Editorial 7M – É preciso fazer muito mais para responder à crise dos abusos

| 20 Fev 19

“Se não conseguirmos ir até ao fundo na questão dos abusos, não recuperaremos a credibilidade e a pureza da missão da Igreja”. As palavras são de Federico Lombardi, o padre jesuíta que o Papa Francisco escolheu para coordenar o encontro com os presidentes das conferências episcopais e outras figuras da hierarquia católica que a partir desta quinta-feira, 21, decorre no Vaticano.

A pergunta que a um observador atento cabe fazer é esta: e qual é “o fundo”, na questão dos abusos sexuais por membros do clero? Pergunta incontornável, tantos são os aspetos implicados, as atitudes perante o escândalo, as interpretações do que se passou e continua a passar e as decisões sobre as medidas a tomar.

No que todos temos lido, ouvido e lido, há pontos sensíveis que precisam de ser clarificados, para não se laborar em equívocos que conduzem ao abismo. A saber:

– Não é a eclosão dos abusos na opinião pública que é uma catástrofe. A catástrofe está nos abusadores, na sua impunidade e no seu encobrimento.

– No mundo global em que vivemos, a crise dos abusos é também global. O que se passa na Espanha, na França, na Irlanda ou nos Estados Unidos da América tem impacto em países onde os casos conhecidos são marginais.

– Apesar de os abusos sexuais sobre crianças terem decrescido significativamente na última década e meia nos meios eclesiais, o problema está longe de estar resolvido. Atrás das primeiras, virão os adultos e, em particular, as mulheres. Ao contrário do debate sobre os abusos, está longe de ter atingido igual projeção o debate sobre o clericalismo que lhe subjaz. É mesmo de admitir que, entre as mais jovens gerações do clero, se tem vindo a reforçar a cultura do clericalismo.

– Uma atuação inteligente e sábia não é aquela que procura gerir os danos dos casos que surgem, mas a que cria as condições que apoiem e protejam as vítimas, quer as que deram a cara quer as que não têm coragem para o fazer, caso existam.

Se o centro do problema está no clero e no seu modo de lidar com a crise, o foco da ação e da preocupação deve começar por cuidar das vítimas.

Em Portugal, a atitude dos bispos pode considerar-se minimalista e a jogar à defesa. As normas orientadoras de 2012, estabelecidas para as dioceses pela Conferência Episcopal, são exemplo disso. Hoje, seria possível, com o que se viveu e de que se tomou consciência, ser-se bastante mais ousado. As sucessivas declarações dos últimos meses sublinham o facto de não haver casos novos sobre a mesa.

A recente investigação do Observador, que espiolhou, no limite do exagero, os (poucos) casos mais falados desde 2000, mostrou, porém, sintomas preocupantes, repetindo más condutas já registadas noutros países: demora em agir, depois de se tomar conhecimento de comportamentos graves; transferência de padres para outras paróquias; pouca atenção relativamente às vítimas; e cinco dioceses que se recusaram a responder às questões colocadas pelos jornalistas daquele jornal digital (sem contar as que deram respostas evasivas).

O Papa Francisco pediu às conferências episcopais que se encontrassem com as vítimas, como forma de preparar a participação na ‘cimeira’ prestes a iniciar-se em Roma. Nós não temos de facto, muitos casos conhecidos. Mas há vítimas localizadas, algumas das quais são já maiores. Aparentemente, os bispos, e em particular o presidente da Conferência Episcopal estaria disponível para se reunir com elas, se elas ‘se chegassem à frente’. Ao contrário do que foi dito, isto não pode ser considerado “disponibilidade ativa”. Se é disponibilidade, é objetivamente passiva.

Em sociedades como a portuguesa, marcadas pela cultura do ‘respeitinho’ e do silêncio, é óbvio que é necessária uma coragem extraordinária para dar a cara. Não é apenas o opróbrio do abuso sexual. É o receio mais do que natural do espetáculo mediático e das consequências nefastas de diverso tipo que podem seguir-se. Mesmo que não houvesse mais casos – o que faria deste país um caso singular – seria da mais elementar prudência que fosse a própria Igreja a tomar a iniciativa de criar canais seguros para que pudessem ser feitas eventuais denúncias, canais esses supervisionados por pessoas de reconhecida independência e probidade. 

Uma atitude defensiva e medrosa é nociva para todos, e para a Igreja em primeiro lugar, por indiciar falta de coragem e falta de visão. Casos eventualmente existentes a aparecerem aos poucos, a conta-gotas, continuarão a contribuir para moer e demolir a credibilidade e desmoralizar crentes e não-crentes. Hoje são as crianças, amanhã serão outros grupos vulneráveis. Esta via não tem saída.

Vemos prevalecer mais a preocupação de esperar para ver ou de seguir o que vem de Roma do que a tomada de iniciativas ousadas de estimular o estudo e o debate sobre a ‘cultura’ e os processos que geram a pedofilia e os abusos. Estímulo e debate que deveriam ser feitos em articulação com outras instituições, religiosas e não só, que podem dar significativos contributos. Não basta a ‘tolerância zero’, nem sequer a transparência (que está longe de existir). É preciso (muito) mais.

Artigos relacionados

Breves

Alemanha: número de crimes contra judeus é o mais elevado desde 2001

A Alemanha registou no ano passado o número mais elevado de crimes motivados pelo antissemitismo desde que os mesmos começaram a ser contabilizados, em 2001. Os líderes da comunidade judaica daquele país prevêem que a situação continue a piorar com o surgimento de uma nova vaga de “teorias da conspiração” associadas aos judeus, na sequência da pandemia de covid-19.

Igreja Católica contesta alteração da lei de biotecnologia na Noruega

Um comité de especialistas da diocese de Oslo acusa a alteração à lei da biotecnologia, aprovada na semana passada pelo parlamento norueguês de “abolir os direitos das crianças” e “abrir caminho à eugenia”, dando a possibilidade de, mediante testes pré-natais precoces, fazer abortos nos casos em que o feto apresente patologias ou seja de um sexo diferente do desejado pelos futuros pais.

Boas notícias

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha

“Conhece um judeu”: projeto inovador quer dar “voz e cara” à comunidade judaica na Alemanha

Pode parecer estranho, mas é verdade: muitas pessoas na Alemanha, em particular as mais jovens, nunca conheceram judeus, a não ser pelos livros de História. Para aumentar a exposição e o contacto com esta comunidade, que atualmente corresponde a menos de 0,2% da população daquele país, o Conselho Central de Judeus lançou o projeto “Conhece um Judeu”, que vai apresentar judeus a não judeus e pô-los a conversar.

É notícia

Entre margens

Peste Malina novidade

Não, não é O Ano da Morte de Ricardo Reis, mas é o ano d’A Peste. As Ondas de pequenos monstros transformaram a terra num Vasto Mar de Sargaços. Qualquer Coisa Como um Lugar de Massacre. Nada vai voltar a ser como O Mundo em que Vivi. Sim, Os Dias Tranquilos acabaram, Os Anjos desfizeram As Estrelas Propícias (se é que, na verdade, alguma vez existiram). Agora, a vida está Em Frente da Porta, do Lado de Fora e toda a gente está confinada aos Pequenos Delírios Domésticos.

Afinal, quem são os evangélicos?

A maior parte dos que falam de minorias religiosas como os evangélicos nada sabem sobre eles, incluindo políticos e jornalistas. Em Portugal constituem a maior minoria religiosa, e a Aliança Evangélica Mundial conta com mais de 600 milhões de fiéis em todo o mundo.

Um planeta é como um bolo

O planeta Terra tem registado emissões de dióxido de carbono bastante mais reduzidas nestes primeiros meses do ano. Não porque finalmente os decisores e líderes políticos consideraram cumprir o Acordo de Paris, não por terem percebido as consequências trágicas de um consumo insustentável de recursos para onde o modelo económico e de vida humana no planeta nos leva, mas devido à tragédia da pandemia que estamos a viver.

Cultura e artes

“Travessia com Primavera”, um exercício criativo diário

O desafio partiu da Casa Velha, associação de Ourém que liga ecologia e espiritualidade: um exercício artístico e criativo diário, a partir da Bíblia. Sandra Bartolomeu, irmã das Servas de Nossa Senhora de Fátima, apaixonada pela pintura, aceitou: “Algo do género, entre a oração e o desenho – rezar desenhando, desenhar rezando ou fazer do desenho fruto maduro da oração – já emergia em mim como um apelo de Deus, convite a fazer do exercício do desenho e da criação plástica meio para contemplar Deus e dar concretude à sua Palavra em mim”, diz a irmã Sandra. O 7MARGENS publica dez aguarelas resultantes desse exercício.

Credo

O Deus em que acredito não é pertença de ninguém, não tem registo, é sem patente. É polifónico, é um entrecruzar de escolhas e de acasos, de verdades lidas nos sinais dos tempos, de vida feita de pedaços partilhados e também de sonhos.

Diálogos com Paulo Freire

Trata-se de dois livros inspirados na filosofia de Pauloreire, a quem de há largos anos chamo meu “Mestre”: o primeiro, de Christopher Damien Auretta, Diz-me TU quem EU sou: Diálogo com Paulo Freire. O segundo, do mesmo autor com João Rodrigo Simões: Autobiografia de uma Sala de Aula: Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire (Epistolografia).

Sete Partidas

Retrospectiva

Regresso algures a meados de 2019, vivíamos em Copenhaga, e recupero a sensação de missão cumprida, de alguma forma o fechar de um ciclo ao completarmos 10 anos de vida na Dinamarca e nos encontrarmos em modo de balanço das nossas vidas pessoais, profissionais e também da nossa vida interior. Recordo uma conversa com uma querida amiga, onde expressei desta forma o meu sentimento: “a nossa vida aqui é boa, confortável, organizada, segura, previsível, mas não me sinto feliz.”

Visto e Ouvido

Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”

D. José Ornelas

Bispo de Setúbal

Agenda

Fale connosco