E se fôssemos «o filho do outro»?

| 2 Jan 2024

[Santa Maria, Mãe de Deus, Solenidade // Dia Mundial da Paz ― b ― 2024]

Ícone Nossa Senhora da Ternura

[o míssil enganado / atingiu o hospital ― / quem serei eu? o outro? © haiku e fotografia: Joaquim Félix]. Foto: Políptico de Nossa Senhora da Ternura, escrito por Lisa Sigfridsson, na Capela da Imaculada, Braga

1. A liturgia da Igreja dedica o primeiro dia do ano civil a Maria,
celebrando a sua prerrogativa única e o seu título essencial de ‘Mãe de Deus’.
À semelhança de Maria de Nazaré (cf Lc 2,19),
meditemos, nós também, de coração aberto e a ‘conferir os ditos’,
na Palavra que Deus hoje nos dirigiu pela boca dos leitores.
São Paulo introduz-nos no núcleo desta celebração,
escrevendo aos Gálatas que, «quando chegou a plenitude dos tempos,
Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher e sujeito à Lei» (Gal 4,4).
O dogma da maternidade divina, que hoje professamos e celebramos,
significa que Maria, «nossa irmã» (Santo Atanásio), gerou o Filho de Deus.
E, portanto, segue-se que ela é ‘Mãe de Deus’,
e não simplesmente mãe de um homem.

Foto: Políptico de Nossa Senhora da Ternura, perspetiva desde o altar, Capela da Imaculada, Braga. © Joaquim Félix

 

2. A declaração desta doutrina no Concílio de Éfeso, em 431,
ficou famosa pelo título atribuído a Maria: «Theotókos», isto é, «Mãe de Deus».
Com ela os Padres conciliares pretendiam combater várias heresias:
o docetismo, segundo o qual Cristo não se tinha feito homem,
mas era só um corpo aparente (fictício), de carne, recebido de Maria.
O que leva, por exemplo, Santo Atanásio a denunciar o erro, sustentando:
«Era verdadeiramente humana a natureza do que nasceu de Maria,
segundo as divinas escrituras; era verdadeiramente humano o corpo do Senhor.
Verdadeiramente humano, quero dizer, um corpo igual ao nosso» (Epist. ad Epictetum).
Além deste erro, combatia-se também o gnosticismo,
cujos partidários diziam que Cristo teve não um corpo carnal recebido de Maria,
mas um corpo celeste que teria apenas passado pelo útero de Maria.
Entretanto, rebatia-se também a heresia do adocionismo;
neste caso, Cristo teria nascido meramente homem e,
somente depois, fora adotado por Deus, como seu Filho.
Estes e outros erros teológicos, como o nestorianismo
― que justapunha (enfatizando a desunião) as naturezas humana e divina de Jesus ―,
punham em causa a maternidade divina de Maria.
Por isso, no Concílio de Éfeso, definiu-se a verdadeira doutrina da Igreja,
que, testemunhada pelos santos Padres
e celebrada desde os primeiros séculos com uma festa litúrgica,
se manteve até aos nossos dias.

3. Ainda hoje professamos a mesma fé, como faremos de seguida,
no artigo do Credo niceno-constantinopolitano, quando dizemos:
«E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria e se fez Homem».
A estas palavras, fazemos uma inclinação de cabeça;
no Natal (há oito dias, portanto) ajoelhámos, como bem recordaremos.
Peço-vos, pois, que hoje e sempre façamos uma inclinação a tais palavras.
Façamo-la não por mero cumprimento da indicação escrita a vermelho
― para não cairmos no ‘rubricismo’, doença tão difícil de erradicar! ―,
mas porque, a estas palavras, reconhecemos e confessámos tão grande mistério.
De facto, daquela que é «a mais formosa entre as mulheres» (Cant 6,1),
― parafraseada na antífona «Tota pulchra es Maria» (Toda bela és Maria),
cuja saudação também é cantada como antífona e em motete―,

segundo a promessa de Deus, nasceu o Príncipe da Paz.
Por isso, associa-se à Solenidade da Maternidade Divina de Maria
a celebração do Dia Mundial da Paz.

4. Infelizmente, no presente ano, estamos a celebrar este ‘dia’,
bombardeados por notícias, imagens e sons de guerras cruéis.
O que, preocupadamente, nos leva a pensar e a interrogar:
«Porquê tudo isto? Não saberemos viver em paz?».
O grau de destruição e os números de baixas humanas espelham,
― como se das pequenas e grandes guerras não aprendêssemos quase nada ―,
a barbaridade dos humanos que, mais do que qualquer animal selvagem,
reciprocamente se atacam com ‘requintes’ de malvadez.
Atendamos, por exemplo, aos dados referidos à CNN por uma fonte fidedigna,
relativamente às baixas russas na guerra em curso na Ucrânia:
Dos cerca de 360.000 soldados que, contratados ou recrutados,
entraram no território da Ucrânia, a Rússia terá perdido 315.000 no campo de batalha.
É uma estimativa, sim, mas que corresponde a cerca de 87% das tropas
que a Rússia tinha antes do início da guerra contra a Ucrânia!

5. Nem é preciso referir os danos ao nível dos equipamentos militares,
nos veículos e tanques de combate, porque esses ‘doem’ menos…
O que não deixa de doer, sim, é a morte de tantos soldados.
Como se sentirão os seus familiares e amigos?
Será aceitável, para Vladimir Putin, que se gloria de ter sucesso na guerra,
o critério dos milhões de soldados russos mortos nas duas grandes guerras,
como referiu Valeri Zaluzhni, líder das forças armadas da Ucrânia?
E quantos não terão sido os mortos e os feridos do lado ucraniano?
Sirvam estes números, não só para fazer comentários ou lamentações,
mas também para serem levados à nossa oração pela paz.
O que aliás tem sucedido, aqui no Seminário Conciliar,
na última quarta-feira de cada mês na oração em ‘estilo de Taizé’,
oração aberta a todas as pessoas que queiram participar.
Por nada desejemos ver o mundo através de vidros estilhaçados,
mas nas lentes transparentes (como a Mãe de Deus é apresentada)
de um copo ou de uma garrafa de água límpida atravessada pela luz.

Vidro estilhaçado

“Por nada desejemos ver o mundo através de vidros estilhaçados”. Foto: Vidro estilhaçado © Joaquim Félix

 

6. Num recente artigo, publicado no jornal digital 7MARGENS,
Manuel Pinto reflete profundamente e interpela-nos
sobre o atual ‘estado de calamidade’ por que estamos a passar:
«Nós e os outros: o “grande problema” no inverno do mundo» é o título.
Para ele, «o flagelo da guerra bateu e continua a bater à nossa porta,
deixando de ser um conceito mais ou menos abstrato,
regularmente alimentado por imagens televisivas
colhidas em diferentes partes do mundo».
De abstração, de facto, não tem nada, ainda que, para nós,
não carregue o peso que só dele podem falar aqueles a quem ele subjuga.
Porque se tem caído numa situação de insensibilidade (anestesiada?),
em termos de preocupação por, rapidamente, se alcançar a paz?
Para mais quando constatamos que há populações civis, com tantas crianças,
a serem bombardeadas e privadas da sua liberdade e seguranças.
Enfim, demoremo-nos um pouco mais na pergunta formulada pelo Manuel:
«Com base em que princípios se poderá aceitar a deslocação forçada
de metade da população de Gaza,
concentrando-a numa zona geográfica já de si reduzida e, ao mesmo tempo,
cortando-lhe abastecimento de alimentos, energia, água e medicamentos,
e bombardeando indiscriminadamente casas, hospitais, templos e campos de refugiados,
com o argumento de que albergam forças inimigas?».

7. Conforme o também referido discurso sobre a paz,
feito pelo cardeal José Tolentino na Universidade de Aveiro,
no qual citou o sociólogo polaco Zygmunt Bauman,
a História não pode continuar a fazer-se no regime da exclusão do outro,
na contraposição entre o ‘nós’ e os ‘outros’.
Se escutarmos os outros, com a atenção reduplicada que o coração proporciona,
todos beneficiaremos da paz como reflexo daquela que só Cristo nos pode dar.
É isso que se pode apreciar, por exemplo, no filme «O filho do outro»,
realizado por Lorraine Levy, precisamente há dez anos,
na região que agora se encontra em conflito entre israelitas e palestinianos

 

8. Ainda bem que a profa. Alzira Fernandes,
fundadora da ‘Casa de Sicar’ e diretora espiritual neste Seminário,
nos colocou a ver e a analisar este filme na recoleção de Advento.
Se desejardes a profundar a compreensão sobre este doloroso conflito,
posso adiantar-vos isto, em termos de sinopse:
Num bombardeamento com mísseis sobre Haifa, a 23 de janeiro de 1991,
várias pessoas desceram apressadamente para os abrigos,
tentando acautelar, como vimos na guerra em curso, os bebés.
E sucedeu algo que só, cerca de vinte anos depois, se descobriu:
dois dos recém-nascidos foram trocados involuntariamente.
Identificado o problema na inspeção para o serviço militar do Joseph,
ambas as famílias tentam integrar e revelar a verdade aos filhos.
E, nessa história de reconciliação, no aprofundamento das diferenças,
pressente-se a irracionalidade dos ódios e preconceitos recíprocos,
mas também o esforço, nomeadamente das mães, pelo apaziguamento.
Vale a pena revermo-nos nas perguntas do Yacine e do Joseph:
«Quer dizer que eu sou o outro?» (…) «E o outro sou eu?»

9. Como dizia o Irmão Matthew, novo Prior da Comunidade de Taizé,
no 46º Encontro Europeu de Taizé, que termina precisamente hoje, em Liubliana,
onde se reuniram cerca de 16 mil jovens:
«A violência parece estar a aumentar em tantos lugares
que já não sabemos para onde nos podemos voltar».
Pelo que, até em sintonia com a questão de fundo do filme,
ele lança a seguinte questão:
«Tentar ouvir e compreender o outro não será o caminho a seguir?».

10. Perguntas semelhantes coloca o Papa Francisco
na Mensagem que escreveu para este Dia Mundial da Paz,
subordinada ao tema «Inteligência artificial e a paz».
Sendo razoavelmente longa, por causa das imensas implicações,
interpelo-vos a lê-la e a meditá-la com muita atenção.
Ainda assim, sublinho uma das suas sínteses:
«Em resumo, o mundo não precisa realmente que as novas tecnologias
contribuam para o iníquo desenvolvimento do mercado e do comércio das armas,
promovendo a loucura da guerra.
Ao fazê-lo, não só a inteligência, mas também o próprio coração do homem,
correrá o risco de se tornar cada vez mais “artificial”.
As aplicações técnicas mais avançadas não devem ser utilizadas
para facilitar a resolução violenta dos conflitos,
mas para pavimentar os caminhos da paz.» (Papa Francisco).

11. A terminar, derramo sobre a cada um de vós
a bênção com que São Francisco ― verdadeiro instrumento de paz ―
terminava os seus escritos,
precisamente a bênção do Livro dos Números, que hoje escutámos:
«O Senhor te abençoe e te proteja.
O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável.
O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz» (Num 6,24-26).
Que, das nossas bocas, jamais se afaste o refrão do salmista,
que é uma ‘ruminância’ destas palavras:
«Deus se compadeça de nós e nos dê a sua bênção» (Sl 66,1).

“O Senhor te abençoe e te proteja”. Foto: © Joaquim Félix

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais VERNA. Este texto corresponde à homilia do passado dia 1 de janeiro – Santa Maria, Mãe de Deus, Solenidade // Dia Mundial da Paz ― b ― 2024, do calendário litúrgico católico,  proferida na  igreja de S. Paulo, do Seminário Conciliar de Braga.

 

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica?

Onde estão as mulheres na música litúrgica católica? novidade

Na música, um dos ministérios mais estruturantes da liturgia católica, este paradigma mantém-se, embora com nuances particulares: salvo algumas (felizmente, cada vez mais) exceções, o ministério do canto, domingo a domingo, é, em Portugal, sustentado maioritariamente por mulheres e a regência dos coros é, preferencialmente, entregue a homens

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This