Ecumenismo: Todos queremos o mesmo e todos somos importantes

| 4 Fev 20

Celebração nacional inaugural da Semana da Unidade dos Cristãos, na Sé de Aveiro, em Janeiro. Da esquerda para a direita: Bispo Jorge Pina Cabral (Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana); bispo Sifredo Teixeira (Igreja Metodista), bispo António Moiteiro (Igreja Católica-Romana, diocese de Aveiro), pastora Eduarda Titosse (Igreja Presbiteriana), bispo Manuel Felício (Igreja Católica-Romana, representando a Conferência Episcopal). Foto © Catarina Sá Couto, cedida pela autora

 

Entre 18 a 25 de Janeiro de cada ano celebra-se a Semana pela Unidade dos Cristãos. Tenho o privilégio de viver naquela que muitos chamam a cidade do ecumenismo em Portugal – o Porto. Neste ano, na zona do Grande Porto houve orações quase todos os dias: todas aquelas em que participei foram co-presididas; alguém de uma Igreja fazia a leitura, de outra a oração dos fiéis, outra diferente da que recebe dirigia a homilia, etc. E em todas participaram fiéis e ministros de diferentes igrejas, com todo um calendário ecuménico apresentado para o resto do ano.

No convívio com outros cristãos, principalmente aqueles que não estão ou estiveram alguma vez envolvidos no movimento ecuménico, pergunto-me por vezes: será que as pessoas sabem bem o que é o ecumenismo? E será que o encaram da melhor forma?

Ecumenismo, como a maioria sabe, vem de uma palavra grega, oikoumene, que significa “Casa Comum” e designa o que, em linguagem mais simples, é o movimento pela unidade dos cristãos.

Acredito, todavia, que se confunda Unidade dos cristãos com unicidade. São duas realidades bem diferentes, que apenas têm em comum as primeiras três letras.

Sinto, por vezes, que muitos erradamente encaram a unidade dos cristãos como o movimento pelo qual todos os cristãos, nas suas diversidades, diferentes rituais e distintos entendimentos, esquecerem tudo isso, toda essa vivência, toda essa tradição, e de repente irem todos para a mesma Igreja. Aliás, melhor ainda: que todos os outros – que são diferentes de mim ou não acham exactamente o mesmo que eu em pequenas vírgulas – se unam à “minha Igreja”. Esta é a definição exacta da unicidade de todos os cristãos, bem diferente do ecumenismo.

 

Querer mudar o outro?

Talvez possamos não perceber de diferenças entre Igrejas. Mas, numa qualquer experiência relacional que já possamos ter tido, percebemos o total insucesso de entrar numa relação a querer mudar o outro. Nunca funciona: além de não estarmos a respeitar o outro e aceitarmos quem ele é, esquecemos que a diferença do outro me pode acrescentar e enriquecer a minha Fé. Esquecemos que alguém pode ter ideias diferentes e estas não têm de ser necessariamente más apenas por não serem as minhas ou da confissão que faço parte.

Que sucesso poderia haver, se todos os metodistas quisessem todos os outros cristãos na sua igreja? Ou os ortodoxos, ou os católicos-romanos ou os anglicanos? Se todos se reunirem querendo isto, todos estão destinados ao insucesso, pois os interesses estariam em óbvia contraposição.

Felizmente, este não é o bom entendimento do movimento ecuménico, que se expressa na convivência e união de todos os cristãos, nos seus diferentes modos de estar e viver em Cristo: é a unidade na diversidade da Igreja/corpo de Cristo.

Escreveu S. Paulo nas cartas (I Coríntios 12, 12-25):

Assim como o corpo é um só e tem muitas partes e todas elas, apesar de muitas, formam um só corpo, assim acontece também com Cristo. Todos nós, judeus ou não-judeus, escravos ou livres, fomos baptizados num só Espírito, para formarmos um só corpo. E todos recebemos o mesmo Espírito.

Realmente, o corpo não tem só uma parte, mas muitas. Se o pé disser: “Uma vez que não sou mão, não faço parte do corpo”, não é por isso que deixa de fazer parte dele. E se o ouvido disser: “Uma vez que não sou olho, não faço parte do corpo”, não é por isso que deixa de fazer parte dele. Se todo o corpo fosse somente olhos, como é que poderia ouvir? Se fosse apenas ouvidos, como é que poderia sentir o cheiro? Ora, a verdade é que Deus colocou todas as partes do corpo, cada uma no lugar que lhe pareceu melhor. Se todo o corpo fosse apenas uma parte, onde estaria o corpo? Ora, o corpo tem muitas partes, mas é um só.
Os olhos não podem dizer à mão: “Não precisamos de ti.” A cabeça não pode dizer aos pés: “Não preciso da vossa ajuda.” Pelo contrário, o que parece mais fraco no corpo é, por vezes, o mais preciso.

 

A casa e os compartimentos

Se a palavra Ecumenismo significa Casa Comum, e cada Igreja é um compartimento dessa casa, quem compraria/entraria numa casa só com cozinhas, ou só quartos ou só casas-de-banho? Individualmente, cada compartimento é essencial, serve uma necessidade, mas se toda a casa fosse só um compartimento não serviria o global, não serviria o colectivo, o mundo.

Recordo-me de um estudo bíblico para os jovens mais velhos na comunidade de Taizé, dirigido pelo irmão Émile, que dizia: que seria da riqueza da Igreja sem o misticismo que os ortodoxos trazem? da beleza eucarística católica? ou a importância dada à Palavra de Deus dos protestantes?

Sempre que, em conversa com um descrente, a evangelização não ocorre por meio de Cristo e tentamos vender uma igreja e a sua crença, estamos a mostrar-lhe só a cozinha; ele pode não saber ou sequer querer cozinhar, não vai querer entrar em casa porque apenas lhe falamos do compartimento que nunca o faria querer entrar; e nós poderíamos perfeitamente apresentar-lhe outros compartimentos que o fizessem querer entrar naquela Casa e sentir-se confortável.

Acredito que a meta é Cristo e as diferentes Igrejas apresentam propostas para chegar à meta. Como somos todos diferentes e reagimos através de diferentes estímulos, todas e todos temos a ganhar com a existência de diferentes igrejas, porque, na verdade, queremos o mesmo: que todos conheçam e reconheçam Cristo e convertam a sua vida à mensagem de Vida.

Após perguntarem a Jesus “Que devemos fazer para realizar as obras de Deus?”, ele respondeu: “Esta é a obra de Deus: acreditar naquele que Ele enviou”.

Eu nunca teria a relação que hoje tenho com Deus e a vontade de o seguir onde Ele me levar, se não fosse o entendimento da Palavra proporcionado no anglicanismo pela Igreja Lusitana. Se alguém aprimorar a sua relação com Deus e construir o seu Reino de amor, justiça e paz através de Maria ou outra pessoa (santos) que viveu esses valores e o inspira, que me importa? Não estará cumprida a obra de Deus se tanto eu como a outra pessoa cremos em Jesus enviado pelo Pai?

Se ambos, na nossa relação com o próximo, somos testemunhas de Cristo, se descrentes olharem para nós e reconhecerem o nosso comportamento como de cristãos, não está às claras o nosso testemunho ao mundo? Se os cristãos, independentemente da Igreja a que pertencem, se relacionarem todos, sem discriminações ou preconceitos, e até façam obras em comum para a glória de Deus, o mundo não assistirá à unidade visível em Cristo?

Vejo isto acontecer no Porto quando cerca de 400 cristãos de muitas Igrejas diferentes cantam pelas ruas movimentadas de Dezembro que “O Natal é de Jesus” ou quando, perante os abusos cometidos contra a Criação de Deus, vão juntos recolher plástico numa praia da sua cidade, entre tantos outros encontros que acontecem: sempre juntos na nossa diversidade, respeitando-nos e até com admiração mútua.

Ecumenismo designa a Unidade na Diversidade da Igreja de Cristo que somos (anglicanos, ortodoxos, católicos-romanos, presbiterianos, metodistas ou evangélicos contemporâneos), todos fazemos parte de uma mesma casa comum e de um mesmo Corpo de Cristo.

Todos queremos o mesmo e todos somos importantes.

 

Catarina Sá Couto é missionária leiga da Igreja Lusitana – Comunhão Anglicana, “jovem líder” da Carta da Terra e representante em Portugal dos Green Anglicans – Rede Lusófona

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