“É flagrante em Eça… que jamais se verifiquem nos seus livros relações normais e vividas entre pais e filhos.” (Vergílio Ferreira, Espaço Invisível)

Eça de Queirós e a sua mulher Emília.
José Maria Eça de Queirós nasceu na Póvoa do Varzim, em casa de uma tia-avó materna. Teve uma infância e adolescência problemáticas. Filho natural do desembargador José Maria Teixeira de Queirós e de Carolina Augusta Pereira d’ Eça, a mãe parece não ter aceitado este filho [1], embora o desembargador Queirós lhe tenha afiançado, durante a sua gravidez, que casaria com ela; casaram seis dias após a morte da mãe de Carolina Augusta.
O pai da criança planeou tudo para que o recém-nascido fosse bem-vindo ao mundo. No assento do baptismo, surge o nome dele; a mãe é “incógnita”. É uma situação excepcional, pois naquele tempo só se assentava, no caso de um filho ilegítimo, o nome da mãe, nunca o do pai. O recém-nascido ficou ao cuidado de uma ama em Vila do Conde e passados cinco anos, quando aquela morreu, foi o menino levado para Verdemilho, uma aldeia junto de Aveiro, para a casa dos avós paternos que se responsabilizaram pela sua educação: o avô era desembargador, vivendo com eles um casal de criados pretos que contavam histórias fantásticas à criança.
Após a morte do avô, a avó fez o testamento a favor do neto [1]. Frequentou depois o Colégio da Lapa, no Porto, fazendo amizade, entre outros, com o futuro conde de Resende. Eça casaria com a irmã deste, Emília, muitos anos depois. Semi-interno, hospedava-se na casa de uns tios da mãe, embora os pais vivessem no Porto.
Eu não tenho história, sou como a República do Vale de Andorra (Eça de Queirós)
Eça seguiu Direito em Coimbra e aos 20 anos iniciou a sua carreira de escritor e jornalista na Gazeta de Portugal: contos de influência de Baudelaire, Heine, Michelet, Hugo. Os textos foram reunidos depois com o título de Prosas Bárbaras.
Estagiou em Lisboa aconselhado pelo pai e aí, finalmente, conheceu pela primeira vez a mãe e os irmãos. Foi viver com a família, finalmente, mas Eça achou melhor ir viver com o amigo Batalha Reis, estudante de Agronomia. Deram-se sempre muito bem. Frequentou o Cenáculo e foi conferencista nas célebres Conferências do Casino – “O Realismo como nova expressão de arte”: importância da intenção crítica na obra literária; influência de Flaubert.
Fruto de uma viagem ao Oriente, em 1869, escreve A Morte de Jesus, mas não termina a obra. No mesmo ano, escreve As Farpas – crónica mensal da política, das letras e dos costumes, coadjuvado por Ramalho Ortigão: “Obra de demolição e de construção”, escrevem os autores, criticando a sociedade, através do riso: “…O país perdeu a inteligência e a consciência moral…”
Pouco depois, Eça e Antero inventam um herói aventureiro, satânico: Carlos Fradique Mendes: “espécie de super-homem, mistura de Heine, Baudelaire, Chateaubriand”. [2]
Os crimes do Padre Amaro e do Primo Basílio

Eça de Queirós sentado a ler o jornal.
O Crime do Padre Amaro teve várias versões. A terceira, definitiva, mais subtil, em 1878. A marquesa de Alegros orienta o protagonista, Amaro, para o Seminário, após a morte dos pais, criados da casa. A Amaro desagrada-lhe o ambiente no seminário, sonha com mulheres e pensa: “… que ser é esse, ora colocado sobre o altar como Rainha do céu ora amaldiçoada como … Serpente, Dardo, Filha da Mentira, Porta do Inferno, Cabeça do crime, Escorpião…”. [3] Padre em Leiria, hóspede na casa da São Joaneira (amante do cónego), Amaro faz um filho a Amélia, filha da casa. Quando esta dá à luz, o padre debate-se num grande conflito, mas vence a cobardia: Amélia morre de parto e o nascituro é dado a uma ama especial, uma “tecedeira de anjos” – especialista em matar recém-nascidos não desejados.
No fim da obra, Amaro, em Lisboa, acompanhado pelo cónego seu protector e por um conde, grande estadista, falam de política, da Comuna de Paris e Amaro pergunta:
“– V. Excelência crê que essas ideias, da República, do materialismo se possam espalhar entre nós?”
“– ‘Não lhes dê cuidado [riu o conde]… é possível que haja um ou dois esturrados que se queixem… que estamos no marasmo… a verdade, meus senhores, é que os estrangeiros invejam-nos… enquanto houver sacerdotes como Vs. Senhorias, Portugal há-de manter com dignidade o seu lugar na Europa. A Fé é a base da Ordem… Vejam que animação, que prosperidade!’… e com um gesto mostrava-lhes o Largo do Loreto… tipóias vazias rodavam devagar, pares de senhoras passavam… derreadas, a palidez cloritóide de uma degeneração da raça… e [eles] junto à [estátua de Camões] gozavam de cabeça alta esta certeza gloriosa da grandeza do país – ali ao pé daquele pedestal” [3].
O Primo Basílio. Basílio, rico, recém-chegado do Brasil, torna-se amante da prima Luiza, cujo marido se ausentara de casa, por razões profissionais. Luiza é uma mulher sentimentalista, de temperamento oscilante. A personalidade da criada Juliana, detestada pela patroa, é trabalhada ao pormenor: mulher gasta pela idade e pelos caprichos de inúmeros patrões, fria e calculista, enraivece-se particularmente com Luiza. A criada provoca uma situação limite e no momento que a patroa a despede, Juliana responde-lhe que não sai, “… com a voz estrangulada, com os dentes cerrados: – Olhe… as cartas que a senhora escreveu aos seus amantes, tenho-as eu aqui!” [3]. Pede-lhe muito dinheiro pelas cartas e Luiza toma consciência da sua leviandade, tem remorsos de ter agido mal. É acometida de febres, delírios. Quando o marido chega a casa, já a mulher está moribunda e morre.
No epílogo, Basílio queixa-se ao amigo visconde Reinaldo da morte da prima. Este, à laia de consolação, diz-lhe que ela não era elegante e Basílio suspira:
“– Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine!” [3]

Edição do livro Os Maias
A aurora do mundo novo… e depois… oh dor! Creio que envelheceu e apodreceu [4]
Já em 1879, Eça escrevera um pequeno romance que ficaria incompleto e se tornou obra póstuma: O Conde de Abranhos, com uma “carreira” típica de um político de então: pobre, educado por uma tia rica, Alípio tira o seu Direito, caça em Lisboa o dote da filha do desembargador, torna-se jornalista político, relaciona-se com figuras da grande capital: é, por ordem crescente, deputado, ministro, presidente do conselho; homem de letras e filantropo e finalmente… conde! “Alípio é um gangster do constitucionalismo monárquico: patife, pedante e burro” [4].
A miséria portuguesa
“Portugal é uma nação enferma… a doença existe…o mundo português agoniza, afectado de atonia…” [4] . A obsessão da decadência nacional, resumida na expressão miséria portuguesa, atravessa todas as grandes obras portuguesas nos meados do séc. XIX [4]; no entanto, já no séc. XVI, há esse pessimismo em intelectuais como Sá de Miranda, o Cavaleiro de Oliveira e muitos outros. A geração de 70 continua esse tema. O historiador Oliveira Martins afirma que “Portugal agonizou em Alcácer-Quibir e morreu de vez em 1580” [4].
Há nações para as quais a epopeia é ao mesmo tempo o epitáfio (Antero de Quental)
“Falhámos na vida, menino!” Este comentário é formulado por João da Ega, amigo íntimo do protagonista, Carlos da Maia, na obra magna do autor, Os Maias – Episódios da Vida Romântica, no final da obra, no passeio simbólico que ambos dão por Lisboa, quando Carlos, habitando em Paris, visita Lisboa, dez anos depois dos trágicos acontecimentos na sua vida. Fazem um pouco o mesmo itinerário do final de O Crime do Padre Amaro: o Largo do Loreto, a estátua de Camões, inaugurada no tricentenário da morte do grande poeta, que surge não como a glória de um povo, mas que permanece muda, apática, sem vida. Como uma simples formalidade.
Carlos da Maia, apesar de uma educação esmerada planeada pelo avô, afunda-se também no pântano da sociedade lisboeta dos políticos corruptos e ignorantes, dos oportunistas de vários matizes, das mulheres isentas de inteligência, da mediocridade da classe dirigente. Embora ele e Ega e meia dúzia de amigos tenham grandes projectos, não conseguem alterar a mediocridade instalada e “lança-os num diletantismo estéril” [5]. “… É horrível quando se vem de fora – exclama Carlos, “não é a cidade, é a gente… feíssima, encardida, molenga, reles, amarelada, acabrunhada” [3]. A visita dos dois amigos ao palacete desabitado da família é como visitar um túmulo: o famoso armário – símbolo do antigo esplendor de Portugal, agora maltratado; o avô, Afonso, representante da dignidade perdida, agora morto. No jardim “ouve-se o prantozinho da cascata” [3]: até a natureza chora a solidão, a morte; o triunfo da mediocridade e da corrupção de uma sociedade enferma.
Os dois amigos vão filosofando concluindo que “não vale a pena fazer um esforço para o amor, o poder, o dinheiro, a pátria” [3] mas correm desesperados para apanhar o americano que os levará ao opíparo jantar com os amigos no Braganza: “Ainda o apanhamos!”

Eça de Queirós em perfil
“A arte é tudo porque só ela tem duração. Tudo o resto é nada.” (Eça de Queirós)
Embora Eça seja considerado um escritor realista, não é verdade. Constatamos que se acentua, progressivamente, na sequência das suas obras, e com o avançar da idade, o carácter do insólito e do fantástico. O próprio estilo do autor intensifica essa tendência. Em Eça o tinir de um cristal fica longamente repercutindo… [6] “Era um dia já quente, azul-ferrete com um desses rutilantes sóis de festa que inflamam as pedras da rua, douram a poeira, dão [à cidade] essa branca faiscação de cal, dum vivo monótono implacável… vagamente entristece…” [3].
Neste pequeno excerto descritivo, há um elemento – o sol que devido a certas características altera a realidade concreta, transformando-a. A mistura, a interacção do objectivo e subjectivo produzem uma visão pictória, sinestésica. Tons quentes, amarelos tão intensos que se tornam brancos, contrastando com azuis fortes: “rutilantes sóis de festa”, “branca faiscação de cal”, “azul-ferrete”. Tudo isto une-se aos verbos inflamar “as pedras”; dourar a “poeira”. Mas no meio de tal intensidade de vida, “de festa”, permanece um “vivo monótono implacável” – nesta expressão, o vocábulo “vivo” liga-se à realidade objectiva e os restantes à subjectiva, caracterizando a cidade como um espaço fortemente monótono, falso, moribundo.
A Relíquia
Teodorico, o protagonista, é órfão e fica ao encargo da tia Patrocínio, em Lisboa: solteira, muito rica, muito católica, rodeada de eclesiásticos. Quando a criança é apresentada à tia, “lenta, a custo, ela baixa o carão chupado e esverdinhado. Eu [Teodorico] senti um beijo vago, de uma frialdade de pedra” [3]. Começa a farsa: Teodorico, jovem, cobiça a fortuna da tia. Desejando cair nas suas boas graças, após ter cursado Direito, em Coimbra, regressa a Lisboa e percorre todas as igrejas para assistir às missas; gaba-se junto da tia e dos padres da casa, ocultando com perícia os seus amores clandestinos.
De tal modo é eficaz que a tia o manda em peregrinação à Terra Santa. Encontra um cultíssimo companheiro de viagem, o alemão Topsius, que vai para os mesmos lados. Chegando aos lugares santos, coleciona o máximo de relíquias, sendo a principal a própria coroa de espinhos colocada na cabeça de Jesus, na Sua Paixão, garantem-lhe. Então surge o inesperado: Teodorico, acompanhado do seu fiel amigo, entra numa espécie de sonho, de delírio fantástico, vivendo as vésperas que antecedem a Paixão, a própria Paixão, a descida da cruz e o sepultamento do corpo de Jesus Cristo.
Esta narrativa, muito viva, ocupando um terço da obra, baseia-se na própria viagem do autor ao Médio Oriente e às leituras de Renan: “Ergui os olhos para a cruz mais alta… o rabi agonizava. E aquele corpo não era de marfim nem de prata e arquejava, vivo, quente, atado e pregado…” [3]. Chegado a Lisboa, no meio de uma assembleia tão santa, no momento em que desembrulhava a relíquia das relíquias – a famosa coroa de espinhos – surge em vez da preciosa relíquia uma voluptuosa camisa de noite de mulher… houve inexplicavelmente uma troca de embrulhos! O sobrinho é escorraçado logo da casa e com o tempo, reflectindo sobre os seus erros, Teodorico recompôs a sua vida: arranjou um emprego, deixou de ser hipócrita e mentiroso, casou e teve filhos.

Edição de A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, pela Livraria Chardron
A Ilustre Casa de Ramires
A história é um pouco fantástica, parece que a vemos coberta com um véu transparente. Há também aqui dois tempos: a novela histórica, simbolizando o passado glorioso do reino de Portugal e os feitos ilustres dos avoengos de Gonçalo Mendes Ramires; este insere-se na modernidade oitocentista: fidalgo decrépito, faz-se deputado “para sobreviver”. Mas “aquilo” não o seduz e resolve ir para a África e fazer uma grande plantação: cacau, borracha, coqueiros… Regressa feliz, rico e os amigos que o esperam, comentam:
“– Sabem vocês… quem ele [Gonçalo] me lembra?… a franqueza, a doçura… os fogachos e entusiasmos que acabam em fumo… a generosidade, o desleixo, a … trapalhada de negócios… “ “– Quem?” “– Portugal”! [3]
A Cidade e as Serras ou Exílio/Pátria ou França/Portugal [4]
- Jacinto vive em Paris cheio de todas as comodidades da máxima modernidade, rodeado de máquinas exóticas, para espanto do amigo Zé Fernandes, fidalgo provinciano que o visita. Mas o protagonista é um ser entediado, deprimido com o cinzento do céu parisiense, insatisfeito, saturado do luxo, do excesso, da companhia esporádica de uma amante frívola e respectivo marido e outros ricaços que vivem um quotidiano parisiense monótono que repele a vida.
Obrigado a ir ver o solar dos antepassados, numa aldeia do Douro, perde as bagagens e o criado no caminho de ferro e chega ao apeadeiro de Tormes, com o fiel amigo Zé Fernandes, sem nada. O palácio está em ruínas. Este desespero converte-se num simples mas saboroso arroz de favas, num esvaziamento quase místico – “num silêncio todo feito de luz e de sol” – e isto, ligado à simpatia do administrador e à gente encardida, mas simples e afectuosa que o acolhe, transforma-se em alegria, gosto pela vida. Protege os caseiros, gente miserável, conforta a pobreza, é chamado “pai dos pobres”. Casa com a Joaninha, prima do Zé Fernandes, tem filhos e tudo.
“Se vocês, homens poderosos – escreve ele, em 1890, a Oliveira Martins que se tornara ministro, mas por pouco tempo – pudessem arranjar aí um nicho ao vosso amigo há tantos anos exilado, teríeis feito obra amiga e santa…” [4]
* * *
Aconteceu algo semelhante com o autor. Primeiro, imbuído pela cultura francesa, não descansou até ser nomeado cônsul em Paris – o que só conseguiu pelas diligências do seu pai. Mas Paris entediou-o e vivia quase desterrado em Neuilly, com alguns amigos portugueses e uma família brasileira muito rica.
No Verão, enquanto a mulher ficava em França, veraneando com as crianças, Eça visitava e adorava vir a Portugal, visitando velhos amigos. Não era uma crise de “bucolismo”, mas uma neurose portuguesa dos intelectuais oitocentistas [4], analisada também por Unamuno que lhe chamou “um acto de sabiduría colectiva subconsciente” [4]. Em 1892, comenta com Oliveira Martins, numa carta: “Cá estamos na nossa choldra, sim, mas numa choldra que é portuguesa, só nossa, toda nossa.” [4]
Infelizmente, a amebíase contraída por Eça no Egipto [1] agravou-se e o autor faleceu extenuado, na sua casa, em Paris, após uma viagem em busca da cura.
O seu funeral, em Lisboa, teve honras de estado.
Notas
[1] – Maria Filomena Mónica, Eça de Queirós (“Os testemunhos familiares dizem ter sido ela senhora de génio violento o que teria levado a odiar o namorado, após a desfloração ou que a sua mãe embirrara com o pretendente por razões sociais…”); “após o casamento [dos pais], Eça ficou automaticamente legitimado”, mas não foi levado para a casa dos pais, embora [Eça]soubesse que tinha pais, irmãos…)
[2] – José-Augusto França, O Romantismo em Portugal.
[3] – Eça de Queirós, Obras Completas, edição Livros do Brasil.
[4] – João Medina, Eça Político.
[5] – António José Saraiva, As Ideias de Eça de Queirós.
[6] – idem, A Tertúlia Ocidental.










