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WOC, Ordenação de mulheres

Mulheres em defesa da ordenação

E se o fumo tivesse sido cor-de-rosa?

| 18/05/2025

 

São cerca de quatro dezenas de pessoas, mulheres na maioria, que rezam, cantam, discursam, proclamam palavras de ordem e lançam fumo cor-de-rosa. A escassas centenas de metros, sairá no dia seguinte o fumo branco da Capela Sistina que anuncia a eleição de um novo Papa, mas elas querem mais: o fumo cor-de-rosa quer ser também “um apelo de socorro que os cardeais [que elegiam o novo papa] não podem ignorar: a igualdade das mulheres não pode esperar.”

A iniciativa é da Women’s Ordination Conference (WOC, Conferência pela Ordenação de Mulheres), organização internacional sedeada nos Estados Unidos, que defende a “ordenação de mulheres como diaconisas, padres e bispas numa Igreja Católica Romana inclusiva e responsável”

O movimento espera que Leão XIV, eleito no dia 8 como sucessor de Francisco e que neste domingo celebrou a missa de início do pontificado, “possa ser um líder que também construirá pontes com as mulheres católicas”, diz ao 7MARGENS, em Roma, Kate McElwee, directora executiva da WOC. As mulheres “anseiam que a sua igualdade baptismal seja plenamente concretizada” e que responsa ao facto de a Igreja ter perdido “gerações de mulheres que suportaram a dor e a humilhação de terem de provar a validade do seu chamamento e o valor do seu ministério”.

Os foguetes com fumo cor-de-rosa são um símbolo: quando um conclave se reúne para eleger um Papa, como foi o caso nos dias 7 e 8 de Maio, a chaminé da Capela Sistina expele fumo negro depois de votações inconclusivas ou fumo branco quando há um novo papa eleito. Neste caso, o fumo rosa pretende dizer que o conclave também deve ter lugar para as mulheres.

“Nós enviamos fumo cor-de-rosa como um sinal de esperança de que a Igreja, um dia, acolherá as mulheres com igualdade. O fumo também pode ser usado como um sinal de alerta, porque a Igreja está em crise”, diz Kate McElwee. “A injustiça para com as mulheres, a sua exclusão do ministério ordenado e dos altos níveis de tomada de decisão, traduz uma crise. Portanto, o nosso fumo é também um apelo para que a Igreja mude rapidamente e abra as suas portas às mulheres.”

Miriam Duignan, directora executiva do Instituto Wijngaards de Investigação Católica, acrescenta que os cardeais “não podem continuar a ignorar cinquenta por cento da população católica” nem “entrar numa sala fechada e discutir o futuro da Igreja sem metade da Igreja”. Por isso, a mensagem é clara: “Precisam de ouvir as mulheres e incluí-las de forma mais significativa”. E o novo Papa deve ter a “coragem suficiente para abordar adequadamente a questão da inclusão feminina, porque até agora isso não foi feito, nem pelo Papa Francisco”.

 

“As esperanças de muitas mulheres”

Mulheres, Ordenação de mulheres, Women's Ordination Conference

Marcha pela ordenação de mulheres, promovida pela Women’s Ordination Conference, assinalando o início do Sínodo sobre a sinodalidade. Roma, 6 Outubro 2023. Foto © António Marujo/7MARGENS

Kate McElwee define deste modo a expectativa do movimento em relação ao pontificado que agora começa. Na saudação que dirigiu à cidade e ao mundo após a sua eleição, o novo Papa pôs uma “clara ênfase na construção de pontes e no diálogo”. Por isso, e pelo apoio de Leão XIV à sinodalidade, a WOC tem esperança de que o novo Papa “motive toda a Igreja para um dia tão esperado, em que as mulheres serão reconhecidas como iguais em Cristo, e as suas vocações serão confiáveis, acolhidas e celebradas”, como a organização dizia na saudação que dirigiu a Leão XIV.

Apesar de a iniciativa da WOC na praça Guilherme Marconi, na colina do Gianicolo, ter tido a participação de cerca de quatro dezenas de pessoas, Kate McElwee diz que essa delegação “representa muitas mulheres de todo o mundo que não puderam viajar para Roma para o conclave”. E acrescenta: “Trazemos connosco as suas esperanças e apoio. Temos assistido a um aumento significativo do número de apoiantes nos últimos anos, talvez por causa do incentivo do Papa Francisco, através do Sínodo sobre a Sinodalidade, para mais diálogo sobre o papel das mulheres na Igreja.”

Esse incentivo é, aliás, objecto de um documento preparado pela WOC, sobre os avanços no papel das mulheres durante o pontificado de Francisco e que o 7MARGENS publica num outro texto. O documento reflecte uma visão positiva do movimento internacional acerca do que se passou nos últimos 12 anos. “Era importante para nós partilhar o progresso que foi feito durante o pontificado de Francisco através de declarações, políticas e práticas que criaram mais espaço para as mulheres e para a liderança feminina na vida da Igreja”, explica a directora executiva da WOC. “Não estamos parados. E embora o percurso rumo à igualdade de género seja longo, o Papa Francisco abriu certamente portas. O novo Papa precisa de passar por estas portas.”

Kate McElwee está “confiante” de que Leão XIV “seguirá os passos do Papa Francisco e continuará a criar mais espaços para o diálogo”. E como “também é americano, tenho esperança de que possamos ter linhas de comunicação claras e partilhar realmente a nossa mensagem de igualdade”, acrescenta.

Por isso a WOC publicou imediatamente uma mensagem a congratular-se com a eleição do Papa Leão XIV, “que saudou o povo de Roma e do mundo com uma mensagem de paz”. Acrescentava o comunicado: “Rezamos para que o seu afecto pelas comunidades que serviu no Peru oriente a sua liderança da Igreja institucional para reflectir melhor as necessidades pastorais do Povo de Deus. Rezamos para que a sua proximidade com o Papa Francisco o leve à ousadia de coração e à solidariedade com os mais marginalizados da nossa Igreja e sociedade.”

A directora executiva acredita que o primeiro passo do novo Papa deveria ser o de “assegurar ao Povo de Deus que continuará” o processo de concretização do Sínodo sobre a Sinodalidade. E também manifesta o desejo de que o Papa Leão “esteja aberto ao diálogo com académicos e especialistas que partilharam amplas evidências da liderança feminina na Igreja primitiva, bem como com mulheres que vivenciam um chamamento sinceramente discernido para o ministério ordenado”.

 

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