E se um só acto pudesse salvar 250.000 vidas?

O consumo excessivo de carne é apontado como uma das causa essenciais das alterações climáticas (foto © Matthias Zomer/Pexels)
E se um só acto pudesse salvar 250.000 vidas?
Não seria a atitude cristã fazê-lo, concretizá-lo, sem arrependimentos?
Lembro-me quando ocorreram as inundações na Madeira em 2010.
Todo o país se sensibilizou, entidades organizaram-se, correu ajuda humanitária, fomos em seu socorro. Nos supermercados, podíamos até deixar o troco que revertia para recuperação dos locais afectados e apoio às vítimas.
Por isso sei, sei quem somos, sei as gentes que há no meu país, sei quem é cristão e digno desse nome (imensos), no que acreditam e pessoas de outras religiões, ateus, sei que correriam a ajudar quem precisasse sem hesitar. Este é o meu Portugal.
Se soubermos que alguém, mesmo geograficamente distante de nós, precisa, de uma atitude, um acto. Nós vamos, nós fazemos, apenas precisamos que a informação nos chegue, saber da crise.
Por esse mesmo motivo sei que, se já não alteraram a dieta alimentar das vossas famílias para comer carne apenas duas vezes por semana no máximo (assegurando a dose nutricional), é porque não têm consciência, ainda não sabem que este pequeno acto será responsável por salvar 250.000 vidas.
Os dados são da Organização Mundial de Saúde (OMS): relatam as mortes, até 2050, por conta das alterações climáticas. Não quero falar do abstracto, de mitologia ou subjectivismos. Escreverei apenas factos acrescentando algumas notas de rodapé para que os mais resistentes comprovem as fontes científicas, dos média ou de relatórios de organizações mundiais:
– As alterações climáticas existem[i].
– São causadas pela emissão de gases com efeito de estufa (GEE)[ii].
– A indústria da carne é uma das principais responsáveis pela emissão destes gases, em quantidade e principalmente em qualidade[iii].
– Frio e calor extremos hoje sentidos são causados pelas alterações climáticas[iv].
– Estima-se que 19 milhões de pessoas migraram em 2015 por causas climáticas[v].
– O impacto no número de pobres e em condição vulnerável pode chegar de 62 a 467 milhões e pessoas[vi].
– O secretário-geral da ONU alerta que temos dois anos para reverter a situação[vii].
– Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), mais 250.000 pessoas terão morrido à conta das alterações climáticas em 2050[viii].
Os efeitos não são futuros, mas estão já a acontecer e merecem a nossa mobilização.
Estes são dias em que estamos de luto. Uma dezena de pessoas morreu, não em guerras ou assassinatos, mas pela vaga de frio nos EUA. Morreram por causa das alterações climáticas por nós causadas. Não precisamos de uma arma, basta um bife todos os dias na nossa mesa.
Está mais frio nos EUA do que na Antártida e mais calor na Austrália do que no deserto.
Erradamente, já ouvi várias pessoas dizer: “O Senhor criou os animais para nós comermos.” Devo dizer que o fundamento bíblico de tal informação é extremamente escasso e despojado de sentido ou contextualização. Na própria história da Criação (Génesis 2, 29-30), podemos ler Deus a dizer-nos exactamente o oposto: comer apenas o que vem da terra, plantas e árvores de fruto. A única vez que, na Bíblia, Deus diz directamente para comermos animais é na narração do Dilúvio: tudo tinha sido varrido da Terra (Génesis 9, 3-5).
Os fundamentos para reduzir ou eliminar carne têm a sua base hoje, não no Antigo Testamento mas no Novo, no mais importante mandamento que Jesus nos deixou: “Ama o teu próximo (seja ele quem for e onde esteja) como a ti mesmo”. Reduzir ou eliminar carne da nossa dieta é a mais importante medida que podemos tomar hoje para reverter as alterações climáticas. Hoje, estão em causa vidas e é disso apenas que se trata.
O clima, o vento e as marés seguem o seu rumo, seguem o seu rumo natural sem a nossa intervenção. Com a nossa intervenção, emitindo em grande número de GEE para a atmosfera, a natureza transforma-se num caos, perde o seu equilíbrio, somos corresponsáveis por tudo que está e irá acontecer. Os nossos hábitos alimentares e de consumo têm de mudar com a maior urgência.
Por esta razão, o Papa Francisco foi desafiado, por uma menina de 12 anos, a fazer uma dieta vegan durante a Quaresma, um tempo de transformação. Em troca o movimento Million Dollar Vegan entregará um milhão de dólares ao Papa, para ser empregue numa obra de caridade à sua escolha. Parece-me que basta defendermos a vida de 250 mil pessoas – número de pessoas que morrerão por conta das alterações climáticas, segundo a OMS – sendo vegan durante a Quaresma. Fazê-lo em troca de dinheiro, mesmo que para a caridade, não me parece certo. Fica o desafio ao Papa Francisco, a todas as entidades ministeriais, de todas as confissões e religiões, e a todos nós.
Resta-me apenas dizer a pessoas de fé, hospitaleiras, fraternas, de entreajuda: leiam, munam-se dos factos, estatísticas, estudos científicos, declarações da ONU e de ONG locais e internacionais e actuem conforme. Actuem conforme um cristão, que preza o próximo como a si mesmo e a vida humana como mais alto valor – para que assim nenhum conforto ou prazer mundano a tal se sobreponha.
O tempo é agora.
Que a paz e o amor de Cristo estejam com todos.
Catarina Sá Couto é missionária leiga da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, “jovem líder” da Carta da Terra e representante em Portugal dos Green Anglicans – Rede Lusófona
Notas
[i] A maioria qualificada de 97% dos cientistas da área afirma-o sem dúvida: http://whatweknow.aaas.org/wp-content/uploads/2014/07/whatweknow_website.pdf (Relatório Associação Americana para o Avanço da Ciência – 2014), https://www.rtp.pt/noticias/mundo/97-dos-cientistas-responsabillizam-humanidade-pelas-alteracoes-climaticas_n814559, o próprio Papa Francisco afirma a existência das mudanças climáticas na sua encíclica (FRANCISCO, Louvado sejas: Carta Encíclica Laudato Si, Editorial Apostolado da Oração, Braga, 2015, 20-23). Os restantes três por cento, dos cientistas chamados ‘negacionistas’ tem-se mostrado não “ideologicamente neutros” estando ligados ao mundo empresarial e seus actores principais – as grandes empresas (poluidoras) – institutos com financiamentos questionáveis como a ExxonMobil ou os próprios irmãos Koch.
Fontes: https://exxonsecrets.org/html/index.php (Investigação da Green Peace USA); Klein, Naomi,Tudo Pode Mudar, Capitalismo Vs. Clima, Editorial Presença, 2016, p. 63.
[ii]http://nautilus.fis.uc.pt/gazeta/revistas/30_1/vol30_fasc1_Art06.pdf;
https://www.youtube.com/watch?v=2BeTXPPKyd0; https://www.tempo.pt/noticias/divulgacao/mudancas-climaticas.html;
[iii]https://www.chathamhouse.org/sites/default/files/publications/research/CHHJ3820%20Diet%20and%20climate%20change%2018.11.15_WEB_NEW.pdf; http://www.fao.org/news/story/en/item/197646/icode/;
Segundo a FAO – Fundo das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – estima-se que o sector agropecuário emite 7,1 gigatoneladas de dióxido de carbono equivalente (CO 2 -eq) por ano, representando 14,5% de todas as emissões induzidas pelo homem: http://www.fao.org/ag/againfo/resources/en/publications/tackling_climate_change/index.htm.
Investigadores da Universidade de Oxford publicam estudo em revista científica referindo que, para evitar alterações climáticas com efeitos devastadores, é necessário que os países ocidentais (como Portugal) reduzam o consumo de carne para 90%, ou seja, comendo-a apenas duas vezes por semana: https://www.nature.com/articles/s41586-018-0594-0
[iv]https://www.bbc.com/portuguese/geral-47080543
[v]http://publications.iom.int/system/files/wmr2015_en.pdf
[vi]https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/sites/2/2018/07/SR15_SPM_version_stand_alone_LR.pdf; https://politicsofpoverty.oxfamamerica.org/2018/10/heres-what-you-need-to-know-about-the-latest-ipcc-report/.
[vii]https://www.unric.org/pt/actualidade/32478-guterres-qas-alteracoes-climaticas-avancam-mais-rapido-do-que-nos; https://observador.pt/2018/09/10/guterres-avisa-que-o-mundo-tem-dois-anos-para-agir-contra-mudancas-climaticas/
[viii]https://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/134014/9789241507691_eng.pdf?sequence=1&isAllowed=y
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