Nesta viagem de sabores intensos, começámos pelas Cataratas Vitória (Victoria Falls), conhecidas localmente como “Mosi-oa-Tunya” ou, no nosso idioma, “o fumo que troveja”. São uma das maiores quedas de água do mundo e situam-se no Rio Zambeze, na fronteira entre o Zimbabwe e a Zâmbia. Têm 2 Km de largura e uma altura máxima de cerca de 108 metros. O ruído e o vapor não se conseguem descrever. Apenas se experimentam com os cinco sentidos rendidos à incapacidade de sintetizar esta vivência; apenas, delas, sobejam as memórias deste abrangente vivido, eternizadas nos nossos registos interiores; apenas permitem as partilhas entre os que já passaram por esta aventura e se renderam à grandiosidade que só a natureza preservada consegue destacar. Neste lugar, património mundial da UNESCO desde 1989, entrámos “por todos os lados” – caminhadas, passeios de barco e voo de helicóptero, até quase nos “esmagarmos” de emoção e rendermos obrigatoriamente à nossa insignificância.

Cataratas Vitória (Victoria Falls): “São uma das maiores quedas de água do mundo e situam-se no Rio Zambeze, na fronteira entre o Zimbabwe e a Zâmbia.” Foto © Margarida Cordo.
Depois no Botswana – Após dias de safaris e passeios no Chobe, levantando e vendo recolher os animais selvagens em terra e no rio, aterrámos num campo no Delta do Okavango, de avioneta, que sobrevoou por longos minutos a vasta savana. A emoção tomou outra vez conta de nós. O cheiro da terra aquecida pelo sol, misturado com a vegetação e a vivência dos habitantes selvagens (animais), entrou-nos pelas narinas bem abertas, trazendo consigo a promessa de mais aventuras a cada instante. A paisagem estendia-se diante dos nossos olhos, como uma espécie de mar dourado a dançar ao ritmo da brisa suave. A sensação de liberdade é aqui quase constrangedora, porque os bichos é que mandam. Estamos longe da agitação da vida urbana e totalmente imersos numa beleza bruta e primitiva.

“O cheiro da terra aquecida pelo sol, misturado com a vegetação e a vivência dos habitantes selvagens, entrou-nos pelas narinas bem abertas, trazendo consigo a promessa de mais aventuras a cada instante.” Foto © Margarida Cordo.
As tendas, dispostas ao longo do “acampamento”, são mais do que sofisticados refúgios. Metidas, quase disfarçadas, na natureza selvagem, ocupam uma espécie de espaço sagrado, onde a simplicidade se une ao esplendor natural. Ao entrar, temos de nos deixar envolver por uma atmosfera de tranquilidade, mas também de excitação. As paredes de lona não são barreiras, mas sim um convite para a conexão com o ambiente exterior, para o qual não podemos sair sem escolta, chamada por rádio amador que nos ensinam a operar à chegada. É escusado dizer que não temos internet. Que seria!

“Às vezes, os animais ignoram a nossa presença, mantendo as suas rotinas inalteradas, como se nem percebessem que têm espectadores curiosos ou intrusos.” Foto © Margarida Cordo.
Os safáris transformam-se em experiências quase místicas. A cada saída, a expectativa é palpável. Os guias, conhecedores das trilhas, das pegadas e dos hábitos dos animais, conduzem-nos por entre a vegetação espessa, onde a vida selvagem se esconde e se revela. O rugido, mais ou menos distante de um leão, a caçada que perseguimos ou o grito agudo de uma ave exótica faz-nos sentir pequenos, mas também parte de algo grandioso.
Às vezes, os animais ignoram a nossa presença, mantendo as suas rotinas inalteradas, como se nem percebessem que têm espectadores curiosos ou intrusos; outras vezes, a tensão aumenta – um elefante olha-nos de forma desafiadora, ruge, levanta as orelhas e vem na nossa direção; uma girafa curiosa aproxima-se, deixando-nos a sentir o peso do seu olhar.

” (…) um elefante olha-nos de forma desafiadora, ruge, levanta as orelhas e vem na nossa direção.” Foto © Margarida Cordo.
A cada encontro, a adrenalina corre nas veias. O respeito pela natureza torna-se uma prioridade; aprendemos a observar sem perturbar; a admirar sem invadir. As emoções fluem e a conexão com a vida selvagem torna-se uma experiência transformadora. Ficamos com uma nova perspetiva.
Quer no Chobe, quer no Delta do Okavango a tranquilidade da água contrasta com a energia da terra e o som suave das ondas embala-nos enquanto navegamos. Os hipopótamos aparecem e ficam demasiado perto dos nossos pequenos barcos, abrindo as mandibulas onde parecemos caber, se eles quiserem, claro.
No Delta, sobretudo, somos constantemente lembrados da fragilidade e da necessária resiliência da vida. A vegetação exuberante, nas margens dos canais que se vão formando na época das chuvas, é um abrigo para diversos animais e cada curva do rio promete novas descobertas e novos encontros. A sensação de estar cercado pela natureza no seu estado mais puro, mais autêntico, é avassaladora. Somos totalmente envolvidos pelo calor do sol, o cheiro da terra e os sons irreplicáveis da vida selvagem.

“A noite na savana é um convite ao silêncio, à contemplação. Os sons da vida noturna começam a ecoar, apenas interrompidos pelo barulho dos jeeps que os habitantes do lugar se habituaram a ignorar.” Foto © Margarida Cordo.
À medida que o dia se transforma em noite, o céu pinta-se de um profundo azul escuro salpicado de estrelas. A noite na savana é um convite ao silêncio, à contemplação. Os sons da vida noturna começam a ecoar, apenas interrompidos pelo barulho dos jeeps que os habitantes do lugar se habituaram a ignorar. Este é o sítio do planeta onde nos sentimos verdadeiramente irrelevantes, porque tudo e todos são bem maiores do que nós. Até as quase frágeis impalas, porque andam sempre em grandes grupos, têm uma dimensão enorme; até os solitários leopardos se impõem pela sua agilidade e perigosidade também.
A experiência de entrar na savana é uma oportunidade de aprender e crescer em harmonia com o mundo selvagem; é uma vivência única em que cada respiração faz a celebração da vida e cada momento é testemunho do poder e da magia da Terra.
Em cada primeira noite ali passada não consegui dormir. Os barulhos dos animais faziam-me pensar que, a qualquer momento, furasse a lona um ilustre não convidado. E, não. Não aconteceu. Conseguimos harmonizar-nos, aprender, respeitar e encontrar serenidade, apesar da inicial estranheza, para nós, de quase tudo ali.
Termino com uma citação atribuída a Winston Churchill – «A diferença entre os humanos e os animais é que os animais nunca permitem que um estúpido lidere a manada.»
Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt








