Ecologia integral e conversão ambiental da Amazónia, respostas ao cuidado da Casa Comum

| 19 Mar 19 | Casa Comum, Destaques, Espiritualidades, Últimas

Alter do Chão, no Amazonas: a Pan-Amazónia, com 43 por cento da superfície da América do Sul, concentra 20 por cento da água doce não congelada e 34 por cento das florestas primárias do planeta, que abrigam entre 30-50 por cento da fauna e flora do mundo. Foto © Alexaschmitz/ Pixabay; Foto de abertura © Anders Friström/ Pixabay

 

A Universidade de Georgetown (EUA) acolhe, desde esta terça-feira e até quinta, um evento internacional intitulado “Ecologia Integral: uma resposta sinodal da Amazónia e de outros biomas/territórios chave para o cuidado da nossa casa comum”, que pretende ser uma contribuição para o Sínodo dos Bispos sobre a Amazónia.

Coordenado pela Rede Eclesial Pan-Amazónica (Repam), e co-patrocinado pelo Departamento para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, a missão do Observatório Permanente da Santa Sé nas Nações Unidas, a Universidade de Georgetown e a Conferência Jesuíta do Canadá e dos Estados Unidos, com o apoio da Cáritas Internacional e a participação da Secretaria do Sínodo dos Bispos, o encontro, em que são esperados mais de 120 participantes de todo o mundo, pretende ser uma resposta à necessidade urgente de agir como humanidade enfrentando o futuro do planeta.

Não podemos esquecer, conforme relatado pelo site da Repam, que “a região da Pan-Amazónia tem sido historicamente concebida como um espaço a ser ocupado, controlado e integrado dependendo de interesses externos. É a partir da descoberta de recursos naturais que se posiciona como uma região prioritária; no entanto, cresce em torno dela uma concepção de atraso, longe da centralidade urbana e que tem um vazio demográfico, que permite tomá-la como terra disponível para servir os interesses dos grupos económicos e de poder; sua riqueza cultural, faunística e de flora torna-se invisível. Ela passou de “quintal” para “praça central do planeta”. É um bioma, isto é, um sistema vivo, que funciona como um estabilizador climático regional e global, produzindo um terço das chuvas que alimentam a terra”.

A Pan-Amazónia tem uma grande biodiversidade, albergando 2.779.478 indígenas, pertencentes a 390 povos, 137 povos isolados ou não contactados; existem 240 línguas faladas pertencentes a 49 famílias linguísticas. Tem quase 35 milhões de habitantes no total. A Pan-Amazónia cobre uma área de 7,5 milhões de quilómetros quadrados, distribuída por nove países da América do Sul, incluindo a Guiana Francesa. Representa 43 por cento da superfície da América do Sul. A região amazónica concentra 20 por cento da água doce não congelada do planeta. Concentra 34 por cento das florestas primárias do planeta que abrigam entre 30 por cento e 50 por cento da fauna e flora do mundo.

A Repam quer encarnar o cuidado da Casa Comum e uma conversão sócio-ambiental na Pan-Amazónia, colocando-se ao serviço dos seus povos, e pretende lutar em defesa da sua sabedoria ancestral, seus territórios e seu direito a uma “participação eficaz nas decisões” que são feitas em relação com a sua vida e o seu futuro. A partir dessa perspetiva, “é absolutamente urgente e até mesmo imperativo que a Laudato Si’ se faça vida, que se sustente ao longo do tempo e se torne uma característica fundamental e inerente a toda a nossa tarefa eclesial”, como reconheceu Mauricio Lopez, secretário executivo da Repam.

Na mesma linha, outras redes estão nascendo, “estão tentando dar outra resposta também para a situação urgente de vulnerabilidade da nossa Casa Comum e dos mais pobres, incluindo os povos indígenas”, disse Maurício Lopez. É uma conversão sócio-ambiental, de modo que também estão presentes nesta reunião a Rede Eclesial da Bacia do Congo (Rebac), a recentemente criada Rede Eclesial Mesoamericana, o Sistema de Florestas Tropicais de Ásia-Pacífico, que também se está formando, América do Norte e Europa, também como entidades territoriais que devem acompanhar essa mudança fundamental.

Este evento é realizado no âmbito do Sínodo “Amazónia: novos caminhos para a igreja e para uma ecologia integral”, que como referido no Documento Preparatório é a fonte de reflexões que “superam o âmbito estritamente eclesial amazónico”, e tem como objetivo refletir e debater a consciência global da Pan-Amazónia e dos demais biomas e territórios essenciais para o futuro do planeta. Nesse sentido, Mauricio López insiste na necessidade de que “a ecologia integral seja uma categoria essencial para toda a humanidade e para toda a Igreja”.

Rio Amazonas: o encontro desta semana nos EUA tem como objetivo refletir e debater a consciência global da Pan-Amazónia e dos demais biomas e territórios essenciais para o futuro do planeta. Foto © Jesusfx10/Pixabay

 

Portanto, a reunião em Washington, que vai ter como metodologia de trabalho o ver-julgar-agir, “também pretende concretizar-se de forma territorial, com uma perspectiva de teologia da encarnação, o apelo à conversão ecológica que o Papa Francisco está pedindo”, insiste o secretário executivo da Repam. Deste ponto de vista, entende-se que a reunião tem “uma perspectiva global, para afirmar os outros processos regionais, que como acontece na Amazónia, com a Rede Eclesial Pan-Amazónica, estão sendo geradas e dando origem a uma nova eclesiologia” afirma Mauricio López.

Segundo o secretário da Repam, “um novo sujeito eclesial está nascendo: é um sujeito que complementa e reforça as ações de toda a Igreja, em parceria com todas as mulheres e homens de boa vontade, com as organizações dos povos indígenas, com organizações internacionais e regionais, para dizer: precisamos de uma mudança!”. Nós podemos dizer que o Sínodo para a Amazónia é uma oportunidade especial para incentivar mudanças profundas sobre o modo como a Igreja pode acompanhar e responder aos sinais dos tempos que ameaçam a vida dos biomas, o futuro dos povos indígenas e suas culturas, e o que coloca as gerações futuras em risco.

O secretário executivo da Rede Eclesial Pan-Amazónica agradece a presença dos diferentes organismos eclesiais que apoiam a reunião, juntamente com “organismos internacionais, como o Alto Comissariado para os Direitos Humanos da ONU, a Relatora Especial para os Direitos dos Povos Indígenas, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e, especialmente, organizações dos povos indígenas como a Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazónica, na Amazónia, como a Aliança Mesoamericana para os Povos e Florestas, na região da América Central, e outros representantes de povos originários da Ásia, Congo, América do Norte”.

Entre os representantes eclesiais, Mauricio López salienta “muitas presenças de organismos regionais, cardeais e bispos responsáveis pelas conferências em diferentes regiões do planeta e também entidades como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos com quem a REPAM está a trabalhar em relatórios especiais para a defesa dos direitos dos povos indígenas. A Conferência Episcopal da União Europeia, assim como representações da América do Norte e outras também estarão presentes.”

Da mesma forma, Lopez valoriza muito “o apoio da Secretaria do Sínodo dos Bispos, em preparação do Sínodo sobre a Amazónia, que é um elemento que acompanha, dando contexto para esta discussão, desde a preparação do Sínodo sobre os Jovens, em Outubro passado. O cardeal-secretário do Sínodo dos Bispos também estará presente, e isto dá um impulso ao processo sinodal “.

Podemos dizer que tudo o que se pretende levar a cabo nestes três dias de debate, “é um grito de vida, um grito antes da mudança”, enfatiza Mauricio López. Ele insiste que “queremos ter um eco global, acompanhando o Papa Francisco e afirmando que a Laudato Sí’ simplesmente não pode morrer, nós simplesmente não podemos permitir que ela se apague, tem de se tornar um elemento orgânico da nossa própria identidade”. Por tudo isso, parece essencial “acompanhar este caminho para incorporar a encíclicaLaudato Sí’ e também responder a essas conversões urgentes, incluindo a conversão pastoral”, conclui o secretário da Repam.

O que se pretende nestes três dias de debate “é um grito de vida, um grito antes da mudança”. Foto © Dieter Martin/Pixabay

 

[Texto publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos, em 18.03.2019]

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