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[Entre Margens]

E se o leme fosse delas? A Igreja sob a lógica do Feminino

| 16/01/2026

 

Antes de tudo, uma delicadeza necessária.

Este texto não propõe que as mulheres sejam uma extensão do masculino dentro da Igreja, nem uma réplica suavizada de modelos já gastos. Também não pretende ressuscitar o debate — tantas vezes redutor — sobre o sacerdócio feminino. Trata-se de outra coisa. Mais profunda. Mais silenciosa. Mais radical. Trata-se de imaginar o que aconteceria se a Igreja respirasse, pensasse e decidisse mais a partir do feminino.

Se as mulheres “mandassem” na Igreja, a primeira revolução não seria de cargos, mas de gramática. O verbo mandar seria, provavelmente, substituído pelo verbo cuidar. A autoridade deixaria de ser o topo de uma pirâmide para se tornar o centro de um círculo, onde a prioridade não é a norma que exclui, mas a vida que pulsa.

Jesus Encontra Sua Mãe

“Uma Igreja com rosto de mãe seria, antes de mais, uma Igreja da Gratuidade.”  Benso (Pieve di Teco, 1592-1668): Jesus a caminho do Calvário encontra a sua mãe. Museu de Génova.

Uma Igreja com rosto de mãe seria, antes de mais, uma Igreja da Gratuidade. Veríamos o fim da contabilidade da fé, das balanças morais e dos méritos acumulados. Se a mulher é, como tantas vezes dizemos, a gratuidade em pessoa, a Igreja sob essa lógica seria um espaço onde o dom vem antes do desempenho. Não haveria “filhos teológicos” órfãos, esquecidos em armazéns de ideias descartadas, porque o olhar feminino sabe que cada intuição — como cada vida — precisa de tempo, colo e alimento para crescer.

O altar seria extensão da mesa, e a mesa seria extensão do mundo. A gestão eclesial deixaria de ser a topia do masculino — tantas vezes concentrada na manutenção do poder e na frieza do cânone — para se tornar uma economia do pão repartido. Se o leme fosse delas, a Igreja teria menos medo dos “partos teológicos”. O magistério não se moveria pela lentidão de quem teme errar, mas pela urgência de quem corre ao ouvir o choro de um filho.

A hierarquia maior seria a da caridade, não a do prestígio. Numa Igreja conduzida pelo feminino, a dignidade não seria um discurso bonito, mas uma prática quotidiana. Cairiam as velhas correntes de ferro que prendem a intuição e o carisma. A política eclesial tornar-se-ia uma política de entranhas: próxima, concreta, atenta ao detalhe do sofrimento que, no seu voo de águia teórica, o masculino tantas vezes não vê.

Não seria uma Igreja de “parideiras”, mas de profetisas. Mulheres que, como as discípulas de Jesus, não fogem perante o escândalo da cruz. Uma Igreja que deixaria de usar o feminino como adorno simbólico e o reconheceria como força estruturante. O sagrado sairia das sacristias fechadas e ajoelhar-se-ia ao lado de quem trabalha, de quem sofre, de quem gera a vida no silêncio.

No fundo, se o leme fosse delas, a Igreja parecer-se-ia mais com o Evangelho das Origens: um caminho de amigos e amigas, onde o único poder reconhecido é o de lavar os pés uns aos outros. Uma Igreja capaz de se olhar ao espelho e ver, não apenas um Pai, mas também o rosto maternal de um Deus que amamenta a humanidade com esperança.

Talvez o milénio da mulher na Igreja não seja apenas um desejo. Talvez seja a única via para que a fé não morra de aridez.

 

João Torres é padre católico na arquidiocese de Braga. Este texto foi inicialmente publicado na página pessoal do autor na rede Facebook e é aqui reproduzido com autorização do próprio.

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