É urgente procurar o que nos une

| 30 Dez 2023

Enquanto a polarização nos media e redes sociais se torna um negócio, no Grupo de Trabalho para o Diálogo Inter-Religioso (GT-DIR) procuramos o que nos une. Foi com o maior gosto que passei a integrar este grupo, em nome da União Budista Portuguesa.

 

O que nos une? Inicio com esta pergunta, porque, na maior parte dos debates, conversas ou noticiários, aquilo que se impõe e que enche as parangonas é a polarização, aquilo que nos separa. No Grupo de Trabalho para o Diálogo Inter-Religioso (GT-DIR), procuramos, acima de tudo, o que nos une. Tendo passado a integrar este grupo, juntamente com a Catarina Rodrigues, em representação da União Budista Portuguesa, foi com agradado espanto que constatei a fraternidade que impera neste grupo onde, aparentemente, todas as diferenças se cruzam.

Ativo desde 2015, o GT-DIR foi criado pelo então Alto Comissariado para as Migrações, no âmbito da Lei da Liberdade Religiosa, sendo constituído por 13 membros das confissões religiosas mais representativas em Portugal. Agora sob a alçada da AIMA (Agência para a Integração Migrações e Asilo), o GT-DIR mantém um entendimento do diálogo inter-religioso como um ato essencial para a construção da paz numa sociedade contemporânea, em que a pluralidade e a diversidade devem ser valores positivos e desejáveis.

Nesse sentido, o GT-DIR promove diversas atividades, entre as quais, por exemplo, o Meet-IR, uma ação com jovens vindos das mais diversas comunidades religiosas e que vai já na sua quarta edição.

Entre as atividades promovidas contamos também com o lançamento anual do Calendário Celebração do Tempo, cuja edição de 2024 já está publicada. Um calendário que comemora, este ano, os anos de uma revolução que se caracteriza por uma transição de regime, nos seus traços gerais, pacífica.

Isto, repito, no panorama de polarização que vivemos, dentro e fora das redes sociais. Cito Tristan Harris, do Centre for Humane Technology: “Quanto mais ultrajante a linguagem, quanto mais inflamatório o discurso, tanto mais visionado e partilhado, tanto mais o retorno obtido. A polarização tornou-se um negócio”. Urge, assim, que grupos e ações como as do GT-DIR possam obter mais visibilidade, para que as imagens e as parangonas se possam fazer deste diálogo, destes abraços e que estes, sim, possam obter as reações, as partilhas e suscitar o mimetismo que merecem e que propiciem a paz social que, afinal todos desejamos e, mais uma vez, nos une.

Este calendário, onde inscrevemos todas as festividades de todas as religiões representadas, é exemplar de alguns aspetos que, mais uma vez, nos unem:

Precisamos de um conceito como o tempo para nos situarmos nesta existência transitória;

Precisamos também de tempos de pausa, para nos interrogarmos e reorientarmos;

Somos todos seres humanos procurando fazer sentido daquilo que estes sentidos parcos nos permitem percecionar;

Calendário do Tempo. Diálogo Inter-ReligiosoSomos todos seres humanos procurando descrever aquilo que não vemos, mas pressentimos, não provamos, mas experienciamos, através da criação de signos, símbolos, metáforas e vocábulos… Saussure, nos seus estudos linguísticos do campo da semiótica e da semiologia, sublinhou essa arbitrariedade dos signos. Sendo pelos signos que nos pensamos, é também pelos signos que procuramos nomear o inominável e é também pelos signos que nos tornamos a separar…

Virginia Woolf reiterou: “A coisa nenhuma deveria ser dado um nome, pois há perigo de que esse nome a transforme.” E Shakespeare questionou, pela boca de Julieta: “O que há num nome? Aquilo a que chamamos rosa, por qualquer outro nome, te perfumaria com o mesmo aroma doce…”.

Permitam-me, então, que refira Siddhartha Gautama, a quem chamamos o Buda, ou Iluminado, quando este, em cerca do ano 500 A.E.C. evitava prender-se a denominações e preferia, quando interrogado no âmbito do Dhamma, fazê-lo sublinhando aquilo que não era, ou preferindo descrever a sua experienciação:

Não nascido, incriado, intemporal, imanente aqui e agora, encorajando a investigação, convidando ao interior, para ser realizado pelos sábios e por todos os que busquem com verdade.

E acabava apenas apelidando de “moradas divinas”, quatro qualidades humanas: o Amor, a Compaixão, a Alegria e a Equanimidade.

Proponho, então, que abandonemos os nomes, ou procuremos os mínimos denominadores comuns…

Luz, por exemplo…

Fiquemos então com esse vocábulo, que surge referido em todas as religiões representadas no GT-DIR, nos seus mais diversos idiomas: luz, light, nur, baha, rōśanī, prakash, ohr, aloka, guang. Fiquemos então com a Luz, fiquemos com o que nos une.

 

Margarida Rocha e Melo é jornalista agora dedicada ao ensino; budista, mantém o respeito pela sua herança cristã, esperando poder contribuir para o encontro de religiões, de mentes e de seres humanos.

 

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