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[Os dias da semana]

Edgar Morin em Orleães

 

A morte de Edgar Morin no dia 29 de Maio, aos 104 anos de idade, foi devidamente noticiada na imprensa portuguesa (até no Correio da Manhã foi notícia de primeira página), tendo sido objecto de abundantes comentários que sublinharam, compreensivelmente, o apreço que o pensador francês tinha pelo nosso país. Aqui veio pela última vez, já centenário, para reflectir sobre a complexidade do mundo e do pensamento e para assinalar que “navegamos num imenso oceano de incertezas, onde existem apenas pequenas ilhas para nos irmos reabastecendo” [1].

Uma vida longa e fascinante e uma obra vasta e multidisciplinar não são susceptíveis de se esgotarem nas páginas dos jornais e das revistas, por muitas que sejam – e têm sido. Mas um dos seus livros preciosos tem ficado na sombra. Vale a pena recordá-lo. Intitula-se O Rumor de Orleães e foi editado em 1969 pelas Éditions du Seuil. Trata-se de uma investigação sociológica – que pode ser lida como uma grande reportagem – sobre, como o título da obra indica, um rumor que começou a circular na cidade francesa de Orleães, por esta altura do ano, em 1969. O boato difundido era alarmante: havia jovens raparigas a desaparecer nos provadores de roupa de seis lojas, cujos proprietários eram judeus. Quando experimentavam alguma peça de roupa, injectavam-lhes uma droga. Depois eram depositadas em caves até à noite, altura em que eram evacuadas. O propósito era colocá-las em redes internacionais de prostituição.

Não se registavam queixas na polícia, e, na imprensa, na rádio e na televisão, não havia qualquer notícia sobre o desaparecimento de fosse quem fosse. Mas a existência do rumor e o pavor que estava a suscitar na pacata localidade começaram a ecoar nos meios de comunicação social. A leitura dos textos publicados no jornal Le Monde (faz hoje 57 anos) e nas revistas L’Express e Le Nouvel Observateur (fará 57 anos daqui a dois dias) instou Edgar Morin e a sua equipa a irem a Orleães realizar uma investigação, “ao vivo e a quente”, para usar as palavras da introdução, no quadro de uma “sociologia do presente”, cuja apresentação é feita nas últimas páginas do livro.

Os artigos lidos tocaram o sociólogo por várias razões, designadamente pela “virulência deste rumor que resiste aos desmentidos: a) das autoridades oficiais; b) da imprensa regional e do conjunto dos mass media” e a “ressurgência e a modificação das estruturas anti-semitas populares”.

O boato começou em Maio, mas foi entre 2 e 15 de Junho que se travou “uma luta titânica” entre o rumor transmitido boca a boca e a informação oficial e mass-mediática, conta Edgar Morin no seu diário da investigação. Depois, registar-se-ia uma “perda de virulência”, uma “metamorfose”. “Na sua fase última e desesperada de resistência, o rumor tratou de refutar as alegações da imprensa e das autoridades e de inventar a conspiração judia in extremis: ‘São pagos pelos judeus para se calarem’”. Dito de outra maneira: “São uns vendidos”.

Nada comprovava o rumor. Nem notícias, nem queixas na polícia. Nada. E, no entanto, o diz que diz intensificava-se. E cada desmentido era aproveitado para alimentar a falsidade.

O Rumor de Orleães antecipa um procedimento que as redes sociais viriam popularizar, a propagação da mentira, com as consequências trágicas que, apesar de tudo, não se registaram na cidade francesa. Um exemplo entre mil: dezenas de pessoas foram mortas na Índia por multidões em fúria, sob a acusação, difundida através de mensagens falsas no WhatsApp, de serem raptores de crianças [2].

A extraordinária actualidade da obra com quase seis décadas impressiona. Nela descobrimos medos mais fortes do que os factos; minorias rapidamente transformadas em bodes expiatórios; uma comunicação informal, boca a boca, mais poderosa do que a imprensa e as autoridades; e rumores enquanto revelação de mitos profundos de uma cultura. É o caso das conspirações. O sociólogo e filósofo considera-as como operações mágicas de purificação (“estando o mal localizado em alguns, todos os outros são inocentados”) que visam “a imolação dos culpados”, “a imolação de um bode expiatório”. Aqui confluem, como Edgar Morin refere, o pensamento mágico e a demagogia política.

 

[1] Teresa de Sousa – Edgar Morin em Lisboa: “Espera o inesperado”. Público, 5 de Setembro de 2023
[2] WhatsApp becomes India’s new serial killer…via lynching. Times of India, 2 de Julho de 2018

 

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