. Nelas, o Papa poderia propor que o Vaticano funcionasse como intermediário entre Irão e EUA ou, pelo menos, como meio de comunicação, de modo a evitar a tomada de decisões militares irreversíveis.

Francisco também poderia enviar emissários pessoais às duas capitais, tal como João Paulo II fez em 2003, para Bagdad e Washington, tentando impedir a invasão do Iraque pelos EUA – esfoço que falhou, na época.

A outra alternativa seria o anúncio de uma visita do Papa ao Médio Oriente, para juntar autoridades dos dois países – por exemplo no Líbano, sugere ainda o editor do Crux, que Francisco já prometeu visitar em 2017, que tem laços estreitos com o Irão, mas também boas relações com os EUA – além de ter uma das maiores percentagens de população católica do Oriente Médio.

Há dois factores que John Allen não aponta e que ainda podem ser decisivos para contrariar estas propostas: de um lado (EUA); está um presidente imprevisível, que não olha a meios para afirmar o seu poder e tentar a reeleição, nas presidenciais de Novembro próximo; do outro, um poder religioso cada vez mais poderoso em vários países da região e que este episódio tornou ainda mais forte internamente. Mas a liderança criativa que este Papa já demonstrou, defende ainda John Allen, pode ter aqui um momento para mostrar a sua capacidade e ser crucial para a paz no mundo.

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