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Velas queimam na frente da Igreja da Natividade, em Belém. Foto Albin HillertCMI
Velas frente à igreja da Natividade, em Belém (Palestina) : o Credo de Niceia afirmou a fé na divindade de Jesus. Foto © Albin Hillert/CMI-WCC

Ensaio

“E vós, quem dizeis que Eu sou?” – Uma reflexão protestante-reformada sobre o Credo Niceno

 

A história do Credo começa com uma pergunta de Jesus, aparentemente simples, mas profundamente provocadora, tal como a relatam os evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”

Pedro, sem hesitar, responde: “Tu és o Cristo.” Uma resposta breve, ousada, decisiva que se tornou a pedra angular da fé cristã.

Hoje, no entanto, talvez a nossa reação fosse diferente. Talvez respondêssemos com mais prudência, com mais dúvidas… ou até com novas perguntas. Porque esta interrogação não é apenas histórica: atravessa os séculos e continua a ressoar em cada geração, em cada consciência, em cada caminhada de fé.

Esta pergunta, dirigida não a estranhos, mas a discípulos que o seguiam de perto, mostra que a identidade de Jesus nunca foi evidente nem adquirida. Ainda hoje, permanece como a pedra angular da fé cristã, uma fé que precisa de ser dita com inteligência, sustentada pela tradição e espiritualmente aprofundada.

 

O Credo no mundo contemporâneo: crer não é o mesmo que saber

Primeiro Concílio de Niceia, AD 325, fresco,c. 1600, Speranza.Roma. Vatican

Primeiro Concílio de Niceia, AD 325, fresco,c. 1600, Speranza, Roma. Vaticano: a fé cristã exigia fundamentos sólidos. 

Falar do Credo de Niceia (325), da Trindade, ou de Jesus Cristo como “verdadeiro Deus e verdadeiro homem” parece, à primeira vista, reservado a especialistas ou teólogos eruditos. No entanto, não é necessário ter conhecimentos avançados para explorar estas questões essenciais.

Hoje, afirmar “eu creio” não é simples. Vivemos num tempo marcado pela desconfiança em relação a instituições, à política, à ciência e até mesmo à Igreja. Paradoxalmente, convivemos também com uma credulidade ingénua, acreditando facilmente em teorias conspiratórias ou soluções mágicas. Estamos entre o cinismo e a superstição.

Alguns veem o ato de crer como incompatível com o desenvolvimento científico e cultural alcançado desde o Iluminismo, enquanto outros confundem fé com certeza absoluta, afirmando: “creio porque está escrito na Bíblia”, ou “creio porque a Igreja o diz”. Esta atitude, característica de certos fundamentalismos, esquece que crer não é o mesmo que saber com certeza absoluta.

Crer é entregar-se com humildade e lucidez, avançar confiantemente em direção a Algo (ou Alguém) que nos transcende, mas também nos sustenta. A fé é, portanto, um ato de confiança radical.

 

Porquê “crer” no Credo? Uma afirmação da identidade de Jesus

Porque haveríamos então de crer precisamente nos enunciados do Credo? Que autoridade têm estas afirmações antigas? Podemos dizer com sinceridade tudo o que o Credo proclama, mesmo nas partes difíceis ou inquietantes?

Estas perguntas são inevitáveis e essenciais. Não podemos evitá-las; precisamos respondê-las com humildade, lucidez e esperança. O Credo, portanto, não é um texto mágico nem uma imposição dogmática, mas sim um caminho de confiança partilhada, um apoio sólido em tempos incertos.

“E vós, quem dizeis que eu sou?” É com esta pergunta dirigida aos discípulos, registada nos evangelhos, que começa uma profunda reflexão sobre a identidade de Jesus e o significado de acreditar nele. Crer, afinal, não é algo banal; implica um compromisso existencial total.

Pedro responde claramente: “Tu és o Cristo”. Esta afirmação breve, mas fundamental, torna-se a pedra angular da fé cristã. Contudo, esta pedra necessitava de fundamentos sólidos, exigindo clarificação e aprofundamento ao longo dos séculos.

 

A crise ariana e o Concílio de Niceia

Ário de Alexandria (256 – 336)?

Imagem representando Ário: foi o seu conceito de um Jesus “criado pelo Pai”que levou Atanásio a contestá-lo e Niceia a enunciar o Credo.

Durante o século IV, uma crise profunda abala a Igreja. Ário, presbítero em Alexandria, defendia que Jesus, apesar de glorioso e superior aos anjos, era uma criatura criada por Deus Pai. Esta visão parecia lógica e preservava aparentemente a transcendência divina, mas punha em causa o coração da fé cristã.

É então que emerge Atanásio, um jovem diácono de Alexandria, que se torna uma voz decisiva no Concílio de Niceia (325). Atanásio compreendeu que estava em jogo algo vital: “Se Cristo não é plenamente Deus, a fé cristã é vã, pois só Deus pode oferecer salvação.” O Concílio afirmou então com vigor que Jesus é “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”. Introduziu-se assim a expressão “homoousios” (da mesma substância), que esclareceu definitivamente a identidade divina de Cristo.

 

Uma questão aparentemente técnica: o “filioque”

A história do Credo não termina aqui. Em 381, o Concílio de Constantinopla ampliou o Credo, clarificando também a divindade do Espírito Santo. Surgiu depois uma divergência significativa: a adição do filioque (“e do Filho”), segundo a qual o Espírito Santo procederia não apenas do Pai, mas também do Filho.

Embora destinada a combater o arianismo residual no Ocidente, esta alteração foi rejeitada pelas igrejas orientais. O desacordo sobre o filioque contribuiu significativamente para o cisma entre Oriente e Ocidente, em 1054.

Porém, a questão remete para a forma como compreendemos a Trindade. No Ocidente, o filioque sublinha a comunhão entre o Pai e o Filho na origem do Espírito. No Oriente, defende-se a “monarquia do Pai” como única fonte divina, evitando confusões nas relações trinitárias.

Mais do que um tecnicismo, o filioque levanta questões sobre a maneira como vivemos a relação com o Espírito Santo e como essa relação traduz comunhão, reciprocidade ou hierarquia, com implicações na visão da Igreja e da autoridade.

Embora o protestantismo tenha mantido a versão ocidental do Credo Niceno, hoje, o movimento ecuménico incentiva uma atitude humilde e conciliadora: muitas igrejas ocidentais optaram por regressar à formulação original como gesto de unidade.

 

Calcedónia: conciliar humanidade e divindade

Mais tarde, o Concílio de Calcedónia (451) enfrentou outro desafio crucial: como pode Jesus Cristo ser simultaneamente verdadeiro Deus e verdadeiro homem? Contra duas tendências extremas, o monofisismo, que afirmava apenas uma natureza divina, e o nestorianismo, que dividia Cristo em duas pessoas separadas, o Concílio de Calcedónia proclamou que Cristo é “uma só Pessoa em duas naturezas, divina e humana, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação”.

Aqui surge o conceito de hipóstase, que significa simplesmente “pessoa concreta” ou “sujeito real”. Em Jesus, o Filho eterno de Deus assume plenamente a natureza humana sem deixar de ser Deus.

 

A relevância atual da antiga confissão

Gustav Spangenberg, Martinho Lutero rodeado pela família (1866): “Os primeiros reformadores valorizaram plenamente os credos históricos.”

Mas por que motivo estas antigas formulações importam ainda hoje? A resposta está na necessidade permanente de precisão e clareza quando afirmamos quem é Jesus Cristo. A fé cristã nunca foi um improviso, mas uma resposta discernida à pergunta original de Jesus.

Ao afirmarmos hoje o Credo, ligamo-nos a uma história longa e profunda, conscientes de que dizer claramente quem é Cristo é um acto fundamental de fidelidade.

Perante este cenário histórico, coloca-se agora uma nova questão: como foi o Credo acolhido e interpretado pelos Reformadores protestantes do século XVI, tão centrados na autoridade da Escritura?

 

O Credo e a tradição protestante: acolhimento e críticas

Já dissemos como o Credo de Niceia-Constantinopla surgiu como resposta a uma crise profunda, clarificando a identidade de Jesus Cristo, para preservar a fidelidade ao Evangelho. Mas como foi esta formulação recebida nas igrejas protestantes, surgidas da Reforma do século XVI?

 

Os Reformadores e os credos históricos

É fundamental destacar que os principais Reformadores, como Martinho Lutero e João Calvino, valorizaram plenamente os credos históricos. Lutero, por exemplo, incluiu explicitamente o Credo no seu Catecismo Maior, considerando-o, juntamente com os Dez Mandamentos e a oração do Pai Nosso, uma peça essencial para a instrução na fé cristã.

Portanto, o que distingue verdadeiramente os protestantes dos católicos romanos e dos ortodoxos não é a rejeição dos credos históricos, mas a afirmação do princípio fundamental do sola scriptura: a Escritura como única autoridade suprema e norma última da fé cristã.

João Calvino, por exemplo, considerava os credos legítimos e úteis enquanto expressões fiéis da Palavra de Deus, especialmente em tempos de confusão doutrinal. Contudo, nunca deveriam substituir ou sobrepor-se à autoridade das Escrituras.

No protestantismo, as confissões de fé não possuem um estatuto de autoridade infalível. A sua importância reside no facto de serem formulações resumidas, circunstanciadas e comunitárias da fé cristã, sempre subordinadas à Escritura.

Com efeito, embora tenham conservado os símbolos da fé herdados da Igreja antiga, os protestantes reformados, em particular no contexto dos grandes debates teológicos, insistiram na necessidade de confessar publicamente a fé, de modo claro e explícito, como resposta aos mal-entendidos e às distorções do Evangelho.

As confissões de fé reformadas são, de facto, numerosas e diversas. No entanto, todas partilham o mesmo propósito: oferecer pontos de referência consensuais, enraizados na Escritura, para orientar a vida da Igreja e preservar a fidelidade ao essencial da fé cristã.

 

Integração do Credo nas confissões de fé protestantes

Várias tradições protestantes mencionaram ou incorporaram explicitamente o conteúdo do Credo Niceno em documentos importantes como a Confissão Helvética Posterior (1566), a Confissão de Fé de Westminster (1646), e também nos Trinta e Nove Artigos da Igreja Anglicana (1563). Estes textos reconhecem o valor essencial dos credos históricos como formas válidas de confessar a fé cristã.

 

Resistências modernas ao Credo

Cruz, Bíblia

Uma cruz feita com Bíblias: para protestantes e evangélicos, o destaque é dado ao sola Scriptura.  Foto © Timóteo Cavaco

No entanto, nem todos os protestantes mantiveram uma relação positiva com os credos antigos. No século XIX, influenciadas pelo racionalismo e pelo liberalismo teológico, muitas igrejas começaram a considerar os credos como expressões ultrapassadas da metafísica grega ou como barreiras à liberdade individual e à evolução teológica.

De outro lado, alguns movimentos evangélicos e fundamentalistas também rejeitaram os credos históricos por considerá-los formulações humanas, distantes da literalidade bíblica. Curiosamente, acabaram por criar as suas próprias declarações de fé, frequentemente rígidas e absolutizadas.

 

O caso suíço: um protestantismo sem Credo?

Na Suíça, as Igrejas reformadas oficiais dos cantões de Zurique, Basileia e Berna abandonaram, ao longo do século XIX, o uso litúrgico do Credo Niceno. Em seu lugar, optaram por fórmulas mais abertas ou, nalguns casos, por um silêncio litúrgico intencional. Esta escolha, inspirada por uma sensibilidade moderna e liberal, levantou novas questões de fundo: poderá a Igreja conservar a sua identidade cristã sem uma confissão de fé comum? Será suficiente promover uma ética do amor sem afirmar com clareza uma cristologia partilhada?

Hoje, assiste-se a um movimento de revalorização dos credos históricos dentro da Igreja Reformada suíça. Muitas igrejas cantonais – equivalentes reformados das dioceses – reconhecem no Credo uma via para reencontrar raízes sólidas e uma linguagem comum, sobretudo num contexto marcado pelo pluralismo teológico e pelo diálogo ecuménico. O Credo surge, assim, não como imposição do passado, mas como ponto de apoio para uma fé vivida em comunhão e fidelidade.

 

Credo e identidade protestante hoje

Consequentemente, para o protestantismo atual, o Credo continua relevante, não como imposição doutrinal, mas como afirmação ortodoxa da Fé e ponto de encontro ecuménico. Não substitui a Escritura, mas ajuda a lê-la com fidelidade, mantendo viva a consciência de que pertencemos a uma longa tradição.

O teólogo Karl Barth expressou-o claramente ao dizer que é necessário confessar “com os antigos, mas na linguagem dos vivos”. O Credo possibilita precisamente isso: afirmar a fé cristã histórica num contexto atual e dinâmico.

 

Desafios contemporâneos

Assim, surgem novas perguntas essenciais: Que relevância tem uma confissão comum numa sociedade pluralista, onde cada um crê à sua maneira? Como pode o Credo contribuir para uma Igreja aberta ao diálogo e ao serviço num mundo secularizado?

 

O Credo hoje: espiritualidade, teologia e diálogo ecuménico

Depois de percorrermos a história do Credo Niceno e o seu impacto nas tradições protestantes, enfrentamos agora uma pergunta fundamental: que sentido faz, hoje, recitar este texto antigo? Num mundo pluralista, secularizado e fragmentado, ainda é relevante afirmar que Jesus Cristo é “Deus verdadeiro de Deus verdadeiro”?

 

A necessidade do Credo num tempo de incertezas

Foto de uma mulher a rezar no Santo Sepulcro. Foto © Albin Hillert / CMI

Uma mulher a rezar na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém: há muitas imagens de Jesus; o Credo é uma proclamação que orienta na experiência viva da fé. Foto © Albin Hillert/CMI-WCC

Atualmente, existem inúmeras interpretações e imagens alternativas de Jesus: mestre espiritual, revolucionário, profeta social, pacifista ou até mesmo avatar cósmico. Este pluralismo não elimina a importância do Credo; pelo contrário, torna-o mais necessário como bússola espiritual, clarificando quem Jesus Cristo realmente é.

O Credo, portanto, não deve ser visto como uma fórmula rígida, mas como uma proclamação que nos orienta na experiência viva da fé.

 

O significado profundo de dizer “Creio em”

A fórmula latina “Credo in” traduz uma ideia essencial: não apenas afirmar que algo é verdadeiro (credere aliquid) ou confiar em alguém (credere alicui), mas colocar toda a sua confiança e entrega pessoal em Deus (credere in Deum). Não significa apenas “acreditar que Deus existe” ou “ter uma opinião religiosa”, mas “confiar-se a”, “depositar a sua vida em”, ou seja, um ato de entrega pessoal profunda. Assim, quando confessamos o Credo, estamos a dizer algo profundamente existencial: confio-me plenamente a Deus Pai, a Jesus Cristo e ao Espírito Santo.

Contudo, nem todos os artigos do Credo têm o mesmo peso teológico, como bem ilustra o Credo Apostólico, considerado o símbolo batismal por excelência nas Igrejas do Ocidente.

Enquanto o Credo Niceno afirma “creio na Igreja”, formulação que pode sugerir, à primeira vista, a mesma confiança pessoal dirigida a Deus, trata-se, na verdade, de um reconhecimento distinto: a Igreja é acolhida como realidade espiritual e comunidade de fé, não como objeto último da nossa confiança.

Esse discernimento torna-se ainda mais evidente no Credo Apostólico, cuja formulação atual, embora posterior à do Credo Niceno, é amplamente utilizada nas Igrejas do Ocidente. Neste símbolo de fé, a fórmula creio em (Credo in, em latim) é reservada de forma exclusiva às três Pessoas divinas: Pai, Filho e Espírito Santo.

A partir desse ponto, o Credo prossegue com simples afirmações de adesão: “creio a Igreja, a comunhão dos santos, a remissão dos pecados, a ressurreição da carne e a vida eterna.” Trata-se, aqui, não de um ato de entrega total, mas de reconhecimento e acolhimento da realidade e do testemunho da Igreja e da fé cristã.

Refira-se, a título de curiosidade, que na prática litúrgica, por razões de fluidez oral, tanto católicos como protestantes costumam recitar “creio na Santa Igreja…”. A diferença surge sobretudo na utilização do termo “católica”: os protestantes, para evitar qualquer confusão com a Igreja de Roma, preferem muitas vezes omiti-lo ou traduzi-lo por “universal”, o que está em plena consonância com o sentido original do termo no contexto do Credo, tanto na versão nicena como na apostólica.

Um mero detalhe gramatical? De forma alguma. Esta estrutura, gramaticalmente rara e teologicamente significativa, distingue cuidadosamente entre um ato de fé teologal, que implica entrega total a Deus (credere in), e um ato de adesão ou reconhecimento (credere aliquid / alicui).

Crer “na” Igreja, neste contexto, significa aceitar o seu testemunho, acolher a fé vivida e transmitida pelos crentes ao longo dos séculos (comunhão dos santos), mas sem nela colocar a confiança última que só é devida a Deus.

 

A renovação teológica trinitária

Jürgen Moltmann

Jürgen Moltmann (na foto) e Karl Barth revitalizaram o entendimento da Trindade, mostrando que esta é sobretudo a revelação do próprio Deus na história. Foto © CMI/Marianne Ejdersten

 No século XX, teólogos reformados como Karl Barth e Jürgen Moltmann revitalizaram o entendimento da Trindade, mostrando que esta não é apenas uma abstração metafísica, mas a revelação do próprio Deus na história. Barth enfatizou Jesus Cristo – Palavra de Deus feita carne – como ponto de partida e de chegada de toda a teologia, enquanto Moltmann propôs uma Trindade profundamente solidária com o sofrimento do mundo.

Para Moltmann, Deus revela-se plenamente na cruz de Cristo, onde Pai, Filho e Espírito estão profundamente envolvidos no sofrimento humano. Na mesma linha teológica, veja-se igualmente o excelente livro do teólogo católico romano Leonardo Boff A Santíssima Trindade é a Melhor Comunidade (Vozes, São Paulo, 1989).

Esta visão trinitária oferece-nos um entendimento renovado da espiritualidade cristã, com implicações éticas e comunitárias significativas, encorajando uma Igreja aberta, inclusiva e dialogante. O Credo não é apenas uma declaração intelectual. É um convite à ação prática:

  • Não basta afirmar Deus como Criador; é preciso assumir uma ética ecológica concreta.
  • Não basta reconhecer que Jesus foi crucificado; é preciso estar solidário com os crucificados de hoje.
  • Não basta crer na comunhão dos santos; é preciso promover a reconciliação e a unidade.

Neste sentido, o Credo é uma espiritualidade prática, uma fé vivida concretamente no quotidiano.

 

O Credo como ponte ecuménica

Hoje, o Credo permanece como uma importante ponte de diálogo e unidade entre católicos, ortodoxos e protestantes. Num contexto plural e fragmentado, ele ajuda-nos a afirmar com clareza e humildade a nossa identidade cristã, proporcionando um ponto sólido de encontro.

O pastor e mártir Dietrich Bonhoeffer, afirmou que só quem crê obedece, e só quem obedece, crê. O Credo, portanto, não é um fim em si mesmo, mas o início de uma vida plenamente comprometida com Deus e o mundo.

 

Um convite à reflexão pessoal

Por vezes dou por mim a perguntar-me: que frase do Credo te custa mais dizer com sinceridade? E, em contrapartida, que frase te consola, te anima ou te desafia?

Talvez seja precisamente aí, nessas interrogações, nesse lugar de tensão interior, que o Credo realiza o seu verdadeiro trabalho: como oração, como ato de fé, como apelo à conversão. É neste diálogo interior que reside a força do Credo: uma oração viva, partilhada, que continua a transformar vidas. Confessar o Credo não é repetir palavras antigas por hábito, mas deixar-se transformar por elas. É renovar, passo a passo, a nossa caminhada espiritual e ecuménica, com os outros, diante de Deus, no coração do mundo. Se alguma expressão me toca, me inquieta ou me desperta, então talvez o Credo tenha cumprido o seu propósito: continuar, com a Igreja de todos os tempos, a interpelar-me sobre a autenticidade da minha fé e sobre a necessidade de dizer Deus hoje, com universalidade e atualidade.

 

Joel Lourenço Pinto é pastor da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal e da Igreja Reformada Suíça; este texto corresponde à adaptação de uma videoconferência para o Centro de Estudos da Igreja Metodista.

 

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